Por: Pollyanna Assumpção
Mais um Lollapalooza aconteceu em Interlagos no último fim de semana – e o festival continua acertando em várias coisas e errando na mais importante: em lembrar que o público da música eletrônica cresce a cada edição.
Todo ano o palco sofre com superlotação em algum momento e nesses seis anos de festival no Brasil só houve uma real mudança na estrutura geral que melhorasse o conforto dos frequentadores do Perry´s. A edição de 2016 deixou de ser tenda e virou palco após a confusão durante o set do Steve Aoki em 2015.
Então será que após a confusão no show do Vintage Culture, que super lotou o palco (que foi até interditado) trazendo pro seu show um público que não era somente eletrônico e sim curioso pela fama do DJ, a produção vai colocar a mão na consciência e repensar o papel da música eletrônica no festival? Com DJs brasileiros cada vez mais famosos, a ponto de transcender o tipo de público que se interessa por seus sets, fica aqui o nosso apelo.

Das coisas positivas
O Lollapalooza continua lindo. E o line up continua agradando quem vai do underground à farofada em um fim de semana. Com uma quantidade cada vez maior de brasileiros no line up, o Perry´s foi aberto pelo brasileiro Ricci. A galera do eletrônico sempre começa a fritar cedo, e enquanto o povo dos outros palcos está chegando timidamente, o chão do Perry´s já estava tremendo no início da tarde. A cota underground ficou por conta do techno fino do Victor Ruiz, que já nos preparava pro dia que viria a seguir: nomes mais que festejados pela cena eletrônica mundial: Don Diablo, Tchami e Marshmello.

Victor Ruiz / Foto: Mario Cezar
Com a melhor sequência que os fã dos future-qualquer-coisa poderia ter, tivemos muitas mãos pra cima e muitos EEEEE OOOOOO espontâneos vindos da galera.

Tchami / Foto Divulgação
Don Diablo e Tchami ensinaram como se faz future house pras massas e Marshmello, um dos DJs mais esperados pelos fãs, foi responsável pela identidade visual mais feliz de todo o festival. E os fãs não decepcionaram: foram tantas as cabeças de Marshmello que nós encontramos ao longo do sábado andando por Interlagos! Porque se tem uma coisa que o público eletrônico leva a sério, é sua caracterização. Bati papo com um fã no Lounge e ele usava uma roupa idêntica ao Marshmello e me mostrava orgulhoso as fotos que tirou com o ídolo no backstage.

Fechando o sábado, o show mais comentado – pro bem ou pro mal – The Chainsmokers encerrou a noite no Palco Axe e ainda acabou sendo votado como o melhor show do festival em uma enquete popular do G1. Unindo muito serrote, muita buzina, uns traps meio desengonçados e sem sentido em estarem ali e seus já famosos hits radiofônicos, a dupla fez muito carão e fez muita menininha chorar emocionada. O The Chainsmokers é a cara da juventude eletrônica: jovem, bonita, animada e com muita disposição para pular nos drops corretos. Mas obrigado a dupla, há um bom tempo eu não ouvia Tremor. Foi top.

Chainsmokers / Foto divulgação
Domingo eu cheguei cedinho para acompanhar a sequência Gabriel Boni, Illusionize e Chemical Surf. Enchendo o palco em plena hora do almoço, o nosso brazilian bass mostrou a que veio e provou que nosso EDM é muito melhor que o EDM alheio. Pelo menos pra gente. Eu fico muito feliz de ver a força que esses DJs têm na cena local. Se antes os nomes nacionais eram vistos como warm up, hoje vemos público vindo ao nosso palco apenas para vê-los, pra logo depois voltarem para suas bandas indies nos outros palcos. Seria o EDM brasileiro, ou o brazilian bass, a nova música pop? Em um mundo em que um DJ brasileiro é atualmente o dono do maior hit no Spotify, devemos continuar tratando essa vertente como underground?
Mas enfim era o dia do grande amor da minha vida: Oliver Heldens. Entrando com um remix de Black Eyes Peas, Heldens mostrou a que veio: muita música pop disfarçada de future house. No set ainda rolou muita música brasileira, clássicos da música pop e como não podia faltar, um belo encerramento com o hino Melody.
No palco AXE o Flume encerrou o festival com o que foi dito por muitos como o melhor show do dia. Unindo um set list inspirado com uma projeção de telão que você desejaria não estar sóbrio, mais uma vez o Lolla acerta em mudar um artista eletrônico para um palco que afeta outro tipo de público.

Flume / Foto divulgação
Das coisas negativas
Borgore e NERVO. Eu gostaria de não precisar explicar porquê, mas Borgore é uma coisa negativa por si só e a linda da Titi Müller deixou muito claro ao vivo o que toda mulher feminista da cena eletrônica já sabe há muito tempo: eu não preciso de mais um homem me chamando de vadia. Na próxima, o Lolla podia levar em consideração também o histórico do artista. O do Borgore é dos piores. E se a música dele é boa eu não me importo. Não dou audiência pra quem não me respeita. E as meninas NERVO que proibiriam a transmissão do seu set na TV e no telão estavam preocupadas com o que?
E claro, as filas e mais filas. Estava muito cheio, muito cheio mesmo!
Das surpresas
Na noite de sábado eu visitei o Lolla Lounge e encontrei Don Diablo fazendo um set completamente diferente de tudo o que já vi ele fazendo. Tocando animado e com o espírito da zoeira para a classe alta paulistana, vi Diablito tocando hip hop clássico, divas pop, Michael Jackson, Queen e Bon Jovi. Durante meia hora, Don Diablo anunciava “this is my last track” e emendava mais alguma música que fez eu me perguntar se aquele seria o pendrive que na verdade ele usa no rádio do carro.
No domingo, cheguei no Lolla sem conseguir decidir qual farofa eu assistiria: The Strokes ou Martin Garrix. Deixei meu coração decidir na hora e fui pular no Garrix. Com um set recheado de hits e surpresas como Oops e WIEE, o menino Garrix, que agora é figurinha fácil nos top 40 das rádios do mundo todo, lotou o Perry´s e, assim como Zedd em 2016, trouxe a chuva e a galera ligadinha no ranking para prestigiá-lo.

Martin Garrix / Foto divulgação
O Lollapalooza não seria Lollapalooza sem a chuvinha no domingo. Não seria o Lollapalooza sem um DJ de EDM encerrando o festival e deixando a gente com gostinho de quero mais e já morrendo de saudades. Já pode vir 2018.
