Através das festas que levam o seu nome e são organizadas por Paulo Tessuto e sua crew, diversos lugares inusitados da capital paulista receberam eventos memoráveis nessas últimas 5 temporadas. Grandes DJs e lives da cena techno mundial também passaram pelo palco da Capslock e pouco a pouco a festa foi se tornando referência no movimento underground da noite paulistana. Paulo acreditou tanto no poder de sua ideia que largou sua residência no lendário D-EDGE para aprofundar suas investidas no processo de revolução da cena na cidade.
Um dos pontos fortes da Capslock é o time de residentes, composto por artistas capazes de entregar sensações diferentes a pista de dança, sempre dentro da proposta e curadoria ousada da festa. L_cio, Fractal Mood, Gaturamo, Zopelar, Paco Talocchi e agora Lucas Arr, formam a equipe de DJs e produtores que executam live acts durante as festas.
“É especial ter a oportunidade de estar atuando junto a um time de artistas que é sinônimo de qualidade em São Paulo. Sinto que é um desafio grande ser um dos residentes da Capslock” conta o goiano Lucas Arr, que estreia sua residência na festa este sábado, na noite que se comemora os 5 anos de história do núcleo.
Por sinal, a festa deste fim de semana apresenta muito da filosofia de trabalho da Carlos Capslock. Uma séride de workshops e painéis serão oferecidos gratuitamente antes do agito, que inicia as 9 horas e vai até o amanhecer de domingo. A DJ e produtora Dinky, dona de grandes produções dentro do techno e do deep house, encabeça a lista. A alemã possui lançamentos expressivos por labels do porte de Ostgut Ton, Cocoon Recordings e Visionquest. Mais informações sobre a festa de sábado e ingresoss aqui.
Ao lado dela, estarão os brasileiros L_cio, Lucas Arr, Ney Faustini, Fractal Mood, Ohnishi e Tessuto. O último dessa lista, com já havíamos falando a cima, é o idealizador desse rolé todo e topou trocar uma ideia conosco no meio da loucura que envolve a preparação de um evento tão importante. O papo rendeu boas informações sobre o núcleo que ainda tem muito a acrescentar a noite de São Paulo.

PAULO TESSUTO –
É um prazer falar com vocês também. O Carlos Capslock acabou surgindo numa brincadeira e por incrível que pareça eu nunca planejei nada, nenhuma das piadas, nem temas, nem mesmo ser uma festa foi planejado. Tudo aconteceu naturalmente. Às vezes eu estou entre amigos conversando e ao ouvir uma palavra, imagino uma piada que tenha a ver com ela ou até mesmo uma nova palavra que se forma com a junção dela com uma nova, às vezes em outra língua… acredito ser uma nova forma de linguagem. Fui lounge né? [risos]PT –
Esse é um ponto bem controverso. O que rola é que muita gente desiste sim de ir na festa porque não revelamos o endereço. Imagino que muitas pessoas adoram sair e quando chega sexta feira elas já querem aproveitar. Porém, tem a opção do sábado. Quando as pessoas não sabem aonde vai ser a Capslock, muita gente (acredito eu) acaba saindo na sexta pois o local da festa pode não ser de agrado. Sendo assim se eles não saem na sexta acabam ficando na mão. Por outro lado, é uma maneira de filtrar o publico, por exemplo se você revela o endereço somente no dia acaba atingindo um publico mais fiel pois as pessoas não estão preocupadas aonde vai ser a festa e sim em ir a festa. Resumindo, atrapalha? Não!
PT –
Com certeza o público é o nosso patrimônio, porém, acredito que atraímos um público tão fiel e maravilhoso que é o que torna a Capslock tão legal. Emanamos uma energia parecida com a deles, sem falar nas ideias que propomos. O público acaba não influenciando na curadoria, nós que apresentamos as propostas e as pessoas confiam em nossas escolhas.PT –
Muito bem observado! A fauna da Casplock é muito bem ornamentada e o público não deixa a desejar. A festa é sim um universo paralelo, um evento com preço acessível, curadoria séria, bebidas baratas, locais inusitados e conteúdo social. Estamos criando o nosso estilo de vida que é totalmente paralelo ao sistema.
PT –
O mais legal do time da Capslock é que nos aproximamos por afinidade de ideias e todos éramos conhecidos antes de nos tornarmos amigos e começarmos a trabalhar juntos. Resumindo: tudo ao seu tempo. A gente se encontra para jantar, produzir músicas juntos, viajar e também contar os problemas uns aos outros. Obviamente que tenho uma relação singular com cada um deles, mas estamos juntos por um motivo e um ideal e não para fazer dinheiro ou trocar gigs.PT –
Há uns dois anos mais ou menos eu conheci o Lucas através da minha pesquisa musical. Nunca imaginei que ele era brasileiro e que morava em Goiânia. Depois de um ano mais ou menos, citei ele numa conversa e me falaram que ele era daqui. A partir daí comecei a acompanhar mais e em junho do ano passado entrei em contato com ele e o convidei para ser nosso residente. Como o calendário de 2015 já estava todo fechado, só pudemos apresentar ele nesta festa.
PT –
Sim. Foi uma fase muito importante e até hoje fazemos ocupações de rua, porém, com uma frequência menor. São diversos pontos que atingimos com esses eventos, diversos pilares sócio reflexivos. Um dos principais é a celebração da interação entre toda e qualquer classe social, considerando que o ambiente de São Paulo é ultra conservador e privatizado, isso é uma condição muito importante para qualquer movimento artístico. Também incentivamos a reflexão sobre nossa condição como cidadão, as condições de lazer que a cidade oferece de graça, a valorização da arquitetura e tanta coisa que poderíamos ficar a madrugada toda conversando a respeito.PT –
Acho que não falta nada. Comece a imaginar como é fazer uma festa em um país europeu e como é fazer uma festa no Brasil. As condições aqui são sempre as mais adversas: altos impostos, violência, desigualdade social, Zika Vírus, polícia assassina. São Paulo é a maior e mais importante cidade da América Latina, se você consegue fazer acontecer aqui, consegue em qualquer outro lugar tradicional da música eletrônica do mundo e podemos até mesmo ser mais abrangentes, falando da arte como um todo. Talvez o mundo só precise aceitar que SP é o novo lugar para se estar nos próximos 10 anos.
PT –
Acho que o ponto principal é a identidade sonora. No começo do projeto uma das pistas era de noise music com curadoria do Felipe Ribeiro. Aos poucos a pista foi ficando mais alternativa e começou a tocar diversos outros estilos musicais. Depois de um ano essa pista 2 virou pista de disco e nu disco e a partir do terceiro ano começamos a ter uma pista de techno e outra de música eletrônica experimental. Hoje em dia temos duas pistas de techno/house. Atingimos a maturidade de ter um público 100% ligado a esses estilos. Missão cumprida!PT –
Olha, esse ano teremos muitas novidades. Acamos de assinar com a Kompakt para fazer a distribuição do nosso selo (MEMNTGN) que sai nos próximos meses. Fora isso temos edições fora de São Paulo, novas locações, atrações internacionais, festa no navio… novidades a mil. Não posso contar tudo mas uma coisa muito grave ainda está por vir. Aguardem e pé na tábua!
