Administrador de club do underground portenho fala sobre a cena de Buenos Aires pós-proibições

Por: Flávio Lerner e Gabriela Loschi

Após as seis mortes de jovens no último Time Warp de Buenos Aires, a prefeitura da capital da Argentina barrou a realização de festivais de dance music na cidade até segunda ordem. Logo depois disso, um juiz municipal foi além e determinou o fechamento provisório de todas as casas noturnas — não só de música eletrônica, embora o foco da ação fossem estes —, em uma medida bastante controversa, que não demorou muito para ser anulada por outro juiz, alegando inconstitucionalidade.

Apesar de os clubs terem voltado a operar normalmente e os organizadores do Time Warp sido presos, a cena eletrônica segue não apenas enfraquecida, mas sobretudo estigmatizada por um falso e desproporcional moralismo proibicionista — algo bem aquém de enxergar o verdadeiro problema da questão das drogas ilícitas e do tráfico, como uma política séria de redução de danos o poderia fazer.

Para entender melhor a situação pelo prisma de um insider da cena eletrônica portenha, conversamos com o fundador e administrador do Under Club, um dos principais clubes do underground local. Confira:


HOUSE MAG:
Além da proibição das festas em Buenos Aires, de que outras formas as mortes no Time Warp afetaram a cena na cidade e no país?

Joel Bestia: Eventos de música eletrônica que não sejam em clubs foram proibidos. Isso abriu portas para que as pessoas vejam esse gênero como “música para consumo de drogas”. Como todos sabem, a mídia tem grande influencia sobre a sociedade com o que informa ou desinforma, e nesse caso foi mais importante para ela ganhar destaque sem ter conhecimento sobre o assunto do que informar realmente, e isso só piorou a situação.

Não está muito claro o que estamos vivendo, e a ação foi buscar a proibição, que é mais simples do que trabalhar o tema, mas claramente não soluciona. Estamos à espera das novas medidas que o governo municipal vai implementar para a realização de eventos fora dos clubs.

HM: Como criador e administrador do Under Club, como é a situação para você e os clubs de Buenos Aires? O que mudou?

JB: Os clubs de Buenos Aires estão sofrendo o mesmo controle, mas talvez mais contínuo e rigoroso. Sabendo que houve cinco mortes, a pessoa começa seu próprio trabalho de prevenção, e no meu caso procuro me informar um pouco mais sobre o assunto e depois supervisionar.

De que adianta hoje que os jovens não consumam drogas em clubs e sim nas praças dos bairros? Se realmente vamos passar uma mensagem e debater o tema, essa mensagem deve ser para a pessoa e não para o clubber. Sou uma pessoa, os empregados do clube são pessoas, e vemos o cliente como clubber, mas antes disso o valorizamos como pessoa.

HM: O que deve ser feito para melhorar a situação?

JB: Na Argentina, devemos melhorar como país, como sociedade, e não apenas focar em um gênero musical. Aqui devemos começar a trabalhar isso [a questão das drogas] na raiz, e deve ser nas escolas e nas famílias. Tampouco acho justo que uma pessoa que consuma ecstasy seja estigmatizada como alguém com problemas com drogas ou como alguém que põe sua própria vida em risco, enquanto quem consome grandes quantidades de álcool ou fuma cigarros é considerado normal. Muito mais gente morre pelo consumo de drogas legalizadas em nosso país do que pelo consumo de drogas ilícitas. Acho que algo está funcionando mal, ou os negócios vêm antes do desejo de solucionar os problemas sociais.

HM: O que mais você acha importante destacar sobre esse tema?

JB: Acho que é muito importante cuidarmos de nós mesmos e dos nossos entes queridos, porque como comentei, não estamos recebendo informação e [as autoridades] não vão tomar as medidas certas.

Não acho que essas novas determinações vão acabar com o narcotráfico, mas farão com que os usuários de drogas sejam perseguidos. Nós que trabalhamos ou desfrutamos da música, devemos nos cuidar e ajudar quem está ao nosso lado, porque é a melhor mensagem e o mais sadio que podemos fazer.

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