Entrevista com Claudio da Rocha Miranda Filho, fundador do Rio Music Conference

Por Gabriela Loschi

Começou ontem o maior encontro de entretenimento e business da América Latina, que esse ano está acontecendo no complexo do Porto Maravilha e proporcionando uma experiência totalmente diferente aos participantes. Fundado pelo empresário Cláudio Rocha Miranda Filho, o Rio Music Conference é o evento que todos os profissionais envolvidos com música eletrônica deveriam participar. Não há melhor lugar para se expor e mostrar o seu trabalho, fazer networking e conhecer as entranhas deste mercado que cresce ano a ano no Brasil e no mundo.

Além dos painéis, ontem à noite foram revelados os vencedores do 5º prêmio RMC, que você pode conferir aqui. Sobre isso e muitas outras novidades em 2016, além do Rio Music Carnival na semana que vem, Claudinho (como o empresário é conhecido) falou nesta entrevista exclusiva, onde detalhes dos dois eventos foram desvendados.

Antes do que interessa, só mais uma dica: Ainda da tempo de se inscrever e participar das palestras e workshops de hoje e sexta, clicando aqui ;)  Já os ingressos, line up e todas as informações sobre o Rio Carnival estão disponíveis aqui.

Vamos lá:

HOUSE MAG – Olá Claudinho! O RMC 2016 estreou em casa nova! Parabéns, estamos ansiosos para esta edição! Conta um pouco sobre essa mudança: Por que o Porto Maravilha e como está sendo a dinâmica da conferência ao longo dos 3 dias?

CLAUDINHO – Estamos muito satisfeitos pelo RMC estar de casa nova e por esta edição ser realizada no Porto Maravilha. A cidade deu um grande upgrade naquela região, após derrubada da Perimetral. Existe um grande processo de revitalização na área e nós, moradores do Rio, fomos premiados com os 2 novos museus. Já vínhamos estudando um novo espaço, pois o antigo estava um pouco saturado – e essa mudança coube muito bem. Lembrando um pouco, o Rio Music Conference começou na Marina da Glória num formato parecido com o de uma feira. Logo depois, passamos para um formato com cara de congresso, que foram os 3 anos no Hotel Pestana em Copacabana. Agora, demos um grande salto nas novas instalações. Realizar o evento no Porto Maravilha vai ao encontro dos interesses da cidade também, em revitalizar a área e levar público pra lá. Pro setor da música eletrônica e do entretenimento, isso também é maravilhoso, afinal, o próprio RMC está tendo divulgação extra por conta disso.

Os 2 primeiros dias marcam o início do RMC. No 3º dia terão palestras mais voltadas para o futuro, pro que é tendência e até com conexões para a cidade. Na sexta também rolam painéis no MAR (Museu de Arte do Rio). As pessoas poderem visitar os museus entre um painel e outro, almoçar por lá mesmo, e estarem totalmente inseridas na maior função do RMC que é conectar as pessoas do mercado.
 

HOUSE MAG – Há 5 anos o RMC premia os melhores profissionais brasileiros, de acordo com um juri técnico composto por profissionais do mercado. Conte para o público que nos lê qual é a importância deste prêmio, bem como o processo de escolha dos indicados e quem são os profissionais especializados que votam.

CLAUDINHO – Essa é a 5ª edição do Prêmio RMC. Quando o criamos, precisamos contar ao Brasil que o RMC era uma conferência internacional que promovia um encontro do mercado no setor latino americano. Começamos a fazer edições regionais e listamos referências relevantes em cada área de atuação do setor no Brasil. Em seguida, criamos o grupo dos embaixadores que somam hoje 981 profissionais da área e com o input deles e da nossa ouvidoria – que é bastante ativa e aberta para novas sugestões – elegemos de forma fechada o trabalho dos melhores artistas e empresários, com o objetivo de inspirar novas pessoas também. Esse ano incluímos novas categorias e retiramos outras para que a premiação seja perfeita.

HOUSE MAG – O line up do Rio Music Carnival também apresenta novidades. Primeiro, uma noite inovadora de baile funk que provocou polêmica. Há quanto tempo esta ideia está sendo maturada? Foi uma decisão mercadológica, além de cultural?

