Space Ibiza vai fechar após 27 anos; falamos com 5 artistas brasileiros que já tocaram no club

Por: Anderson Santiago (com colaboração de Gabriela Loschi)

“Nenhuma visita a Ibiza é completa sem ao menos vivenciar uma festa na Space”. É com essa frase que o site oficial da boate mais famosa da ilha de Ibiza, na Espanha, apresenta o club. E pouca gente que tem dúvidas disso, pode acreditar.

Há 27 anos na ativa e considerado o melhor club do mundo pela DJ Mag inglesa, Space ajudou a espalhar a fama da ilha branca como um dos melhores destinos eletrônicos de verão do mundo. Mas essa história não começa com os beats: logo que abriu, o espaço capitaneado pelo empresário da noite Pepe Roselló, apostava em shows e apresentações que incluíam até flamenco. A música eletrônica chegou mesmo com força na década de 1990, com o “boom” da dance music ao redor do mundo e a consequente invasão desse estilo na ilha, já repleta de imigrantes.

Em quase três décadas, os DJs mais importantes e famosos de todo o mundo já se apresentaram por lá – dos veteranos Sasha e Frankie Knuckles aos gigantes do Chemical Brothers e Daft Punk, passando pelos astros da EDM Steve Aoki, David Guetta e Fatboy Slim, só pára citar alguns nomes. As noites de terças-feira tornaram-se uma das mais icônicas, comandadas há 14 anos pelo veterano Carl Cox.

No começo deste ano, no entanto, a Space anunciou que deve tocar seus últimos sets. A “last season” do clube já foi anunciada, começa no dia 29/5 (um domingo) e deve ser uma das melhores até hoje (mais infos aqui). Os motivos do fechamento da casa inda não foram totalmente esclarecidos, mas boatos sobre o fechamento da Space rolam há alguns anos. Segundo o site local “Diario de Ibiza”, a locação do clube será entregue aos proprietários do Grupo Matutes, donos do famoso hotel-club Ushuaia (um reduto de público mais endinheirado), devido ao fim do acordo com Pepe. Rumores diziam que o local viraria um shopping center, mas os empresários da Matutes disseram que, em 2017, o local deverá reabrir com foco em “club noturno”.

Enquanto Pepe não anuncia qual será o futuro da marca Space, nós lamentamos o fechamento de mais uma casa tão importante na história da música eletrônica mundial. E, para conhecer melhor a Space, conversamos com cinco DJs brasileiros que tiveram a oportunidade de tocar na icônica boate. Confira agora suas histórias da Space Ibiza:  

 

 

11895128_944530185585938_1646612287983044279_o_500

RODOLFO WEHBBA

HOUSE MAG – Ano passado você tocou na festa ENTER. Como é a experiência de tocar no Space Ibiza?

WEHBBA – Eu toquei na ENTER., que é a festa do Richie Hawtin, e achei incrível. Ela é totalmente diferente de qualquer outra festa que rola no club, porque o foco é mais na música, com a produção minimalista. Mas não entendam minimalista como “baixo custo”, porque a experiência é realmente especial, justamente pelo modo como tudo é planejado e executado. Até para os artistas, desde a recepção no aeroporto, jantar, tudo é super bem detalhado, e o próprio Richie fazia questão de estar envolvido em todos os momentos da noite, desde o jantar até o after hours. Cada festa tem um mood, uma decoração e um tipo de produção diferente. Estive em várias diferentes, apesar de ter tocado somente na ENTER, mas essa flexibilidade do club é realmente impressionante. Outra coisa que me chamou a atenção foi a qualidade de som incrível, e os “labirintos infinitos” do backstage, além do quartinho de equipamentos reserva, que tem desde infinitos tipos de mixer, toca discos e afins, a uma micro oficina de reparos para as emergencias da noite, realmente impressionante.

Você já tinha ido na Space antes ou foi a primeira vez conhecendo o local?

Já tinha ido algumas outras vezes, e depois de tocar voltei a ir algumas outras mais, mas sempre por pouco tempo, para dar um oi pra algum amigo que estivesse tocando… a não ser quando a ANNA tocou, aí passamos a noite toda por lá curtindo um pouco. Vivendo em Barcelona é muito facil pegar um voo só para fazer isso e voltar no dia seguinte, sem nem se preocupar em dormir.

Lembra do que tocou, como foi a reação do público? Algo engraçado, inusitado, alguma história especial de lá para compartilhar?

Eu toquei em um back 2 back com o Christian Smith, meu parceiro de anos, e o mais diferente foi passar pelo bar pegar uma bebida antes de entrar no som e o barman ser o Richie Hawtin, servindo o sake de fabricação própria dele pra gente. A vibe do club e da noite são incriíveis, realmente um evento que faz a diferença pra quem vai e pra quem toca.

Como você recebeu a notícia do fechamento da Space após 27 anos de festas?

