Os limites do conceito e as limitações do preconceito: Da onde veio a nossa cena?

Por: Francisco Raul Cornejo

Foi numa conversa muito iluminadora com um amigo produtor e engenheiro musical, cuja carreira se solidificou em torno do beatmaking, que notei com clareza o quão equivocadas algumas de nossas representações do que deve ou não deve existir num ambiente festivo de música eletrônica, se encontram atualmente. Comentei com ele que a única coisa que faltava para que realmente vivêssemos num período de renascimento artístico e comportamental como vimos em décadas anteriores era um maior sentimento de ecumenismo que englobasse toda essa riqueza estética. E usei a cena à qual ele se mantinha mais próximo como um exemplo: seja pelo Hip Hop ou pelo Drum and Bass, que estão nos primórdios dessa musicalidade, a prevalência de heterossexuais na pista e nos estúdios me incomodava um pouco, já que eu vinha de uma época que a diversidade era um dos primeiros sinais – necessário, mas não suficiente, claro – de qualidade em qualquer recinto devotado à dança coletiva.

A resposta dele, concordando comigo, foi de uma simplicidade contundente: “isso aqui é som de vagabundo, somos todos vagabundos, e se for pensar assim, os viados são vagabundos por excelência.” E aí estava, encapsulado numa frase, todo o espírito de transgressão, inclusão e inovação que sempre ligou a música eletrônica à vanguarda desde seus primórdios. Éramos Outsiders, todos nós (até aqui, a noção de “eles” era bem nebulosa, mesmo porque inútil para definir qualquer coisa), criando e dançando juntos, não importando quais suas inclinações de origem ou destino.

Pessoalmente, quando vejo um homofóbico ou qualquer pessoa que se aturde com a simples presença de um homossexual no mesmo recinto, me pergunto: por que tanto medo? Veja bem, a pergunta nem se refere a ódio, já que este sabemos que se nutre no mais sombrio e profundo pavor, enraizado num instinto quase animal. Ela se refere a este mesmo impulso, ou repulsa, que leva pessoas a se posicionarem publicamente contra elementos comportamentais fundamentais da nossa cena musical, arrogando um direito que essencialmente não possuem. Quem for infenso a outras formas de expressão sexual que não as regidas pela heteronormatividade (ou seja, aquelas que postulam uma dita “normalidade” que se refere a uma caricatura dos ditames da reprodução biológica) pode se sentir um pouco desconfortável, ou mesmo acuado, numa pista atual, mas faz-se necessário dizer que, nas origens da Dance Music, era bem “pior”.

Peguemos este período seminal numa metrópole cultural como Nova York em que o Hip Hop e a club culture se encontravam no seu caldo inicial. Block parties bombando por todos os bairros do fervo, afro-americanos, hispânicos, asiáticos e caucasianos se jogando naquilo que seria a pedra basilar do entretenimento contemporâneo. Entrecortando todas essas clivagens étnicas houve sempre um contingente imenso de gays e lésbicas, principalmente nas cabines e estúdios. Para ilustrar essa realidade histórica e enfatizar a presença da comunidade LGBT nas raízes de nossa cultura, não precisamos sequer partir de um renomado compositor erudito da eletrônica como a transgênero Wendy Carlos e sua fabulosa presença cinematográfica junto a Stanley Kubrick ou nos mantermos no terreno original do Hip Hop ao mencionar Man Parrish e Afrika Bambaata, dois de seus primeiros heróis cujo perfil público durante décadas procurou ocultar sua sexualidade e preservar uma distorcida imagem da história musical do movimento. 

Podemos, ao invés, avançar um pouco mais, décadas de 70 e 80 adentro e Estados Unidos afora, para facilmente listar gente como Bobby Vitteritti, residente de um bastião do hedonismo não-conformista de San Francisco: o lendário Trocadero Transfer; Ken Collier, um dos DJs mais respeitados de Detroit desde a fundação da moderna cultura noturna da cidade, e que também é um dos baluartes da sua cena gay; indo logo ao lado chegamos a Chicago e encontramos Frankie Knuckles, Ron Hardy e uma vívida memória gay local; ou mesmo David Morales, Junior Vasquez, Danny Tenaglia e muitos outros expoentes da mesma Big Apple que, desde os dias gloriosos da Fire Island ou de Sharon White na The Saint, abrigou locais e momentos os mais memoráveis da cultura da Dance Music. Caso queiramos seguir adiante com este levantamento simples e atravessarmos o Atlântico, a própria absorção dos códigos da House e de seus grupos representativos ressoou no interior de cenas distintivas que já abrigavam a originalidade de forms de expressão urbana heterodoxas, da França (o cosmpolitismo inerente à vida noturna de Paris e sua proximidade com a haute couture) ao Reino Unido (o New Romantic aqui se destaca), passando pela Alemanha (os egressos do arrojado cenário de Berlim) e os demais componentes da Europa Ocidental. Exemplos globais abundam imensamente.