CLAUDINHO – O headliner desta noite é o Dennis, com convidados que não necessariamente tocam funk, mas estão ligados à cultura da bass music, uma cena forte aqui no Brasil, com N artistas que flertam com a cultura do black, trap, etc, como o Omulu, Marginal Men e o Rodrigo S. Pesquisamos muito. Foi uma decisão mercadológica fazer essa noite, claro, para quebrar paradigmas e certamente ela será sold out primeiro do que as outras. Mas acho que a música eletrônica é por essência multiplicadora e a figura do Dennis representa bem a figura do artista da EDM. Com luzes e efeitos, ele fala no microfone, sobe no palco… Musicalmente é engraçado, porque o funk lá fora é mais reconhecido que aqui. Nós vemos DJs como o Dixon e o Skrillex falando bem e até tocando samples em seus sets. Já aqui, vemos uma certa resistência, apesar do Rio ter uma cultura local grande há anos. Estamos em um momento ótimo no Brasil. Headliners de grandes eventos são brasileiros, como Vintage Culture e Alok. Temos talentos como Illusionize, Gabe, Dashdot e outros que virão. Com o dólar a R$ 4, está muito caro contratar artistas internacionais e achar que só eles entregam não cabe mais no mercado. Essa é uma grande oportunidade de mostrar novos valores e se reinventar através dos talentos locais, seja ele no funk ou em qualquer estilo. 

HOUSE MAG – Além desta noite, nos 5 dias de festival terão 2 brasileiros como headliners, 2 noites com super DJs e uma noite mais underground em parceria com o D-Edge. Conte um pouco sobre as dificuldades de se construir o line up de um festival como este ao longo dos anos e agora em 2016, desde a pista de Techno que muitas vezes não fechou a conta, até a influência do dólar altíssimo e dos super-cachês, passando pelo cuidado que têm com a curadoria do evento.

CLAUDINHO – Essa crise tem alguns aspectos. O consumidor tem menor poder de compra, o que diminui o tamanho do nosso mercado. Acho que o brasileiro não vai deixar de sair, mas ele vai fazer escolhas e isso faz com que os eventos precisem ser melhor planejados e executados, com a comunicação e promoção também. Ficará muito mais difícil trazer artistas internacionais daqui pra frente. O contratante terá que olhar de fato para a cena nacional e fazer uma acerto de contas com talentos que não eram tão valorizados, não só nos eventos mas na comunicação e nas campanhas também. Sempre foi um pouco desproporcional, o gringo com foto e fonte enorme num flyer, o nacional com nome menor. Essa desproporcionalidade não cabe mais hoje, pois nossos artistas estão com um nível de profissionalização tão bom quanto. Hoje produz-se talentos grandes nacionais da mesma forma do que lá fora. Todos os anos tinham 2 palcos na Marina, que aconteciam as noites mais comerciais ou uma noite mais voltada para o underground. Lá nunca funcionou muito a noite underground. Ano passado fizemos no Sacadura, que é uma venue menor e esse ano vai ser no 00. Esse modelo de fazer em outra venue faz mais sentido, é menor, fica mais charmosa a estrutura toda. Atende melhor o número de pessoas que vai, é uma decisão acertada. E abrigamos assim todos os gêneros da música eletrônica no evento em geral, tendo diversas noites para assim agradar a todos.

HOUSE MAG – O RMC cresceu junto com o mercado brasileiro. Qual é a importância do RMC para a indústria de música eletrônica brasileira hoje, na sua opinião?

CLAUDINHO – É difícil falar de um filho, mas a missão enquanto projeto e iniciativa, é ser o principal aglutinador e ponto de convergência do mercado para reunir informações, conteúdo, empresários. Nosso trabalho anual é estar dentro dos eventos internacionais trocando conteúdos. Temos parcerias com o IMS, em Ibiza, o ADE, em Amsterdam, o EDM Biz, em Las Vegas. Estamos presentes atuando e levando a mensagem do mercado brasileiro, ou conectando e trazendo pra cá o conhecimento sem gap de tempo. Em breve essa mão (que importamos mais que exportamos), começa a ser uma mão dupla. Temos uma cadeia de clubs, artistas, contratantes, festivais, fornecedores e prestadores de serviço que podem internamente fazer com que a roda gire e o ecossistema aconteça numa boa.

