Sertanejo eletrônico. Vai encarar?

Por: Gabriela Loschi

* Matéria publicada na House Mag impressa em outubro de 2013

O Brasil sempre foi um território fértil de ritmos originais, que saíram daqui para inspirar artistas de diversos países. Por outro lado, somos acostumados a importar culturas e subculturas europeias e norte-americanas – a música eletrônica entre elas. Até aí nenhuma novidade. No quesito popular, épocas gloriosas de nossa música levaram ao mundo Carmem Miranda, Tom Jobim, o samba, a bossa-nova e tantos outros ritmos regionais, demonstrando a pluralidade rica de nossa cultura. Não que tenham desaparecido os aristas inovadores em formatos e essências. Eles sempre estiveram por aí, mas isolados, individuais.

O fato é que depois de toda aquela ebulição cultural, atravessamos décadas sem um movimento de música popular brasileira realmente massivo e inédito, que extrapolasse as fronteiras físicas, até que… o sertanejo resolveu se renovar e entrar na parada.

 

“DJ AUMENTA O SOM…

…E bota pra fritar”. Não, isso não é uma rave de Psy da década passada. “Gatinha Assanhada”, do Gusttavo Lima, foi remixada com um pop-progressive-house e se transformou em videoclipe gravado em Ibiza: “A música teve boa repercussão dentro e fora do Brasil, alcançando paradas de sucesso europeias. Depois lancei `Ilha Bonita`, para as baladas do Brasil e exterior”, nos contou Gusttavo, o garoto de 24 anos tido como ícone do sertanejo universitário.

 

 

Quem escreveu a letra de “Gatinha Assanhada” foi Gabriel Valim, que logo depois lançou “Piradinha”, com elementos de sertanejo e umas batidonas.

 

 

Isso está acontecendo por todo o país. De Michel Teló a Wanessa, diversos artistas querem ir pelo caminho da remixagem. A receita é simples: mantenha a sanfona do sertanejo, jogue uma batida eletrônica acessível, acrescente letras de curtição, pegação, desapego e hedonismo, garotas “dando sopa” e… plim, a fórmula do “sertanejo pós-universitário” não só está formada, como está sendo chamada de sertanejo eletrônico – e algumas variações, como electronejo ou housenejo. 

A moda pegou. Quando não se misturam em uma música, os dois estilos aparecem cada vez mais no mesmo ambiente. Basta ver quantas baladas colocam bandas de sertanejo para fazer warm-up de DJs.

 

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Gusttavo Lima / Foto divulgação

 

MAS COMO TUDO ISSO FOI ACONTECER?

 

Há um modismo cultural cíclico, com ondas que vão e vem ao longo dos anos e são trazidas – depois de testadas e absorvidas – pela indústria fonográfica. Quando falamos de Brasil, os ritmos e gostos populares abrem um leque ainda maior. Todos sabem que a raiz do sertanejo é no campo e, com a ajuda do êxodo rural, as prosas do dia a dia caipira abriram espaço à letras sobre outros cotidianos. 

Nos anos 80, enquanto o Techno e o House nasciam nos becos escondidos e urbanoides de Detroit e Chicago, o sertanejo incorporava a guitarra elétrica e experimentou sua forma mais comercial (até então), dominando rádios e TVs com letras de relacionamento, paixão e traição. Surgiram as duplas e roupas e assessórios mostravam a influência norte-americana: a estética caubói chegou com tudo.

Nesse meio tempo, a famigerada Geração Y vinha ao mundo. Numa época de abertura política, direitos democráticos sendo reestabelecidos no país pós-ditadura e a internet mais acessível, essa geração cresceu com mais conforto e facilidades que seus pais.

Depois do boom sertanejo, na década de 90 (que foi considerada perdida por alguns críticos brasileiros, pois foi quando o axé trouxe letras e danças apelativas, enquanto a música eletrônica passava pelo seu primeiro boom mundial, com ajuda do House Francês) o estilo desapareceu um pouco, até voltar com força total e totalmente repaginado como sertanejo universitário, nos anos 2000, quando João Bosco & Vinícios e Cesar Minotti e Fabiano aceleraram e fizeram arranjos mais pop. 

Veio o funkanejo, das parcerias com MCs, e a Geração Y, agora jovem, começa a mostrar a que veio ao mundo: se divertir, ser feliz e aproveitar a liberdade, prioritariamente. Levantada a bandeira hedonista, essa geração passou a produzir música para os seus contemporâneos e deixou de lado letras que falam de ”chifre”, choro e sofrimento, para cantar que “ser solteiro é bom” e “é só jogar a mão pra cima e deixar rolar energia positiva aqui nesse lugar, até o amanhecer”.

Como disse a bem sucedida cantora dessa nova leva, Maria Cecília, sobre as letras do “novo sertanejo”: “Antes eles sofriam por amor até não poder mais. Agora está assim: Acabou, terminou? Para de sofrer, a fila anda”.

