Por Camila Giamelaro
Depois de uma década de pistas e raves intermináveis, chega uma hora que a gente se torna um pouquinho mais seletivo na hora de escolher uma noite de curtição, ainda mais quando estamos falando de uma quinta-feira onde o after vai rolar, na verdade, no escritório do trampo. Mas em um país cuja cena techno é um pouco, digamos, controversa, temos que dar o braço a torcer (e horas de sono a dever) pra aproveitar quando bons artistas vem ao Brasil.
Já fazia alguns anos que eu esperava ver a Nicole Moudaber por aqui. Desde que meu marido me apresentou as músicas dela me tornei fã, não só pelo som (vamos combinar que é difícil ver uma mulher fazendo e tocando techno como ela), mas por toda sua atitude… Pela mulher que ela é. Quando a notícia da sua passagem pelo Brasil com apresentação marcada no D-Edge chegou até mim, meu coração disparou. Era minha chance de ver de perto, em uma das pistas mais icônicas de São Paulo, a tal da Rainha do Techno.
A convite da própria casa fui fazer a cobertura da noite para a House Mag. A noite seria longa. Além da Nicole Moudaber, outra atração muito esperada era a dupla italiana Mind Against, além do versus com os espanhois Cuartero e Mar_T.
Cheguei relativamente cedo; sabia que a noite seria bombada e não queria ficar muito longe da cabine. Por isso peguei boa parte do warm up do Stefano TT na pista 1. Com um set bem construído, misturado com a ansiedade da galera, Stefano levou o público à loucura com músicas swingadas e com o peso certo pra deixar a pista no melhor esquema pra receber Moudaber. Entre uma pausa e outra pra um cigarro, passei pela pista 2 onde Mandi Hafez também esquentava os motores para o Mind Against, em um set com pegada mais house, que não deixou ninguém parado.

Não queria enrolar muito na pausa do cigarro. Uma que o set do Stefano TT realmente tava cativante, e outra q eu sabia q o front da cabine ia entupir de gente a hora que a Nicole chegasse. Já na pista, em um momento de pura curtição de olhos fechados, meu marido me acorda pra vida e aponta o camarote. Era ELA chegando e eu parecia uma criança ansiosa com a notícia de um passeio na Disney: dava pulinhos de animação e meus olhos não desgrudavam dela. O setup dela já tava prontinho logo que cheguei, então não demorou muito pra que ela começasse o espetáculo.

Entre um check e outro nas músicas, Nicole ajeitava o fone com os cabelos revirados e a galera pirava. Ela ria, sabendo que isso agradaria a pista mesmo sem ela tocar um beat sequer de suas músicas. Nicole virou sua primeira música no final do set de Stefano, agradeceu pelo warm up e a pista foi ao delírio. Eu não sabia muito bem o que esperar do set dela, pois a Nicole Moudaber é uma artista extremamente versátil, mas sabia que não ia escutar minhas tracks favoritas dela: “Roar” e a mais recente “Move a Little Closer”, que são pesadas demais pra um club.
Mesmo assim eu já estava ciente de que gostaria de um set mais dançante por acompanhar os vídeos de outras apresentações. Dito e feito! As batidas swingadas faziam a pista inteira dançar sem parar e a cada caída das músicas fazia da volta um mar de mãos pra cima e gritos animados pedindo mais.
Nem vi a hora passar de tão imersa que estava no som da Nicole Moudaber e quando olhei no relógio já estava na hora de mais um cigarro e depois conferir o comecinho da apresentação do Mind Against. Eles entraram com um som bem intimista e minimalista, que definitivamente não faz minha cabeça. Já havia escutado um set ou outro deles e sabia que o começo seria naquela naipe mesmo. Sons espaciais ecoavam pela pista 2 do D-Edge deixando o público em transe. Confesso que não tive muita paciência, mesmo ciente de que o som poderia evoluir muito a partir dali, mas eu já estava totalmente dominada pelo groove da Nicole. Logo desci de novo pra pista 1 e dali só tirei meus pés pra ir embora pra casa, e dancei como se não houvesse amanhã… Porém, havia!

Devido aos meus compromissos da sexta-feira eu não pude ficar pra ver a dupla Cuartero e Mar_T, que entraria na cabine logo depois da Nicole. Fui pra casa com a melhor sensação do mundo e nenhum sono, apesar de um certo cansaço de tanto bater o pé no chão. A casa permaneceu lotada, ninguém queria arredar pé dali. Afinal não é todo dia que temos a chance de receber a Rainha do Techno, que conquistou de vez seus súditos brasileiros. Só posso dizer que o público que também conferiu ela no Warung no sábado na sequência do D-Edge teve muita sorte de poder aproveitar uma noite de frente com essa mulher sem medo do amanhã.
E agora a gente só pode ficar na torcida pra que ela não demore a voltar. Porque já estamos com saudades.