Em terras brasileiras, especialmente no momento de sua consolidação nas metrópoles artísticas, essa mesma cultura assumiu traços demográficos similares às que a inspiraram, tanto dentro quanto fora das cabines. O que se viu no decorrer dos 80 e 90 foi um florescimento de inúmeras cenas e musicalidades cuja filiação direta com a instituição da discoteca colocou como um de seus estandartes identitários o respeito à diversidade em uníssono com o momento ecumênico que marcou a cultura popular da época. O mesmo no qual este autor se inseriu como um jovem amante da música eletrônica, cuja coleção de discos do pai o impulsionou rumo ao rico universo desconhecido onde música popular, entretenimento de vanguarda, tecnologia de ponta e modos alternativos de afetividade e comunidade colidiam e se coligavam em espaços de desafio sensorial: Nation, Madame Satã, Massivo, ValDemente, Columbia, Sra. Krawitz são alguns dos mais conhecidos que podem ser arrolados dentro desta lógica. Para mim, club mixed era quase que uma chancela incontestável de qualidade musical.

Entretanto, em um processo de entrelaçamento de realidades que veio caracterizado, por um lado, pela cristalização das reivinidicacões dessas minorias no âmbito mais amplo da esfera pública – e, consequentemente, sua inserção em meio à “normalidade” do mundo social – e, por outro, pela popularização e comercialização do entretenimento noturno, aqueles espaços passaram da qualidade de guetos e redutos a centros de disseminação de seus conteúdos. E é durante esse período que creio ter havido uma distorção dos valores éticos e estéticos que historicamente os definiram. Se tanto vimos os cenáculos se abrirem e prescindirem mão de um certo elitismo que demarcava o território dos “escolhidos” que faziam parte do coletivo dando lugar a uma ampliação de seu público, também assistimos a uma solidificação de suas preferências musicais em torno de certos estilos e ídolos de maior popularidade comercial. Assim, se de um lado temos um relativo escancaramento dos seletivos umbrais do underground, tanto em termos comportamentais como musicais, por outro também temos um encurralamento voluntário de parcela significativa do contingente LGBT em ambientes exclusivos nos quais a musicalidade não é mais um fator de distinção e contestação do establishment. Agora tem viado que não é vagabundo, assim como tem vagabundo que não é viado, grupo no qual este que vos escreve se inclui até aqui.

E aqui chegamos a nosso momento atual, em que vemos uma inusitada inversão de polaridades, no interior da qual uma rastaquerização dos públicos e uma rotinização dos princípios acima citados se apresentou como a norma. Ou seja, se de um lado temos o abandono das virtudes vanguardistas por parte de uma legião de membros das comunidades LGBT, por outros temos a tentativa de encampamento daqueles espaços por alguns indivíduos cujo repertório valorativo não foi informado por muito das as lutas e conquistas das décadas anteriores. Então, a questão crucial que se põe é: agora que assistimos a esta balcanização das formas de expressão e comunitarismo que formaram toda nossa cena, como encontrar o eixo essencial, os elementos fundamentais que a caracterizam para além de quaisquer dos equívocos (os já historicamente sabidos elitismo, esoterismo, sexismo, racismo, misoginia, homofobia e muitos outros marcadores morais negativos que vão contra os progressos sociais conquistados no período) cometidos por nossos ancestrais do Jazz, Rock, Reggae ou Hip Hop?

A resposta a esta pergunta não é fácil, e nunca foi. A história da música eletrônica é pontuada por batalhas e os tempos atuais apontam para um certo esmaecimento de alguns de seus pilares. Mesmo que não ganhemos muito em sermos catastrofistas, afinal falamos de espaços também de catarse e abandono, de prazer e deleite, jamais devemos deixar de ter em mente que ele se mantém assim justamente porque sonhamos um mundo melhor do que aquele do qual escapamos semanalmente e o materializamos nessa comunhão musical. Ainda mais quando essa mesma realidade mundana está repleta de tanta insegurança, ao ponto de que o ódio seja algo normalizado e até esperado, o que preservamos deve ser ainda mais acentuadamente oposto a tudo isso. Obviamente, aqui não se trata apenas de viver das glórias de outrora ou buscar um recrudescimento de hábitos passados, mas apenas de manter o mais precioso de tudo aquilo que nos trouxe até aqui: o respeito às diferenças. E se, entre suas preferências, quaisquer que elas sejam, não há lugar para as alheias, talvez seja você que não pertence. Mas, caso mude de ideia, sempre será mais que bem-vindo.

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