Por: Gabriela Loschi, correspondente de NY
* Este review foi publicado na House Mag impressa em 2011
Poucos raios solares ainda eram vistos sob as nuvens cinzas a cobrir o céu de Detroit naquele último domingo de maio. O cair da noite conferiu um charme a mais ao segundo e provavelmente mais efervecente dia do Movement Electronic Music Festival – quando todas as energias somatizaram-se. Mas também aumentou a tensão daqueles que, entre as cinco pistas minuciosamente bem elaboradas e dirigidas por companhias experientes, circulavam exalando alegria em meio a monumentos e edifícios. Por vezes paravam para tirar fotos de Ontário, Canadá, logo ali do outro lado do Rio Detroit, imperdível.
Mas o clima de correria impregnou. Guti entrava no palco da Beatport, antes do encerramento por Loco Dice. Na Made in Detroit, Bruce Bailey seguia finalizando seu set enquanto Delano Smith aquecia. Literalmente underground, a Movement Torino Music Festival se despedia de Steve Rachmad e lá vinha o astro Ben Klock, antes do headliner e outro grande nome do techno alemão Marcel Dettmann explodir a pista. No bar próximo ao main stage (que parecia uma arena grega com arquibancada em circulo), organizado e batizado pela Vitamin Water, uma conversa: “Villalobos terminando já vai entrar Sven Vath. Acho que conseguimos correr e pegar o fim do Beardyman na insana Red Bull Music Academy. Se der tempo, vamos ver o início do Aux 88 que vai trazer o Xeo-Genetic, mas… precisamos voltar rápido para não perder o encerramento do Carl Craig, que numa rara oportunidade apresentará seu projeto 69!”
Essa conversa sintetiza o perfil do público que vai a Detroit celebrar um dos festivais de maior qualidade musical do mundo. Um público que vai atrás da boa música e sabe o que está rolando – nos bastidores e nos palcos. O clima tenso se da naturalmente pelo grande leque de boas opções apresentando-se simultaneamente do início ao fim, e isso sem mencionar as milhares de excelentes after-parties (durante o feriado do Memorial Day, quando o evento acontece todos os anos, costuma-se dizer que Detroit “suga” todos os artistas bons de techno e vertentes espalhados pelo mundo).
Se a qualidade faz o clima, o que dizer da originalidade? É… são raríssimas as ocasiões em que temos a chance de presenciar um estilo musical no seu berço e celebrá-lo junto aos personagens que deram origem ao seu lugar na história. Quando isso acontece, a sensação é inexplicável. Pra quem gosta de techno, ir a Detroit – e mais especificamente a esse festival onde a chance de você topar com os pioneiros é garantida – é mais do que estar no lugar onde um dos gêneros mais importantes e influentes da música eletrônica nasceu. É participar da arte em sua mais pura forma, além de vivenciar uma verdadeira aula de história. “Esse festival mudou minha vida, venho todos os anos” – este não é o comentário de uma pessoa espécífica, mas de várias que conversei ao longo dos três dias de evento, de 29 a 30 de maio.

Foto: Bryan Mitchell
O INÍCIO, O FIM E O MEIO
Uma das opções ao sair do festival no domingo era a after-party oficial (e free!) da Vitamin Water. Um salão invadido por um techno pesado comandado por… Kevin Saunderson! Sim, ele que, em meados dos anos 80, ao lado de Derrick May e do mestre Juan Atkins, criou umas das primeiras faixas de techno no subúrbio de Belleville, inspiradas por viagens a Chicago de onde traziam idéias da house music (gênero onde também vieram a somar), juntando-se a outras mil e uma influências que iam de Kraftwerk a soul e ao som mecânico das máquinas que dominavam a cidade automobilísitca.
A primeira vez que Detroit sediou esse festival de techno foi em 94, organizado por uma galera que vinha do jazz, muito forte e influente na cidade principalmente entre os anos 70 e 80. A POP Culture Media organizara o Ford Detroit International Jazz Festival e o Detroit-Montreux Jazz Festival antes de partir pra música eletrônica com o World Party. Mas o próximo viria a acontecer apenas em 2000, dessa vez sob o nome de Detroit Electronic Music Festival e já no Hart Plaza, sob a direção artística de Carl Craig e o apoio da City of Detroit com entrada franca e mudando de nome e administração até 2005, quando passou a ser pago. Em 2006 a empresa de entretenimento Paxahau, que rebatizou para Movement Electronic Music Festival, assumiu: “Em 2005 nós produzimos uma das pistas do festival e sentimos que ele precisava de ajuda profissional. Entramos com uma petição junto à City of Detroit para o gerenciamento do evento. Eles aceitaram nossa oferta e desde então o festival tem crescido em tamanho e estabilidade ano a ano”, contou Jason Huvaere, diretor e proprietário da Paxahau. 2011 foi, até hoje, o ano mais prolífero para o festival.
