Sons do Brasil: Sobre vira-latismo, techno e o groove nacional

Por: Flávio Lerner – adaptação da reportagem publicada originalmente na House Mag impressa #44, em maio deste ano.

Uma nova fase techno tomou o mundo de assalto. No Brasil, embora expoentes como BLANCAh, L_cio, Cashu, Zopelar e APOENA estejam mandando demais, há uma onipresença do estilo que pode acabar incomodando — afinal, em alguns lugares parece não existir mais nada que não seja techno ou tech house! Confesso que sou dos sons quentes, com mais melodias, baixo suingado, harmonias de piano e synths arpeggiados. Por isso mesmo, às vezes me sinto um pouco deslocado; meus amigos cultuam a famigerada “lenha”, o subgrave no talo, os loops retos, o minimalismo sombrio. Em Porto Alegre, onde moro, a cena está cada vez mais bacana [assim como no país em geral], mas faltam opções diferentes.

opcao_1_jorge_ben_500Jorge Ben

É uma parada que não entendo, já que temos uma das heranças musicais mais ricas do planeta. Então por que não aproveitá-la?! Se você, como eu, não dispensa um Jorge Ben, acha que o Todd Terje é deus e o Discovery é o melhor álbum de dance music de todos os tempos, dependendo de onde você mora, encontrar uma noite de música eletrônica com pitadas de disco, samba ou bossa nova pode ser um pouco difícil. Pra investigar o porquê desses estilos parecerem renegados no nosso país, troquei uma ideia com “alguns carinhas aí” da cena nacional.

“Eu percebo que existe sim um estranhamento pela galera de techno e house em relação à música brasileira. Sempre houve”, diz o DJ paulistano Tahira, que julga a questão como uma falta de conhecimento do público — uma barreira que lentamente vem sendo quebrada. “Você tem hoje Carrot Green, Fatnotronic, Selvagem… Produtores que há cinco anos não conseguiriam espaço.”

tahira_1_500DJ Tahira

Em janeiro, essa desconsideração foi evidenciada pela baixa repercussão do Boiler Room realizado em Recife. O rolê foi absurdo, só com DJ set de mestre [incluindo o próprio Tahira] homenageando toda essa nossa riqueza musical. “Quando alguém de fora chegar aqui e falar que essa edição foi a mais legal, aí os brasileiros vão concordar. A gente é muito paga-pau de gringo”, acrescenta. Opa! Chegamos ao bom e velho complexo de vira-latas?

“O Brasil sempre renegou suas raízes. Pro brasileiro em geral, o legal, o avançado, é o que vem de fora”, diz o pernambucano 440, que foi colega do Tahira nesse mesmo Boiler Room. O DJ já vem num trabalho consistente há mais de 15 anos fazendo festa de música brasileira nas ruas de Recife, como a Terça do Vinil e a Vinil em Brasa. “No começo não havia muito público, hoje já mudou bastante.”

dj_440_divulgacao_foto_alex_ribeirocria_sa_01_500DJ 440

Patife, um dos grandes responsáveis por colocar o Brasil no mapa da dance music nos anos 90, concorda: “Fomos ensinados que tudo o que presta vem de fora”. Ao lado do DJ Marky, ele foi pra Londres na cara dura, sem grana e sem falar inglês, e fez locais como o empresário Edo Van Duyn [que hoje mora no Brasil e é sócio na Plus Talent] pirarem com a cena de drum’n’bass nacional. Em 2001, o seu remix de “Pra Você Lembrar”, do Max de Castro, foi importado pelo DJ Fabio pras pistas do Reino Unido e virou febre. “Aquilo era diferente de tudo que rolava na Europa”, segue contando. “O estrangeiro sempre foi apaixonado pelo Brasil, então quando os primeiros sons brazucas cruzaram o oceano, ouvidos como os de Gilles Peterson, Ross Allen, Bryan Gee e tantos outros viraram pra cá. Sem dúvida, se não tivesse rolado reconhecimento lá fora, talvez até hoje estivéssemos no anonimato.”

