POR Alan Medeiros
Sou da geração que cresceu ouvindo as 7 melhores da Jovem Pan. Logo, é possível imaginar que a música pop esteve presente na minha infância e foi assim até a chegada do Soundcloud. A plataforma foi a primeira a me oferecer reais condições para que realmente começasse a pesquisar e entender aquilo que mais tarde se tornariam minhas preferências musicais. Diferentemente das rádios, eu estava no controle. Poderia escolher qual música ouvir, quando ouvir e quantas vezes ouvir.
Foi também no Soundcloud, que ainda muito leigo no assunto, descobri que o Brasil possuía uma cena promissora, repleta de jovens produtores que estavam fazendo um som diferente do que rolava nos clubs e rádios de música eletrônica na época. Isso me cativou bastante. Essa mesma rede social, despertou o meu interesse em fazer uma análise mais funda sobre as possibilidades de negócio que ali surgiam e então, percebi que estávamos testemunhando uma geração que de forma praticamente independente, migrou de seus estúdios improvisados em casa para as pistas dos maiores clubs do Brasil.
Poderia facilmente citar vários nomes, mas acredito que HNQO, Fabo e – mais recentemente – Vintage Culture, são grandes exemplos de sucesso que surgiram dentro do Soundcloud. Apesar de adotarem linhas de som diferentes em suas carreiras, eles possuem em comum uma questão importante: Todos eles foram pioneiros na construção de uma identidade. E isso não reflete necessariamente um estilo musical avançado.
Veja por exemplo o caso de “We do it” do HNQO. A linha de baixo e o estilo de vocal da faixa lançada pela Playperview foi amplamente copiada depois de seu lançamento – em alguns casos até com maior felicidade – até se tornar uma febre, porém nenhum outro artista aproveitou tão bem o começo da explosão do deep house como ele, que hoje apresenta uma evolução significativa em sua identidade sonora e já tocou por alguma das principais pistas da Europa.
Se parássemos para analisar individualmente os demais exemplos citados, chegaríamos com tranquilidade na mesma conclusão. Presumimos então, que pioneirismo e identidade, são características fundamentais para o sucesso em uma cena cada vez mais saturada.
“AGORA TODO MUNDO É DO TECHNO”.
Certamente, se você está inserido na cena de alguma forma, ouviu essa frase em 2015. Na realidade, essa fala é bastante antiga e só muda a vertente em questão. Entretanto, apesar de batida e irritante em alguns casos, ela é verdadeira. Falta identidade aos jovens produtores brasileiros que não conseguem sair do bolo e isso vai muito além de uma inexistência de estilo próprio – com muitas coisas “soando parecido”. A internet está a disposição para aprofundarmos nossa pesquisa musical. É impossível criar tendência sem entender as origens da cena em que vivemos.
É perceptível também que há uma “falsa idolatria” por nomes que estão em frequente tour no Brasil. Lógico que há uma razão mercadológica e musical para eles estarem aqui, mas o universo da música eletrônica é imenso e se ater apenas a esses artistas a meu ver é uma falha grave. Se todos estão de olho no trabalho destes, faça diferente.
Você adora o trabalho do Mano Le Tough? Procure saber quais artistas ele toca, quem são suas referências, como tem sido sua evolução sonora nos últimos anos. Se você mantém sua visão na mesma altura dos demais, não conseguirá jamais criar algo diferente, seja na produção musical, seja no DJing.
Os grandes produtores são artistas que representam um ponto fora da curva, realizando um trabalho a frente de seu tempo e, por muito tempo, chegaram a ser incompreendidos. Os principais DJs do mundo são pesquisadores incansáveis, viciados em música que entregam à pista um material exclusivo.
O sucesso só vem quando você trabalha fora de sua zona de conforto, em constante mutação e ininterrupta busca pela fixação de uma identidade. Mantenha a coerência no seu trabalho e faça com que sua música seja reconhecida. Crie o seu próprio futuro. Enquanto fizer igual à maioria, mesmo com maior qualidade, não sairá do bolo. Apresente algo diferente e as pessoas vão querer ouvir o que você tem a mostrar. Falta identidade para quem quer sair da medianidade.
