Batemos um papo com Lucas Freire, um dos pioneiros do techno nacional

Por: Camila Giamelaro

Se você aproveitou os anos dourados do techno no Brasil, lá no comecinho dos anos 2000, com certeza você já caiu em alguma pista onde Lucas Freire (ou na época conhecido como DJ Lukas) tocou.

Ele foi residente dos clubs mais importantes de São Paulo, como A Loca e Lov.e, e é uma das grandes referências da cena techno brasileira. Quem ainda não lembrou, com certeza deve ter na memória algumas lembranças bem vívidas das noites no club Kraft em Campinas, considerado até hoje um dos mais importantes clubs undergrounds do interior de São Paulo, o qual Lucas foi um dos fundadores, além da festa Techcardia.

Depois do convite do lendário DJ Rush para uma tour pela Europa, Lucas Freire foi morar em Barcelona, onde teve sua carreira estabelecida e vive por lá até hoje com sua companheira de trabalho e de vida, a DJ Dot Chandler (a.k.a. Fernanda Martins). Juntos eles fundaram a Devotion Records, selo focado no techno.

Atualmente está de passagem pelo nosso continente, realizando a maior tour sulamericana de sua carreira. Já passou pela cidade de São Paulo, na pista subterrânea da festa Vault, e hoje, dia 14 de outubro (sexta-feira), segue para Campinas para se apresentar no Club 88. Depois embarca para datas especiais na Colômbia, e retorna ao Brasil apenas em novembro para finalizar a tour. Imperdível para quem quer ouvir um bom e original techno.

Mesmo com a correria da Tour, a House Mag conseguiu conversar com Lucas Freire pra você conhecer um pouco mais sobre o trabalho e visão do artista.

 

HOUSE MAG – O que te levou a começar sua carreira como DJ? Quem foi sua inspiração pra dar o pontapé inicial?

LUCAS FREIRE – Na verdade eu demorei um pouco pra realmente encarara a possibilidade de me tornar um DJ. Foi apenas depois da insistência e incentivo de amigos que eu resolvi provar as primeiras mixes. Nessa época um bom amigo (Filipe Negrao a.k.a. DJ Mirr) tinha um equipamento de DJ basico na casa dele. E quando digo básico eu quero dizer basico mesmo, ERAM 2 toca discos Gradiente de correia e pitch de rodinha e um mixer Numark de mil novecentos e bolinha! Ele tinha uma coleção de discos bem completa mais baseada no house, mas ele tinha uns discos de techno muito bons e foi com esse material que eu fiz minhas primeiras mixagens. Fui um dia de tarde na sua casa, ele me explicou o funcionamento do equipamento, me disse mais ou menos o que eu deveria fazer pra encaixar as batidas dos dois discos e de uma forma bem básica me explicou o que era fazer uma mixagem! Fiquei ali por umas duas horas e fui pra casa eufórico. No dia seguinte pedi pra voltar e fiquei mais umas duas horas. Na semana seguinte eu já estava indo pra Galeria Ouro Fino em São Paulo, comprando meus primeiros discos. Daí vieram as primeiras festas, depois os primeiros projetos, residências e tudo foi se desenvolvendo e evoluindo sempre tendo como base uma paixão muito grande pelo que fazia, sempre me dedicando de corpo e alma em todo esse processo.

 

HM – Você viveu uma das melhores fases do techno no Brasil e colaborou com o crescimento do movimento no país, principalmente no interior de São Paulo. Você não sente vontade de voltar pra cá e fazer algo com a sua experiência internacional?

LF – Desde que fui morar fora eu sempre busquei não perder o contato com a cena brasileira. Sinto necessidade em estar conectado com o meu país e com as minhas raízes. Procuro vir uma ou duas vezes por ano e quase sempre toco por aqui e é dessa forma que venho tentando seguir colaborando com a cena nacional. Agora tem o adicional do selo onde sempre tentarei mostrar o trabalho de produtores brasileiros. O trabalho de promotor é algo que hoje em dia eu não penso em voltar a fazer. Foi uma etapa importante pra mim mas que por enquanto não penso em retomar.

 

HM – Quando você foi morar em Barcelona tivemos muitos artistas nacionais que foram se aventurar na Europa. Hoje você percebe se temos artistas exportados na mesma proporção? Quais brasileiros você vê com frequência lá fora?

