Por Anderson Santiago
Conhecido por ser o evento popular mais famoso do Brasil, o Carnaval está ficando cada vez mais democrático. Apesar de as maiores festas ainda apostarem em ritmos tradicionais como axé e samba, percebemos que, aos poucos, há mais espaço para gêneros como a música eletrônica. Prova disso foram as comemorações neste ano de 2016. Apesar do Carnaval em Salvados colocar música eletrônica (mais comercial) desde 2006, a cidade de São Paulo, por exemplo, que tem uma enorme cena clubber, somente agora ganhou seu primeiro bloco eletrônico. A segunda edição do pré-Carnaval curitibano reuniu nada menos do que 100 mil pessoas na rua. O Rio de Janeiro teve o Rio Music Carnival (leia nosso review aqui), festival que acontece todo ano na Marina da Glória, mas também teve bloco eletrônico. Mas não foi só nas regiões Sul e Sudeste que isso ocorreu: até em Rio Branco, no Acre, rolou uma farra recheada de beats pela primeira vez no meio do feriadão (leia a entrevista completa com os organizadores aqui). Saiba como foram os melhores agitos carnavalescos eletrônicos e conheça quem está por trás deles lutando para democratizar ainda mais a maior festa de rua do mundo.

Electric Summer Carnival em Rio Branco – Acre
Apesar de ter uma cena de música eletrônica ainda bem pequena, o Estado do Acre também representou muito bem os clubbers neste ano. Pela primeira vez, um grupo de amigos, DJs e fãs de música eletrônica, após viajar para São Paulo a fim de curtir o Tomorrowland, decidiram investir em festas na capital Rio Branco. Um dos resultados foi o Electric Summer Carnival, que ocorreu no dia 6/2 e reuniu mais de mil pessoas para ouvir DJ locais como Cau Bartholo, Edu Andrade e Hasaan em um encontro que durou mais de 12 horas. A intenção dos organizadores com esse evento, no entanto, é começar a consolidar a cena eletrônica na cidade. Wanderson Vitor, DJ e um dos organizadores do agito, diz: “Tenho o desejo de levar o Acre ao cenário nacional dos festivais de música eletrônica; pode parecer só sonho, mas tudo é possível para quem corre atrás. Penso num evento futuro com DJs brasileiros famosos para começar assim um ‘Festival de Música Eletrônica da Floresta’, com abrangência nacional, assim como o Federal Music e o Universo Paralello.” A gente torce para que isso aconteça, com certeza!
Carnaval de Brasília – DF
A capital do país arma a sua folia eletrônica desde 2013, com o 5uinto Bloco. Neste ano, a festa ocorreu durante dois dias, 6 e 7/2, no Parque da Cidade, de graça, e reuniu mais de 20 DJs. Nomes locais como Ahmed, Hopper, Mari Perrelli, Microlake, Dai Monteiro, Rotkes, Jotta e Weirdo agitaram a pista alternativa que não teve marchinha nem samba, somente batidas eletrônicas. O Bloco do Rabisco, pelo quarto ano consecutivo também levou sua mistura bacana de hip-hop, drum and bass e trap para as ruas da cidade de Brasília na terça de Carnaval, 9/2. Tocaram DJs como Juru, LuiJ, Poeck e Janna.

