Por: Lucas Portilho de Faria Cunha
Foto: João Araújo
Roland TR-8, Roland Gaia, Korg Volca Keys, Korg Monotribe, Novation Ultranova e Novation Bass Station 2. Estes são os equipamentos disponibilizados no projeto desenvolvido por Érica Alves. Chamada de Synth Gênero, a proposta é de reunir mulheres para experimentar equipamentos utilizados na produção de música eletrônica.
“Para falar de música eletrônica é necessário estudar música eletrônica”, explica Érica. Seguindo esta lógica, há cinco meses a integrante do grupo The Drone Lovers organiza reuniões para que mulheres possam experimentar synths e conversar sobre música eletrônica da forma mais natural possível. Inicialmente o evento foi disponibilizado para homens e para mulheres que estivessem interessadas (os) em ter um contato com o equipamento de produção musical, porém a preferência para inscrição era das mulheres. Nesta oportunidade 12 pessoas participaram da reunião, 10 mulheres e dois homens. “Eu achei super legal o número de mulheres participando do rolê, mas percebi que a maioria já eram empoderadas e já possuíam algum envolvimento com a música eletrônica”, explica.
Com experiência de 10 anos de sala de aula, Érica explica que decidiu delimitar a participação masculina nas edições do Synth Gênero, pois “muitos homens me procuram já para fazer um som juntos, enquanto que as meninas eu preciso ir atrás, justamente porque muitas vezes elas não se sentem empoderadas de chegar e colocar a mão no equipamento, montar uma banda e fazer acontecer”, esclarece.
Marcela, que participou do primeiro encontro do Synth Gênero, esplana que a sua experiência com o evento foi bacana. “A forma com que a Érica organizou o evento me deixou bem a vontade. Pude fazer perguntas, conhecer os synths, pedir conselhos sobre equipamentos e etc. A calma e a segurança que a Érica me passou permitiu que eu perdesse o medo dos sintetizadores, ao ponto de me dar segurança para que eu construísse o som que eu gostaria de criar”, relata.
Érica contextualiza o seu esforço pela mudança no cenário da música eletrônica relatando que “hoje em dia se observa uma clara elitização no acesso aos meios de produção da música eletrônica, um contrassenso, já que as origens do house e techno são da juventude negra e periférica de Detroit e Chicago. A minha tentativa é de devolver esse legado para as mulheres de origem semelhante, além de facilitar o retorno do protagonismo da mulher na música eletrônica – já que fomos pioneiras no gênero a exemplo das muitas mulheres, trans e cis, como Wendy Carlos e Clara Rockmore”, explica.
Marcela vai além: “aqui em São Paulo, eu sinto que a procura por festas eletrônicas é uma questão de status. As pessoas estão ali pela imagem, pela fotografia e pela pose. Não é nada pessoal, cada um consome a música do seu jeito, mas eu procuro selecionar mais as festas que eu frequento. E é por isso que eu senti uma identidade com a oficina oferecida pela Érica: foi um jeito humilde de mostrar aquilo que estava no interior de cada uma ali presente, todas estavam naquele momento querendo aprender o sentido que a música tem nas suas vidas”, relata.
A idealizadora do evento explica que, além de facilitar o acesso aos synths durante os workshops, também procura aumentar a autoestima das mulheres participantes da oficina: “as mulheres devem estar em todos os espaços, assim como o homem. O cenário deve ser mais homogêneo”, destaca. É desejo da artista que os line-ups de festivais e casas noturnas apresentem essa mesma linearidade, balanceando, portanto, a representatividade em 50%. “Existe toda uma responsabilidade social ao incluir mulheres nos line-ups, todos possuem o papel de atingir a igualdade de gêneros. Podem haver homens envolvidos neste processo, o que não pode acontecer é que eles sejam o único centro das atenções”, salienta.
Érica Alves irá oferecer mais um workshop Synth Gênero no dia 19, sábado, no Espaço da Rosa Latino Americana (Rua Santo Antônio, 1025A, Bixiga, São Paulo, SP). O valor será de R$ 10. Para mais informações enviar um email para: ericacaa@gmail.com.
