Precisamos conversar sobre a relação entre clubes e poder público

Por Alan Medeiros

 

Quando eu era criança, eu e meu irmão costumávamos jogar bola dentro de casa em dias de chuva e isso, às vezes, não terminava nada bem. Nós, mesmo sendo muito pequenos, sabíamos dos riscos que uma bola de futebol poderia causar dentro de uma casa repleta de espelhos e vasos. Ainda assim, fingíamos que eles não existiam. 

Hoje, consigo enxergar situação semelhante no olhar do poder público para o que diz respeito ao suporte e infraestrutura nos eventos de música eletrônica. Os perigos estão na cara, mas ninguém faz questão de solucioná-los. Existem diversos casos de negligência das autoridades no país inteiro, mas vou me ater em falar dos exemplos com os quais convivo de perto.

O último fim de semana pode ser considerado um marco na história da música eletrônica de Santa Catarina. O Warung recebeu Carl Craig, a Terraza apresentou Petre Inspirescu e diversas festas independentes aconteceram com line up de respeito. Ainda assim, um triste episódio manchou a data, e os fatos que o sucederam, nos trouxeram um convite ao debate sobre a relação entre clubes e o poder público. 

Os frequentadores do Warung estão acostumados com noites de longas filas que se formam através do acesso principal do clube, via Cabeçudas. O “plano b” é atravessar a lagoa que corta o caminho entre a Brava Norte e a Brava Sul.  

Nas noites de festa, pescadores se disponibilizam a ajudar os clubbers, tornando o percurso menos perigoso. Porém, na madrugada de sábado o mar estava agitado como poucas vezes foi relatado, e na tentativa de atravessar para chegar ao lado Norte da Brava, Enésio Lindomar dos Passos Rosa – funcionário do Galeras – acabou levado pela correnteza. Seu corpo foi encontrado algum tempo depois, já sem vida. 

É necessário olharmos além do triste e fatídico acontecimento. Prestando esclarecimento nas redes sociais, Gustavo Conti – sócio do Warung – disse que há mais de cinco anos o clube tenta doar uma passarela ao município de Itajaí, sem sucesso. 

É histórico o olhar marginalizado de alguns políticos para nossos eventos. Com a afirmação dos clubes como empresas, e o processo de profissionalização cada vez mais forte dentro da cena, chegamos em um ponto onde as próprias casas buscam melhorarias em prol do conforto de seus frequentadores.

O Warung por exemplo, preenche com seguranças particulares o trajeto entre a Praia de Cabeçudas até o clube. Ao término da festa, é triste notar a ausência de qualquer policiamento nas imediações do clube, o que deixa o retorno para a casa de algumas pessoas bastante perigoso. 

Antes de qualquer medida, acredito que falta diálogo. Compreendo que as figuras que comandam as leis da nossa cidade pouco sabem a respeito do movimento artístico do qual fazemos parte e talvez nem desconfiem da quantidade de empregos que podemos gerar, de como o Brasil tem se tornado referência nas cenas techno e house a nível mundial e como isso tudo poderia catapultar a imagem de nossas cidades, como acontece em Barcelona, Berlim, Chicago e outros grandes polos que usam a cena a seu favor. 

Falta também uma aproximação, que já acontece ainda que timidamente em outros lugares do Brasil, mas é praticamente inexistente no litoral de Santa Catarina. Há muito tempo as festas de música eletrônica deixaram de ser vistos como um lugar de excessos pela sociedade. Hoje, fizemos parte do mainstream e devemos trabalhar por um ambiente cada vez mais seguro para todos que frequentam. 

A solução parte do extermínio do preconceito e da falta de conhecimento que nossa cena sofre. Na década passada, as raves foram proibidas com a alegação de que ofereciam riscos a sociedade. Desregulamentaram eventos que poderiam ter maior fiscalização, deixaram-os mais inseguros e o resultado é justamente o inverso do que se pretendia alcançar. 

As festas ligadas a música eletrônica exigem um estudo e olhar diferente das demais. Há uma logística especial, uma dinâmica que necessita de diálogos mais abertos para que a redução de danos deixe de ser uma utopia e passe a ser uma realidade. 

Pessoas morrem por falta de informação e isso é muito evidente em um país como o Brasil, que se nega a debater assuntos polêmicos, prefere vetá-los. É assim com as drogas, com os cassinos, com a prostituição e em certos pontos, com a música eletrônica também. 

A vida de um trabalhador poderia ter sido poupada, caso o poder público estivesse em maior sintonia com os clubes da Brava Norte. Lá, existem eventos que arrastam milhares de pessoas por noite há mais de uma década. É óbvio, está estampado para quem quiser ver, que uma passarela de pedestres desafogaria o acesso principal às festas, traria segurança para a Barra Sul e acabaria com qualquer risco de tragédia semelhante ao acidente do último fim de semana. Não é possível e nem sensato querer controlar fenômenos naturais, como as marés. 

O mundo está olhando para a música eletrônica brasileira. Deixar de cometer erros patéticos é o primeiro passo a ser tomado para a construção de uma cena mais humana, que preza pela vida em primeiro lugar. Isso passa inevitavelmente por uma aproximação dos órgãos públicos e clubes, com urgência. Não deixem que mais pessoas paguem com a vida pela omissão de ações tão necessárias. Façam alguma coisa, por favor! 

 

 

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