patife_divulgacao_500DJ Patife

O Marky também deu sua palavrinha sobre o tema. “[Pro brasileiro] Tudo que vem de fora é melhor. Isso já vem desde os anos 70. Nossa música é muito rica e única, mas as pessoas percebem tarde demais! Um exemplo é a noite do DJ Nuts no boteco Prato do Dia, em que ele só toca música brasileira de qualidade e coisas que você nunca pensou em ouvir, de samba rock a macumba”, conta o nosso Pelé dos toca-discos. “Os DJs de hoje não querem ser diferentes, querem tocar o que o gringo toca porque acham que saem na frente. Por esse e outros motivos não temos mais clássicos. Acho que o maior problema no Brasil é o fato de ter vários clubs insistindo apenas em uma tendência musical. Nem tudo gira em torno de músicas 4X4”, completa.

dj_marky_01_by_chelone_wolf_photographer_500DJ Marky

Metade do duo de disco house Fatnotronic, Phillipi Alves também toca na ferida. “Brasileiro não curte som nacional em pista”, diz. “Quando estamos viajando, todas as lojas de disco que visitamos têm uma seção de títulos brasileiros. Acredito que um dia ainda vamos achar a nossa música cool.” O Fatnotronic, que faz muito edit de disco music nacional rara, é prestigiado por nomes tipo 2manydjs, Fatboy Slim, Poolside, Prins Thomas e Tim Sweeney, mas curiosamente ainda não emplacou no país.

O vira-latismo pode até explicar nossa relação com a própria cultura, porém é insuficiente pra entender por que cargas d’água os sons mais retos e gelados são preferência dos nossos clubbers. Pro Omulu, expoente da bass music nacional misturando trap com funk carioca, é preciso contextualizar. “Nossa cena clubber se formou nos anos 90, nos moldes da norte-americana e europeia. Vivíamos o boom da globalização, com fortes campanhas das economias protagonistas pra criar um padrão mundial de consumo e, consequentemente, cultural. Isso fez com que jovens de países menos desenvolvidos deixassem de lado suas raízes, chegando até a julgar sua cultura nativa inferior à estrangeira.”

fatnotronic_500Fatnotronic

Trepanado, do duo carioca-paulista Selvagem, segue análise parecida: “De fato o techno e a faceta mais sombria do deep house estão em alta, mas não acho que isso esteja ligado a uma renegação da tradição musical brasileira. Talvez a conexão seja na forma como a música eletrônica se disseminou no país, e aí podemos traçar uma linha que vai do EBM nos anos 80 até o techno na virada do milênio”, elucubra. “Muita gente foi influenciada pelas squat parties em que o som era tenso e o BPM bem alto. Talvez o fato de pessoas que vivem o underground precisarem se afirmar como resistência leve a essa sonoridade ‘entrincheirada’. E também há a idolatria à cena de Berlim, o que faz com que ela seja emulada.”

Bastante viajado, o DJ também chama atenção para o perfil de cada região. “Em Moscou um som alegre tem mais apelo. Em Glasgow se pode misturar de tudo, de Levon Vincent a Robin S. Londres também gosta de um som grooveado. Já Paris tem um clima mais dark, reticente, enquanto Lyon é bastante aberta. São Paulo sempre foi uma cidade ligada ao techno, e o Rio, apesar do astral houseiro, tem uma tradição no estilo. A galera sempre gostou de uma ‘darkeira’.”

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A visão do conceituado DJ e jornalista paulistano Camilo Rocha vai bastante ao encontro, mas ele prega cuidado pra evitar generalizações. “Pensar na expressão musical brasileira apenas dentro desse estereótipo do calor e da melodia alegre parece quase uma coisa pra gringo ver. Tá certo que o samba e derivados constituem um eixo central da nossa música, mas tem muito mais história. E, afinal, por que sons industriais e dark não combinam com o Brasil? São Paulo à noite parece ‘Blade Runner’, e Brasília tem uma pegada de utopia futurista antiga, fria e impessoal.” Para ele, a hegemonia recente dos sons mais crus pode ser explicada como uma fase. “No circuito de house e techno realmente há uma onda atual mais sombria. Isso é cíclico, e já tivemos ondas mais alegres e melódicas. Se você pegar o que se ouvia no Warung há dez anos, era diferente.” Ele também complementa a teoria do Trepanado sobre um “som entrincheirado”. “Acredito que os tons mais sombrios sempre têm destaque porque combinam muito com noite, com pista escura, com uma aura ‘underground’. Tanto que não dá muito certo tocar coisas nessa linha em festas à luz do dia, ou na praia.”

