Por Camila Giamelaro
Como única representante feminina do time de redatores da House Mag digital – além da nossa editora, que também é mulher -, não digo que me senti na obrigação de fazer uma matéria nesse estilo, mas sim que tive o prazer de poder receber as histórias e recadinhos de grandes mulheres que atuam no mercado brasileiro da música eletrônica. Escolhemos personalidades que atuam em diferentes áreas e cada uma deu a sua visão. Cada uma expressou seu sentimento sobre ser mulher e sobre como é trabalhar com música. Falaram sobre suas vidas, família, criação, mercado, o que é ser mulher na música eletrônica, o que é ser mulher pra elas mesmas.

“Durante anos recebi felicitações no dia das mulheres e nunca dei muita bola pra isso; mas hoje, com meus 25 anos, finalmente me reconheço como tal. Meio menina, meio mulher, é difícil dizer quando realmente eu me dei conta que não era mais uma adolescente. Saí da casa da minha mãe com 18 anos, com responsabilidades de uma mulher de 30. Minha mãe, uma mulher guerreira, forte e corajosa, que criou sozinha eu e minha irmã, me dizia desde pequena: “Minha filha, se você quer ser bem sucedida, estude muito e trabalhe”. Meu berço não é de ouro. Meu berço foi feito por uma família inteira de mulheres que lutam por uma vida digna e melhor. Ver tudo isso desde criança não poderia ter sido melhor para formar quem sou hoje. Saí de casa sabendo que era eu por mim mesma. Portanto, nunca abaixei minha cabeça para nenhuma dificuldade. Sempre trabalhei, sempre fiz o meu melhor. Meu maior sonho da vida era ser DJ, mas no meio do caminho descobri a arte de VJ. Foi amor a primeira vista e eu caí de cabeça nos estudos. Pegava notebook emprestado de amigo para trabalhar no começo, porque eu não tinha dinheiro para comprar um. Fiz um empréstimo no banco e consegui conquistar o primeiro. Durante esses 6 anos trabalhando com isso, me deparei com muita gente que duvidava da minha capacidade, mas também conheci pessoas incríveis que acreditaram desde o começo. Vejo a vida como uma balança, você escolhe o que tem mais valor e peso. No meu caso, escolhi as que querem meu bem. Não dou muita bola para o machismo, não levo para o lado pessoal quando alguém é babaca. Ser mulher é maravilhoso, mesmo com tantas dores que já viemos programadas nesse mundo para sofrer. Mulher tem algo a mais que é meio inexplicável e difícil de entender. Um sexto sentido, um feeling que faz toda a diferença para quem escolhe trabalhar com público, com a arte. Eu amo ser mulher, amo minha mãe, minha irmã, minhas amigas. Tenho um profundo orgulho em ver todas as nossas conquistas, nossas capacidades (que em certos momentos até duvidamos) cada vez maiores, nossa criatividade e amor por tudo que fazemos! O mundo é melhor com a nossa presença e temos de reconhecer isso! Ser mulher é demais! Todo dia é o nosso dia!”, Any Mello – VJ no Vitor Ruiz AV Any Mello, DJ no Violet.
“As meninas na música estão arrasando cada dia mais. Vejo coletivos como o americano Discwoman, e aqui no Brasil as Cashu e a Laura da Mamba Negra. Vejo que a solução está mesmo na união das meninas, juntar iniciativas pra poder quebrar a hegemonia masculina. Não significa fazer um movimento “nós contra eles”, mas nos unirmos mesmo, sem ter como objetivo um inimigo e sim tendo como objetivo um bem comum, que é melhorar a situação profissional e moral das mulheres”, Claudia Assef – Autora do livro “Todo DJ já Sambou”, owner do site Music Non Stop.

“Ainda somos uma parcela pequena dentro de um universo predominantemente masculino, mas vejo mais e mais mulheres atuando de forma significativa no mercado eletrônico: mais DJs de destaque, produtoras musicais, e cada vez mais meninas se envolvendo nos bastidores – como curadoras, produtoras de evento, tour managers. Cresci profissionalmente rodeada de mulheres fortes em cargos estratégicos, e para mim, sempre pareceu natural vê-las tomando decisões importantes. Ao mesmo tempo, ainda espero pelo dia em que artistas mulheres serão remuneradas com igualdade, ou que elas marquem presença em grandes eventos e festivais tanto quanto seus colegas homens. Vira e mexe ainda ouço: “você toca como um homem” – como se ser mulher pudesse fazer de mim uma DJ menos apta ou com menos qualidades técnicas. Ao contrário, sempre achei que ser mulher me deu sensibilidade e uma presença especiais, agregando apenas coisas positivas para meu trabalho. Quando adolescente, vi figuras poderosas como de Patti Smith e PJ Harvey se tornarem uma voz para gerações de meninas como eu, que cresceram inspiradas por seu talento, sua força, e sua coragem. Sempre gostei de bandas com mulheres na liderança, e acho que de alguma maneira, queria aquilo para mim, acreditei que poderia ser daquele jeito também. A gente já nasce com uma força interna tão grande, passamos a vida tendo de nos provar o tempo todo – como somos capazes, talentosas, e ainda sensíveis, amorosas, intuitivas, nos equilibrando entre tantos papéis que temos que desempenhar. Espero que meu trabalho possa inspirar outras meninas que, como eu, amam música e arte, para que tenham a coragem de viver e realizar seus sonhos apesar de uma grande maioria te falar justamente o contrário.”, Eli Iwasa – DJ, vocalista no Bleeping Sauce e proprietária do Club 88.

“Acredito que ser mulher em um universo masculino tem sim suas dificuldades, mas tenho meu jogo de cintura, e o uso ao meu favor. Este é o grande diferencial da Tune. Amo o que eu faço e me doo muito. Cuido dos artistas como se fossem filhos e eles se sentem cuidados. Um beijo para todas as mulheres que nesse mercado são mais machos que muito homem”, Tania Saraiva – Owner da Tune Agency.

“Eu gosto de pensar o dia Internacional da mulher sob uma ótica bem particular. Muita gente homenageia as mulheres nesse dia com flores, enaltecendo a figura da mãe, da esposa, da mulher guerreira que batalha fora e cuida dos filhos e da casa, enfim, esses papeis que se interpretam, né. Mas eu particularmente vejo esse dia como a celebração da negação de tudo isso. Desde cedo neguei estes papéis na minha vida. Não sou esposa, não sou mãe, nunca me encaixei muito bem nesses padrões que a nossa sociedade e muitas vezes nós mesmas nos impomos. Todas as escolhas que fiz na minha vida pessoal e profissional me fazem celebrar este dia sem fantasia e sem clichês… sou apenas uma mulher que esta construindo o seu próprio caminho. E digo que neste caminho nunca houve a pedra do preconceito para me atrapalhar…se houve, ao invés de tropeçar, chutei ela longe e nem percebi. Para mim, celebrar este dia não é discutir gênero, empoderamento, quem pode mais, quem pode menos. É sim ter uma consciência plena do seu estar no mundo enquanto um indivíduo capaz de tudo. É ter a consciência de quem você é, de onde você esta e de onde você quer chegar. Se o seu estar no mundo significa lutar, então lute. Se significa fazer musica, componha, se significa fazer arte, então faça, se significa ser mãe, então seja. Eu adoro ser mulher, e seria novamente mil vezes se me fosse permitido escolher. Mas antes disso, por baixo dessa pele sou uma alma curiosa e que pretende ser livre para celebrar também o dia do homem, do idoso, do negro, do índio, dos gays, e de tudo isso que também me compõem”, BLANCAH – DJ e Produtora.
