Festival com preço justo no Brasil? O que está por trás do valor do ingresso para o DGTL São Paulo


Por: Georgia Kirilov

O lote promocional do DGTL – festival original de Amsterdã que chega a SP pela primeira vez dia 6 de maio – ofereceu ingressos começando por R$120 e R$60 a meia. É, no mínimo, surpreendente um valor tão justo para o line up que inclui artistas do calibre de Âme, Apparat, Carl Craig, Derrick May, Mind Against, Recondite, além dos nacionais Teto Preto, Zopelar, Tati Pimont, Eli Iwasa, e muitos outros. O festival, que já rolou 4 vezes na Holanda e 2 vezes em Barcelona, traz sua festa para solos brasileiros e levanta questões pontuais de como tornar viável uma maior inclusão social fazendo ajustes para tornar os preços mais acessíveis.

Apesar de o nome ser DGTL São Paulo, a festa acontece, de fato, em Barueri que fica perto de Osasco, na região metropolitana da capital. A equipe escolheu um local industrial que foi batizado de Fábrica DGTL, irá oferecer 3 palcos e comportará de 6 a 8 mil pessoas. É necessário manter em mente também que quanto maior o evento e o número de pessoas comprando ingresso, mais diluído torna-se os gastos com locação, soundsystem, staff, e etc… e que o aluguel de espaços em Barueri é relativamente mais convidativo que o de espaços clássicos para eventos em São Paulo, como o Jockey Club, por exemplo.

Segundo a equipe do DGTL, através de sua assessoria de imprensa no Brasil, não houve nenhum incentivo fiscal por parte do governo. Quem está pagando pelo evento são os organizadores do festival de Amsterdã e, por enquanto, ainda não se sabe quem serão os patrocinadores dessa edição, pois as negociações ainda estão acontecendo.

O peso do nome DGTL também é relevante na hora de conseguir as melhores cotações para DJs do porte de Carl Craig, por exemplo, que recebe em média 10 mil dólares por set. O evento, que ganhou o prêmio de festival mais sustentável no ADE ano passado, quer tanto os melhores DJs em seus palcos, quanto os melhores DJs querem ser vistos em seus palcos.

Além disso, quanto mais datas os artistas internacionais do line up fecharem em locais próximos, mais barato fica para quem está os trazendo. Isso sem mencionar também a flutuação do valor do dólar e do euro, que tornam o pagamento em outras moedas relativamente menos dolorosos do que nos últimos 6 meses. 

Não é toa que a fama progressiva do DGTL precede até a altíssima qualidade musical dos seus line ups. O festival fez uma parceria com a empresa ZAP Concepts para economizar CO2 e diesel criando um plano para usar apenas lâmpadas LED em todas as instalações de iluminação. Por esse método, 90% da capacidade total funciona na rede elétrica estabelecida e somente um gerador é necessário no festival inteiro.

Até o fosfato, que é encontrado no xixi dos banheiros, é reciclado e, na última edição em Barcelona, o festival decidiu não servir carne.

São esses sensíveis detalhes que diferem um festival sincero de uma máquina de ilusões com preços exorbitantes. Esses ideais fazem parte da “revolução”, que é o que o festival propõe, por meio da observação do funcionamento das táticas usadas para otimizar o uso dos recursos. A cada ano o festival é capaz de melhorar e evoluir sem perder sua essência.

O DGTL se mantém fiel à sua proposta independente do local. O valor do ingresso para os dois dias do DGTL Barcelona (11 e 12 de agosto + festa extra) está custando €78,75. E em Amsterdã, o final de semana (15-16 abril) está custando €95, o que acaba sendo mais caro do que no Brasil, mas ainda cai na categoria acessível comparado a outros valores de festivais europeus como o Awakenings, que um dia em cada festival custa €62. 

O valor salvo com o aprimoramento do sistema elétrico é dramático, considerando que essa é a fonte de um dos maiores gastos, pois serão três palcos, seus respectivos sound systems e identidades visuais (que normalmente envolvem sistemas de luzes complexos.)

É impressionante que o DGTL consiga comunicar seus valores ideológicos e também economizar dinheiro por meio da sustentabilidade, mostrando que existem diversas maneiras de sair da caixinha e buscar um jeito de aprimorar a experiência imersiva que é um festival de música, sem cobrar preços tão altos e, de fato, entregando o que foi prometido.

São com exemplos de eventos bem planejados e otimizados que a cena nacional amadurece, vendo que existem pelo menos algumas opções para tornar tais eventos mais inclusivos.



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