O Tahira ainda foi além, relacionando preferência estética com idade. “O som mais sombrio e pesado tem muito a ver com uma galera mais nova, que tem mais força. Se você perguntar para os DJs que já passaram dos 35 anos, todo mundo vai preferir ouvir coisas mais alegres, como disco, soul… É lógico que existe todo tipo de gente, mas o amadurecimento te traz um pouco de seletividade. Você fica chato pra som, não é tudo que te agrada. E eu vejo que o pessoal antigo, mesmo DJs de techno, têm hoje uma proximidade maior com essas sonoridades mais quentes.”

camilo_rocha_dedge_agency_500Camilo Rocha

São Paulo também parece ser um mundo à parte. Mesmo que pra alguns o polo da dance music hoje seja no Sul, o leque de alternativas na megalópole é definitivamente maior. “Eu faço parte desse circuito de festas mais independentes, de rua”, segue o Tahira. “É uma cena mais aberta e diurna, e no dia você toca sons mais harmônicos. Eu imagino que o bloqueio com isso é uma coisa que a cidade tinha há uns 6, 7 anos.”

“São Paulo já foi mais sisuda, hoje é bastante plural em termos musicais”, complementa o Trepanado. “Quando começamos a Selvagem, nem tocávamos muita música brasileira, foi algo que viemos introduzindo nos últimos três anos. E se antes era inimaginável tocar uma versão nacional de ‘I Feel Love’ num set de disco, house e techno, hoje na nossa pista se ouve a versão instrumental de ‘Alagados’ do Paralamas na sequência de um remix de Carl Craig e faz sentido; é algo que as pessoas deixaram de achar ‘cafona’.”

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A capital paulista é também referência no que diz respeito ao “global bass” — a dance music casada com sons folclóricos. Como bem destaca o Omulu, “em várias partes do mundo vêm crescendo movimentos de aproximação da música eletrônica com as culturas locais. Por exemplo, o afrohouse — que está explodindo em toda a Europa, e acho uma das coisas mais bacanas que já aconteceram com a house desde que saiu de Chicago —, a cumbia digital da Argentina, o changa tuki da Venezuela, o 3ball do México… Aqui esse movimento está começando a fluir melhor. Apesar de coisas muito bacanas já terem sido feitas com samples brasileiros na house e no d’n’b, a nova geração está usando a síncope do samba, pagodão, funk, e criando batidas completamente novas, 100% nacionais”. O Tahira também percebe esse movimento global com força em SP: “A gente vive numa fase em que a música que não é a norte-americana está cada vez mais incorporada na música eletrônica”.

Se pegarmos de fato São Paulo como fomentadora de tendências pro resto do país, podemos esperar que as outras regiões tornem-se igualmente plurais. É a esperança. E por favor, não entendam mal: ninguém aqui é contra o techno ou qualquer outro gênero. A questão é a falta de diversidade e nossa relação problemática com as próprias raízes — o que, felizmente, parece estar mudando. Talvez, algo bom a se fazer seja guardar o que diz o músico e pesquisador goiano Júnior Santos — curador da Brazilian Disco Boogie, primeira coletânea de disco music brasileira do mundo, que desencavou faixas renegadas há décadas no país. O Júnior me disse assim: “A grande riqueza da música do nosso país está nas harmonias. Eu apenas torço para que a moçada perceba isso logo; que não leve tanto tempo como levou pra descobrirem os ‘brazilian grooves’. 

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