É importante ressaltar que o crescimento em números (este ano foram quase 100 mil pessoas) não significou perda de qualidade. Pra começar, um festival sediado em Detroit tem à sua disposição, todos os anos, um time respeitável na linha de frente. “A essência do verdadeiro techno de Detroit está presente no dia a dia da cidade e o festival nos permite mostrar isso para o mundo. Temos muito mais artistas do que espaços para tocar, portanto revezamos ano a ano”. Além dos nomes locais, que inclui também o coletivo Underground Resistance (esse ano representado por Mark Flash, Jon Dixon e De`Sean) e um time de bons produtores que não acaba mais, a produção procura mesclar com grandes nomes mundiais, como Fatboy Slim. “Os artistas do mainstream são muito importantes para permitir que mais gente venha conhecer o techno de Detroit. Mas somos muito seletivos com quem convidamos. Procuramos qualidade e consistência sonora, em primeiro lugar, personalidade e performance. Esse é um evento pensado durante o ano inteiro. Todos nós viemos do background underground de Detroit, portanto a seleção dos performers precisa manter essa reputação do Movement Festival e da City of Detroit”.

Foto: Gabriela Loschi
A SURPRESA
Marc Houle compara: “Uma das maiores diferenças entre o Movement e outros festivais é o som. Aqui, nas cinco pistas você ouve techno de qualidade e suas variações”, conta o canadense de Ontario que, por ter Detroit em seu “quintal”, aprendeu a tocar com seus fundadores, ouvindo o 4X4 nos clubes e warehouse do fim dos anos 80 e início dos anos 90. Em 97 tornou-se residente do clube de Richie Hawtin, que foi o headliner na pista Beatport no sábado, 28 de maio – primeiro dia, e contou que não há lugar no mundo como sua casa: “Isso aqui é fantástico”. Concordamos. E, só pra contrariar um pouquinho, na mesma hora em que Marc finalizava seu live, a Red Bull Music Academy (mais voltada ao street sound, uma das pistas mais efervecentes e esteticamente agradáveis, com vista direta para o rio) recebia um dos maiores expoentes do drum`n`bass mundial Goldie, quase que simultaneamente com um dos grandes responsáveis pela deep house, Kerri Chandler na pista principal.
Para quem ficou até o último dia também precicou se desdobrar em cinco para assistir, simultaneamente: Flying Lotus, Claude Young, Adam Beyer, Fatboy Slim e Paul Kalkbrenner. Bom, enquanto a organização pensava e selecionava todos esses nomes, havia um deles que faria uma diferença histórica para o Movement 2011. O artista secreto da pista principal, anunciado dias antes, era Ricardo Villalobos que, pra quem não sabe, não pisava em solo norte-americano há 9 anos por discordar da política de dominação e guerras. Ano passado seu nome foi anunciado; logo em seguida cancelado. “Não foram só problemas de visão política, o visto dele também não saiu. Foi quando passamos a trabalhar juntos para a obtenção e esse ano deu certo! Foi uma longa espera, estamos muito felizes!”, contou Huvaere. Os fãs norte-americanos de Villalobos vinham especulando seu retorno desde o fim da era Bush. A assessoria do artista afirma ter sido uma aparição especial para esse festival.
Esse festival… Onde se fala de paixão pela música, respeito às origens, às tradições. Não tradição no sentido da batida que não se recicla, mas da atitude que permanece. O techno tem um caráter de libertação e igualdade, respeito às diferenças e é esse o clima a ser mantido em Detroit. Se esses valores, que nasceram com a música eletrônica de um modo geral, continuarem a ser respeitados, mesmo apartando-se de elementos e patrocínios comerciais (às vezes exagerados, como o nome das tendas) para crescer (ou no mínimo se manter), ainda assim é possível continuar fazendo um festival de altíssimo nível musical. Esta no sangue de Detroit e de todos os seus filhos. Que continue assim.