Ja tinha ouvido rumores, ja estava pra acontecer faz tempo, pois a Space foi comprada pelo grupo do Ushuaya, que é do outro lado da rua. Era questão de tempo, e apesar de toda a sua história, Ibiza é uma ilha bem pequena com clubs bem grandes, eventualmente as coisas tem que mudar senão fica tudo muito do mesmo.

O que, na sua opinião, fez o local ser um dos clubs mais importantes do mundo?

Acho que a combinação de lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. O club abriu espaço pros DJs certos fazerem história na hora que o fizeram, e sem eles não teria acontecido da mesma maneira. O fato do (ex)dono, apesar da idade, continuar frequentando o club e tendo certeza de que tudo esta funcionando como deveria até hoje, e ter uma relação de amizade pessoal com seus DJs residentes, diz muito sobre parte da formula desse sucesso. 

 

 

 

guiboratto02_500 

GUI BORATTO

HOUSE MAG – Você já tocou diversas vezes no Space Ibiza. Ano passado foi na noite da Kompakt. Em geral, como é a experiência de tocar no club e como é a reação do club?

GUI BORATTO – A Space Ibiza tem uma longa história. Quando eu toco lá, vejo pessoas da velha guarda, veteranos e claro, turistas, curiosos e pessoas que estão lá pra curtir mesmo. O club tem uma vibe demais! Com diversos ambientes e pistas. Lembro bem da primeira vez que estive lá, em 2006. Naquele ano toquei na DC-10, mas no sábado fui na Space para ver como era. Foi muito legal, pois o Sasha estava tocando na principal e de repente começou a tocar “Like You”, música minha das antigas. Depois mudamos de pista e o Danny Tenaglia também começou a tocá-la. Minha mulher Luciana, que canta a música, estava comigo e ela ficou tão empolgada e emocionada. Foi demais.

Esse ano você tocará novamente com o Michael Mayer, dono da Kompakt. Está esperando / preparando algo especial, devido aos anúncios de que este será o último ano da boate?

Pretendo fazer algo especial, claro. Fico triste só de pensar. Um dos clubes mais emblemáticos do mundo fechando as portas. Bem triste. Mas vai ser uma noite longa e especial. Junto com meu amigo e dono da minha gravadora “mãe”, Patrice Baumel, etc…. Vai ser demais….

O que, na sua opinião, fez o local ser um dos clubs mais importantes do mundo?

Toda sua história, programação sempre impecável, soundsystem excelente e a energia que o clube veio carregando de ano a ano. Difícil escrever em palavras. Mas vai deixar muita saudade com certeza.

 

 

 

_dsc01452_500

WESLEY RAZZY

HOUSE MAG – Voce tocou no club em 2013. Como recebeu o convite pra tocar lá?

WESLEY RAZZY – Por meio do organizador do Kehakuma, que me ouviu tocar em um after e curtiu.

Lembra o que tocou e como foi a reação do público?

Lembro de ter tocado uma faixa do selo Metereze que tinha sido lançado naquele ano, Dubtil – “Remaked”. A reação foi bem boa! Por ser fechamento, vários outros DJs estavam na pista, como Bill Patrick, Maayan Nidam e Ryan Crosson, que acabaram tocando no final na nossa pista, fazendo um b2b com Bones. Foi um momento especial, um sentimento de família que se encontra muito na ilha durante o fim da temporada.

Em geral, como foi a experiência de tocar na Space?

Foi demais! Space é um dos melhores clubes do mundo – me apresentar em um espaço de tantas historias emblemáticas e grande influência no cenário eletrônico foi muito especial. Tive a oportunidade de tocar no “closing” da festa Kehakuma, que teve um gosto ainda maior de despedida daquele verão, e a energia estava muito boa! Trabalhei na “ENTER” por duas temporadas, em 2012 e 2013, então a Space era como uma segunda casa. Tive o prazer de estar lá quase todos os dias e conhecer o time que fazia o barco andar. Tive algumas conversas rápidas com o Pepe, dono e fundador da boate, e ele era uma pessoa muito sorridente e com “boa vibe“.

Como recebeu a notícia do fechamento?

Esses boatos já ocorriam lá dentro desde 2012. O que eu ouvia era que o espaço do terreno pertencia a família Matutes, que são donos do Ushuaia, e o contrato do Pepe estava para acabar. Eu recebi com muita tristeza, Space é um dos poucos clubes com paixão pela música, que levanta a bandeira underground em Ibiza. Os novos donos vão fazer do espaço mais um local superficial com áreas VIPs e sem clima. Infelizmente, a ilha está cada vez mais indo para esse caminho.

Existe algum local no Brasil parecido com a boate espanhola?

Estruturalmente, sim. Mas como o time da Space operava cada uma das noites e com as propostas musicais e visuais diferenciadas em cada pista, isso não temos nada parecido.

O que, na sua opinião, fez o local ser uma das boates mais importantes do mundo?

A forma com que era cuidada – com amor, sempre ouvindo o publico, celebrando uma atitude hedonista que ia além do financeiro. Space se tornou famosa por seus infinitos afters no Sunday Space Terrace que duravam mais de 24 horas, era o Circo Loco da época. Essa liberdade e a boa musica aliadas a uma estrutura impecável fez da Space o melhor clube do mundo.