Unidos do BPM – São Paulo
Ninguém sabe explicar bem por que São Paulo nunca teve um bloco de Carnaval de música eletrônica. Em 2016, a Prefeitura da cidade resolveu investir mais na festa de rua e muitos blocos surgiram com novas propostas. Um deles foi o BPM, o pioneiro na e-music. Criado por Bruno Matos, reuniu 15 mil pessoas no sábado de Carnaval em meio às ruas do centro da cidade. “Nossa expectativa era pra 2 mil pessoas, então foi um sucesso. Tivemos que fazer ajustes de última hora e a Prefeitura deu todo o suporte”, conta. O bloco, com um som potente, teve DJs conhecidos da noite underground paulistana, como Paulo Tessuto e Márcio Vermelho. “Unidos do BPM veio pra ficar. E mais: temos interesse em chegar em outras cidades também, como Rio e Floripa”, completa Matos. O bloco teve até “marchinha” oficial:
RivoTrio – São Paulo
O DJ Paulo Tessuto, criador do RivoTrio e da festa Capslock, também fez seu agito de Carnaval com uma festa na rua em São Paulo. O trio já havia saído em outras ocasiões e não havia melhor hora para voltar com essa proposta do que no Carnaval, não é mesmo? “A ideia surgiu entre amigos que tinham vontade de fazer a versão bloco desse nosso trio. Na última hora, acabamos optando por fazer um bloco imóvel na Praça da Nascente, no bairro da Pompeia. Queríamos quebrar os paradigmas do Carnaval”, conta Tessuto. Cerca de 2 mil pessoas se reuniram para ouvir techno e house finíssimos na terça-feira de Carnaval. “Sem qualquer ação de divulgação, anunciamos a festa na sexta e o local somente um dia antes. Foi um sucesso!”.
Circuito eletrônico em BH – Minas Gerais
Há quatro anos, a capital mineira realiza um Carnaval eletrônico pelas ruas da cidade. A ideia é de jovens como Felipe Reis, que acreditam na força da música eletrônica e lutam com todas as forças junto à esfera pública para oferecer boa diversão ao público. Esse ano, por exemplo, ele disse que comprou uma briga grande para que o circuito eletrônico acontecesse. “Existe uma grande rixa por parte de músicos instrumentistas com produtores de música eletrônica que utilizam equipamentos ultra modernos em estúdios. Quando anunciei os blocos compostos apenas por DJs, sofri pressão por parte dos grupos mais tradicionais aqui de BH. O local que escolhi pra sair com o trio não foi liberado pela BH Trans e tive que entrar com uma liminar pra poder sair.” No entanto, o esforço foi recompensado: cerca de 40 mil pessoas curtiram a festa dividida em quatro dias, com mais de 10 blocos esquentando e animando a Avenida dos Andradas.
Moo e Gop Tun na rua do Ouvidor – Rio de Janeiro
A farra carnavalesca no rio é concentrada nas ruas, com muitos blocos que tocam sertanejo, rock, samba e axé… Mas e a música eletrônica? Quem quer ouvir e-music nessa época geralmente tem de ir para boates, festas (como a Selvagem, que sempre desembarca por lá no Carna) ou eventos como o já tradicional Rio Music Carnival, que realizou esse ano a sua oitava edição. Esse paradigma, no entanto, parece que está começando a mudar. Na segunda-feira de Carnaval, a galera paulistana da Gop Tun e da festa carioca Moo realizaram uma baladona na rua do Ouvidor, com a presença de um dos DJs do Dekmantel Soundsystem, que estava curtindo o feriado aqui no Brasil. Segundo Caio Taborda, um dos caras que comandam a Gop Tun, a festa chegou a lotar a rua inteira. “Na medida em que mais festas eletrônicas ocorrem na rua e de graça, mesclando-se com os blocos, a democratização acontecerá naturalmente. No Carnaval, as pessoas gostam de estar na Rua! A festa não podia ter sido melhor. Com certeza pretendemos repetir a dose no ano que vem.”, disse. Estamos torcendo.
Pré-Carnaval de Curitiba – Paraná
A festa eletrônica em Curitiba ocorreu antes do Carnaval, no dia 25/1, com a presença do DJ do momento, o brasiliense Alok. A segunda edição do evento tomou as ruas do centro da capital paranaense, provando que a música eletrônica tem sim que ter seu espaço em comemorações de rua como o Carnaval. “Depois de muita luta, conseguimos o reconhecimento da música eletrônica. É um gênero que tem muita importância para Curitiba, até econômica”, diz Igor Cordeiro, superintende da Fundação Cultural de Curitiba, que realizou do evento. Segundo a Prefeitura, o evento bateu recorde de público: mais de 100 mil pessoas estivaram lá pata ver, além de Alok, os DJ Illusionize, Rafael Araújo e Repow. Dados oficiais dizem que a prefeitura investiu R$ 200 mil para a realização da festa. Que isso sirva de exemplo para outros Carnavais ao redor do Brasil, não é mesmo?