HOUSE MAG – A edição de 2016 do Rio Music Conference e do Rio Music Carnival é, até agora, a mais próxima daquilo que você visualizou alcançar quando idealizou o RMC pela primeira vez? O que você ainda sonha para o RMC?

CLAUDINHO – Eu ficaria uma semana respondendo essa pergunta. A musica eletrônica sempre foi distante culturalmente da nossa cultura local. O axé, samba, bossa nova são fortes, mas a garotada hoje em dia já nasce diferente. Hoje estamos fazendo uma conferencia de musica eletrônica no Museu de Arte do Rio e no Museu do Amanha, com o reconhecimento de outras cidades como SP, Curitiba. Colocar a musica eletrônica nesse patamar é a 1ª etapa do sonho que sempre tivemos. Que tome conta da cidade e aconteça em mais espaços, com mais atividades, quebramos uma serie de paradigmas. Mas ainda é cru e está aquém do que queremos. A gente chega em reuniões com as ideias e as pessoas associam ainda a uma rave, a drogas. Por incrível que pareça ainda vivemos isso. Vi o Carnaval eletrônico em Curitiba… tentamos fazer no Rio esse ano algum bloco eletrônico mas não rolou. Isso é mais combustível pro nosso negocio, pra gente chegar lá. Estou super satisfeito, é uma coisa meio orgânica, vamos aprendendo e errando, mas é muito legal ver aonde já chegamos, principalmente a conferencia. Acho que o festival é como outro, ele vive os altos e baixos do mercado. Chamavam-nos de malucos, de fazer durante o Carnaval. O Carnaval no Rio cresceu, tá gigante, tá maior, tem diversos blocos. O Rio Music Carnival tem um teto de crescimento, a não ser que a gente leve pra outro caminho, mas a alma do projeto sempre foi a conferência, que é a alma da historia. Ter o reconhecimento da indústira internacional inteira é muito gratificante. O caminho tá começando. A missão era essa.

HOUSE MAG – Fale um pouco sobre você: Quem é o Claudinho, idealizador do evento?

CLAUDINHO – Trabalho com isso desde 19 anos. Nunca fiz outra coisa além de produção de eventos e trabalhar com entretenimento. Nascido e criado no Rio de Janeiro, 37 anos, economista de formação. Por um lado esse trabalho e essa vida é escravidão, por outro é um vicio. É muito gratificante, ainda mais quando vemos (me colocando com muitas outras pessoas), os passos dessa cultura, onde era, onde está e os caminhos da musica eletrônica. É bom ver que tivemos uma contribuição relevante dentro da história. Não vejo gente infeliz trabalhando com música, vejo gente que trabalha e fala muito. Fico feliz do RMC ajudar a profissionalizar tudo isso. Que acelere os processos de circulação das informações, a conexão de pessoas e acima de tudo a realização dos shows, dos eventos e festas. Tenho 2 clubs hj em dia no Rio, um deles o 00. Adoro o que faço, é tudo muito gratificante.

HOUSE MAG –  – Além de tudo o que já foi dito, gostaria que você deixasse um recado aos artistas e profissionais da música eletrônica que estão lendo esta entrevista: Por que é importante, para eles e suas carreiras, participar do Rio Music Conference e como podem ajudar o evento a crescer ainda mais? 

CLAUDINHO – Acho o RMC fundamental para conhecimento, mas acima de tudo, informação. Estar atualizado nos principais temas do mercado, mas além de tudo conectar pessoas. Vivemos um mundo extremamente digitalizado hoje em dia. Todos se falando por e-mail, whatsapp e tals. Mas as relações humanas se fortalecem no olho humano, no tato. Então você se encontrar pessoalmente é essencial, criar melhores relações, aproximações, conectar pessoas, interesses, historias e negócios. Acho isso fundamental em qualquer indústria e esse é o maior valor que esses eventos de networking oferecem aos profissionais da nossa indústria.

 

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