 

 

 

_mg_2613_500

PAULO BOGHOSIAN

HOUSE MAG – Você tocou na Space em 2003. Como foi a experiência?

Foi especial. Na época em que toquei, o club era puro e representava o espirito hedonista de Ibiza. A Space foi um das primeiras casas eletrônicas que ficaram conhecidas pelo formato a céu aberto e funcionando dia e noite na década de 1990, por isso era, durante um bom tempo, o “after-hours” mais famoso do mundo. Depois que o business se profissionalizou e a cultura EDM invadiu a Playa D`en Bossa, juntamente com a abertura do hotel Ushuaia (em 2010), muita coisa mudou. Acredito que a Space sentiu isso mais do que qualquer outro club na ilha. Mas, ao longo da primeira década do milênio, a Space era a boate mais “hypada” de lá.

Era a primeira vez que foi ao local?

Não. Na primeira vez que fui para Ibiza, em 2000, cheguei numa tarde de domingo e logo soube que estava rolando o famoso domingo da Space, chamado “We Love Sundays”. Resolvi deixar minhas malas no hotel e ir direto para o club. Quando cheguei, Erick Morillo tocava no terraço, em uma época que ele era um dos reis da house music. Nunca me esqueço da vibe naquele dia, lembro-me inclusive da música que estava tocando quando entrei, Masters at Work – “To Be in Love”. Aquele momento me marcou e impactou muito a minha carreira. Desde aquela viagem, fui pra Ibiza todos os anos durante uma década. 

Como recebeu o convite pra tocar lá?

O convite surgiu através do club Anzu, onde tive uma das primeiras residências na carreira. A Anzu sempre fazia as festas da tour mundial da Space e um dia resolveu convidar os residentes para tocar em Ibiza.

Lembra o que tocou e como foi a reação do público?

Era um “after-hours” que começava 8h, organizado pela Barbara Tucker. Então, o ambiente era muito propicio para tocar house music. Fiz um set 100% em vinil. Pista cheia do início ao fim. Me surpreendi com a quantidade de pessoas de diferentes nacionalidades: havia europeus, latino-americanos, russos, asiáticos etc. Era uma pista realmente multicultural.

Como recebeu a notícia do fechamento da Space?

Triste, pela perda de um ícone em nossa música. Um ícone que marcou história e sempre se manteve fiel à sua proposta e ao seu conceito. Porém, ao mesmo tempo fez sentido. Ao longo dos últimos anos, sofreu muito com pressões políticas, e as novas “regras” impostas pelo governo de Ibiza fizeram com que perdesse a sua essência. Com certeza tem muita politicagem nos bastidores que nós não sabemos, mas de forma geral nos últimos anos parecia que a Space vinha perdendo seu espaço por lá.

O que, na sua opinião, fez o local ser uma das boates mais importantes do mundo?

Acredito que a proposta da Space de club a céu aberto e funcionando dia e noite representa o espirito de Ibiza. De festa, de hedonismo, de diversão sem hora para acabar. Essa proposta atraiu um público eclético e interessante. E, claro, o melhor da música eletrônica. Já vi pessoalmente e ouvi falar de sets lendários na Space, que tinha em suas cabines DJs que iam desde a primeira linha de locais até estrelas mundialmente aclamadas, de Danny Tenaglia a Sasha e Erick Morillo, passando por Laurent Garnier, Deep Dish, Richie Hawtin e Carl Cox. Muitas músicas foram inspiradas no terraço da Space e também nas pistas cobertas. 

 

 

 

pedro_001_500

PEDRO TURRA, DO CLICK BOX

HOUSE MAG – Você tocou na Space em 2012. Como recebeu o convite pra tocar?

PEDRO TURRA – Ocorreu por meio do DJ Richie Hawtin, pois eu fazia parte do casting de artistas da Minus.

E a experiência, em geral, de tocar na Space, qual foi?

Única. Sempre foi um sonho, coisa de adolescente e quando chegou o dia foi sensacional. Já tinha ido ao local uma vez para curtir e conhecer, mas, naquela noite, fiz o live do Click Box, uma mistura de house e techno e a galera foi super receptiva. Também foi divertido, pois estava com toda a turma de amigos da Minus e depois rolou um after-hours em que estavam todos também. Passei bons momentos com o Guti. Lembro uma hora em que o Richie Hawtin entrou no camarim, nos olhou e disse: “Vixi, formação de quadrilha sul-americana! Isso me soa como um problema! (risos)”.

Como recebeu a notícia do fechamento?

Acredito que tudo tenha um começo e um fim e creio que se esse final chegou. De maneira digna, vale dizer. Vai fazer falta, mas as lembranças de quem passou por lá vão ser sempre boas, pode ter certeza.

O que fez o local ser uma das boates mais importantes do mundo, na sua opinião?

O contexto geral do club, o line-up, o soundsystem, o crew, a própria ilha…

 

 

Fique por dentro