Caetano Veloso alega que funk carioca, sertanejo universitário e axé são a nova Tropicália

Por: Flávio Lerner

Foto: Vincent Rosenblatt, fotógrafo francês que retratou cenas do funk carioca

Falar em funk carioca sempre causa polêmica, ainda mais em veículos de cultura clubber, que costumam cobrir mais house e techno do que vertentes quebradas da música eletrônica de pista. E os fãs mais tradicionais desses estilos 4×4 normalmente têm uma aversão gigante ao funk — seja por ser um som bem mais agressivo e vulgar, seja por ser uma manifestação cultural da periferia, entre outros preconceitos que envolvem muitas questões, entre elas o bom e velho vira-latismo do brasileiro, que costuma julgar mais fina e “superior” a cultura dos EUA ou da Europa.

No meio do bate-boca, há até quem jure de pés juntos que o funk brasileiro não seja música eletrônica, embora ele seja feito pras pistas de dança, seja oriundo de estilos como electro e Miami bass e use tantos beats sintéticos e softwares de produção em suas composições quanto qualquer track que atinja o topo do Beatport. Pra somar à discussão, uma publicação de ontem no G1 revela trechos de uma entrevista de dezembro do Caetano Veloso à BBC, na qual, entre assuntos como a prisão e o exílio na época da ditadura militar e a situação política atual, ele comentou sobre o que acha ser “a nova Tropicália”: “o funk carioca, o sertanejo universitário e os restos da axé music”.

Mônica Vasconcelos, da BBC Brasil, escreveu na matéria: “Tomando como exemplo o funk carioca, o compositor descreve a forma como o morro se apropriou de um estilo estrangeiro. Qualquer semelhança com o ideário tropicalista não é pura coincidência…” — e aí a jornalista emenda com trechos da entrevista do Caetano:

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“Eles [funkeiros] começaram importando o Miami Bass para as festas. Depois, começaram a compor suas próprias músicas. E colocaram uma batida que vem da umbanda e do maculelê. Então funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira.”

“Essas surpresas acontecem, como aconteceu com o carnaval na Bahia. E como está acontecendo hoje com o sertanejo universitário. É uma música vulgar e sentimental e você acha que é bobagem. Mas eles são tão afinados. E o próprio fato de que a música do Centro-Oeste hoje está presente na região costeira do país, isso é um fato cultural que revela muito sobre o que o Brasil se tornou. Ou pode se tornar.”

Antes, o músico também comentou que “o funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. E as letras, que às vezes são muito obscenas, ou ligadas ao narcotráfico e à bandidagem, ficaram cada vez mais criativas. Os efeitos sonoros também”.

Não há surpresa nenhuma no fato de a esmagadora maioria dos comentários dos leitores do G1 serem ofensivos e preconceituosos quanto às declarações do tropicalista baiano. Definitivamente, há ainda um longo caminho de amadurecimento pra que a gente possa discutir assuntos como funk, tropicalismo, música e política em um nível minimamente razoável.

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