LF – O Brasil segue exportando artistas e tendo em vista o talento dos brasileiros, isso seguirá sendo uma constante! Tem gente que tah sempre por lah como o Murphy e o Gui Boratto por exemplo. Ambos já tem uma posição estabelecida no cenário internacional. É o mesmo caso do Wehbba e da Fernanda Martins (a.k.a. Dot Chandler). Esses são artistas que se adaptaram bem às exigências e dinâmica do mercado internacional e conquistaram o seu espaço. A Anna está vivendo um momento dourado e ela vem crescendo muito e super rápido. O Victor Ruiz cada vez mais tem crescido por lá e cada vez mais vejo o nome dele relacionado a coisas bem legais dentro do Techno. Tem muita gente fazendo um ótimo trabalho então não tenho dúvidas que a gente vai seguir vendo o nome brasileiros pra tudo quanto é lado.

img_1788b2_500

 

HM – Você e a DJ Dot Chandler são parceiros no mais amplo sentido da coisa. Como vocês fazem pra não misturar o pessoal com o profissional?

LF – Na verdade a gente não faz. A gente não tem que se esforçar. Já nos conhecemos sendo DJs então pra nós tudo isso é algo super natural. Sem falar que a gente trabalha com o que a gente mais gosta de fazer então não sentimos essa necessidade de separar o trabalho da vida privada, pelo contrário, nosso trabalho é motivo de muitas das nossas alegrias então vivemos a vida profissional com a mesma paixão e intensidade que a nossa vida pessoal. Claro que precisamos do nosso tempo desconectados da música e curtindo coisas diferentes porém a música no nosso caso é motivo de união e de alegria então não temos essa preocupação em separar as coisas.

 

HM – Nos últimos tempos temos visto diversos artistas criando suas próprias labels e por isso muitos acham que é fácil levar o negócio pra frente. Quais foram as dificuldades que você enfrentou ao criar o Devotion Records?

LF – Criar um label realmente nao é dificil. O desafio nesse caso é criar um bom label e desafio maior ainda é conseguir dar continuidade ao trabalho. Manter um selo de alto nível dá muitíssimo trabalho e requer muita dedicação, investimento e isso faz com que muita gente pare no meio do caminho. No meu caso e da Fernanda Martins a.k.a Dot Chandler, que é minha socia no Devotion Records, tivemos várias dificuldades. Se destacar no meio de tantos selos e numa indústria tão competitiva é super difícil e isso é algo que constantemente temos que trabalhar em cima. Convencer artistas que gostamos que vale a pena apostar no nosso selo também é algo que requer muita conversa, tempo e investimento. Fazer a filtragem do material que recebemos também dá bastante trabalho. Muita coisa precisa de ser ajustada e muitas vezes masterizada pra entrar nos padrões que queremos pro selo. Tem a parte visual que estamos sempre supervisionando e orientando. E tem todo o marketing e promoção do selo que também dão muito trabalho. Daí você soma tudo isso com o a velocidade e dinamismo da cena atual e a necessidade disso ser um trabalho constante e acho que dá pra entender como é difícil manter um selo de alto nivel!

 

HM – Quais os produtores nacionais e internacionais que têm chamado sua atenção e, na sua opinião como curador do Devotion Records, em quem devemos ficar de olho?

LF – Tem muita gente boa por aí e pra mim é super difícil destacar apenas alguns nomes. Dos brasileiros eu posso citar o Dante Pippi, Black Roof, Rene Castanho (a.k.a. BlackSkull), Victor Enzo, Against the Time , Kleber, Wehbba, Anna, Vinicius Honorio, Victor Ruiz e isso só pra citar alguns, apenas dentro do techno. Sei que estou deixando muita gente de fora e peço desculpas mas é muito bom sinal ter mais gente pra citar do que espaço pra escrever!

 

HM – O que um artista hoje precisa ter pra lançar na Devotion Records?

LF – Precisa ser criativo, ter uma boa qualidade de áudio e gostar de techno! Eu escuto demos de um nome que nunca vi na vida da mesma forma que escuto os nomes consagrados! Buscamos música boa pro selo, independente de quem seja!

Fique por dentro