 

E COMO FICA A MÚSICA ELETRÔNICA?

Pelo jeito, vai ter que engolir, afinal, ela se tornou pop. Enquanto o sertanejo se transformava em universitário, a eletrônica atravessava definitivamente a linha e se tornava vendável. Conhecemos bem essa história do crossover da indústria (liderado pelos Estados Unidos), que hoje está avaliada em U$ 4,5 bilhões. 

De repente ser DJ é cool, Ibiza é hype e milhares de pessoas de fora passam a injetar dinheiro e energia nesta cena. O hip hop, o pop, e agora o sertanejo utilizam os bpms para entrar na dança.  

A roupagem moderna e mais pop do sertanejo universitário, aliada à ascensão econômica no país nos últimos anos, também atraiu um novo tipo de público. Um público que gosta de baladas. 

Maria Cecília (da dupla com o Rodolfo), afirmou em uma entrevista para a rádio Tupi que “o povo não tem mais preconceito, qualquer um assume que escuta sertanejo mesmo e que é bom demais”. Bem… qualquer um também não, mas realmente é comum ver, hoje em dia, alguém espantado por você não gostar de sertanejo aqui no Brasil: “Como não?”.

E por que ficar só aqui no Brasil se existe um mundo tão grande para conquistar? Internacionalizar um produto cultural brasileiro é um desafio para qualquer um e nem todo mundo tem a “sorte” de Michél Teló. Então a maneira mais fácil de se projetar internacionalmente é utilizar elementos do pop. “Eu tinha que fazer algo diferente para ser reconhecido e pensava que o Sertanejo Universitário precisava ser renovado. O que viria depois? Aí juntei o sertanejo, que eu já fazia, com o pop e o eletrônico, que eu curto também e faz minha música ultrapassar fronteiras. Sinto que o público aprovou essa mudança e assim foi aceito internacionalmente”, confessou exclusivamente para a House Mag, Gabriel Vallim, que teve mais de 2 milhões de visualizações no seu clipe de sertanejo-eletrônico.

 

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Gabriel Valim em cena do clip de “Piradinha”

Para Guilherme Ricardo Moro, diretor de marketing da Shed, de Balneário Camboriú, utilizar música eletrônica é natural: “Uma forma de agradar seu público. Fazem isso (samplear) com todos os estilos: axé, samba e pagode. Alguns clubes sertanejos tem DJs no intervalo com eletrônico, de deep ao funk ostentação, que é a nova moda”.

Resultado disso tudo: Caras como o Mr. Jam (produtor brasileiro comparado ao David Guetta por remixar artistas pop) ganham mais do que nunca – seja em fama ou cifras; A Som Livre compila remixes do novo sertanejo todos os anos; A rádio Tupi, de São Paulo, atinge primeiro lugar triplicando a audiência; Lojas especializadas de roupas country nunca venderam tanto; Artistas mais tradicionais criticam a nova geração, acusando de perda de qualidade e identidade musical. Conhece essa história?

Se há pouco tempo era inimaginável pensar na congruência entre eletrônica e sertanejo, agora o Brasil inventou um novo gênero exportável. O Chuckie tentou tocar Michel Teló no Green Valley, mas é improvável vermos algo parecido na cena Techno, por exemplo. Até porque, dificilmente iremos ver gatinhos e gatinhas jogando chavecos furados e dançando agarradinho, de chapéu ou piriguete, em um clube underground, onde as relações interpessoais e o contato físico normalmente são mais custosos e complexos. Tudo indica que o povo quer mesmo é se divertir.

Será que essa mistura de sertanejo-eletrônico vai ser a contribuição brasileira massiva mais original para o mundo da eletrônica-pop? A indústria cultural como um todo está levando isso a $ério. E você, já pensou em como pode contribuir de forma qualitativa e autêntica para a cena eletrônica universal? É preciso se organizar, pensar, produzir, inovar, e se unir. Qual será o próximo ciclo?  

 

 

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Gabriela Schmidt é um bom exemplo dessa nova geração. Em 2003 frequentava festinhas de Psy e Electro, até que o namorado da época a levou aos rodeios. “Mas não gostava de sertanejo, só de Cesar Menotti e Fabiano, que era diferente. Fui curtir quando veio o sertanejo universitário”, conta a campineira, que hoje em dia frequenta mais lugares de rock, clubes underground ou sertanejo uma vez ou outra: “Sou contra qualquer pré-conceito, mas sinto que a galera do sertanejo vai mais pela bagunça, mulherada, pegação, vai aonde estiver a festa. Já o povo da eletrônica é mais fiel, vai pela música, pelos artistas que quer ver. Acho que todos estão se misturando. Já vi muita gente do rock em sertanejo”, conclui.

 

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