Consumo de MDMA no Brasil já supera a média mundial. Entenda.


Por: Lucas Arnaud

O interessantíssimo estudo denominado “Global Drug Survey” teve sua edição 2017 liberada ao público, sendo baseado em trabalhos estatísticos em cima de dados de até 115,523 pessoas entrevistadas de cerca de 50 países diferentes.

As perguntas envolvem a percepção e a vivência relacionada a diversas drogas, como álcool, tabaco, cafeína, cannabis, mdma, entre muitas outras. A metodologia foi devidamente aprovada por comitê de ética de ensino superior, garantindo o anonimato aos participantes e envolvendo experts nas áreas da medicina, toxicologia, saúde pública, química, políticas públicas, criminologia, sociologia, redução de danos e vicio.

Uma leitura mais atenta às áreas desses profissionais nos revela o quão complexo e abrangente é a questão do uso de drogas (em geral), não só em nossa sociedade contemporânea, mas em toda a trajetória do ser humano em constante relação com sua cultura e com a natureza. O “Global Drug Survey” deu origem a 25 artigos internacionais em revistas de referência nas áreas supracitadas.

O MDMA já figura entre a sexta droga mais usada entre todos os entrevistados (33,5% deles já o utilizaram), ficando atraz apenas de álcool, cannabis, cafeína e tabaco (que o estudo divide em dois tipos diferentes).

A média global de número de dias de uso da droga no último ano (nos útimos 12 meses) é de 9. Ou seja, considerando todos os entrevistados, eles utilizaram, em média, MDMA em 9 dias dos últimos 12 meses. O país com maior média seria a Irlanda, com valor de 14.8 – seguida por Escôcia, Reino Unido, Colombia e Bélgica.

O Brasil figura na lista com uma média de 10 dias de uso nos últimos 12 meses. É isso mesmo: nosso país agora pertence à categoria dos paises cuja média de consumo de MDMA é ACIMA da média global. É preciso ressaltar aqui, portanto, que o título desse artigo que escrevo não contém nenhuma “maquiagem” ou sensacionalismo, consistindo no enunciado de um dado real e objetivo trazido pelo estudo. Mediante esses dados, é importante notar que apenas 1 em 10 usuários de MDMA procuraram direta ou indiretamente checar sobre a pureza da substância que estavam consumindo.

 

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O estudo nos traz dois interessantes axiomas especificamente envolvendo o MDMA:

“Na maioria das vezes, danos relacionados com drogas são devido mais ao comportamento individual, do que ao efeito da droga em si”.

“Drogas de melhor qualidade (mais puras) só são mais seguras se usadas com responsabilidade”.

Dessa forma, fica claro o tom da publicação: o foco é em redução de danos no uso consciente e responsável de substâncias, e não uma abordagem focada na criminalização e manutenção do taboo que impede uma discussão aberta sobre esse tópico que é real e cada vez mais prevalente. O estudo atribui a queda no uso de MDMA no Reino Unido (de 1,2% para 0,8%) a políticas de conscientização sobre o uso dessa substância, o que envolve a checagem de pureza, o conhecimento sobre dosagens e sobre super-dosagens.

Com essa discussão, também foram propostos sinais de alerta que estimulem a procura precoce por ajuda médica, se necessário. O estudo cita o trabalho de revistas inglesas sobre música eletrônica como a Mixmag, The Loop e GDS, que há 2 anos tem trazido publicações envolvendo redução de danos.

Mas será que a temática “drogas” paira apenas sobre a cena da música eletrônica?

Longe disso, e é aí que devemos deixar para trás preconceitos e refletir de maneira crítica sobre a temática. O uso de drogas está presente em diversos setores sociais e com diversas finalidades. O estudo aborda tanto o MDMA, já supracitado, como também o álcool e a cocaína (que tem prevalência importante em shows de Sertanejo, Forró, Rock, dentre outros) – além da própria cafeína, que é tida por muitos como uma das drogas mais bem aceitas socialmente, mas que também pode acarretar problemas como vício, tolerância e overdose. O estudo não faz confusão entre essas drogas – pelo contrário, estabelece paralelos e comparações estatísticas entre drogas legais e ilegais.

Uma leitura atenta pelo estudo nos leva a concluir: falar sobre “drogas” é complexo e envolve opiniões e ações multifacetadas.

Também podemos ver como elas (lícitas ou ilícitas) estão presentes nas diversas áreas da vida humana, com as mais diversas finalidades (e aquele cara que cheira cocaína para investir na bolsa, vide o filme “O Lobo de Wallstreet”? E aquele caminhoneiro que utiliza anfetaminas para passar mais tempo acordado na estrada? E aquele concurseiro que sente dor de cabeça se parar de tomar diariamente café?).

A verdade é que a presença das drogas vai MUITO além do mero uso em festas, o que torna urgente que esse tema seja cada vez mais debatido abertamente, no sentido de gerar conscientização e responsabilidade no uso ou na rejeição às diversas substâncias em questão, mentalidade que ainda é embrionária no nosso país, vide a falta de políticas públicas que abordem o problema com tal estratégia. Ao que parece, nossas autoridades (quando não estão, elas próprias, envolvidas no tráfico de drogas) preferem “varrer a sujeira para debaixo do tapete”, por meio de uma onerosa guerra às drogas, que além de gastar tufos e tufos do NOSSO dinheiro público, criminaliza cegamente o usuário e desencoraja o debate sadio sobre o tema e até mesmo a procura por ajuda (por parte dos adictos), devido ao estigma fomentado sobre estes.

Portanto, “Stay safe, Rave safe, Kids”.

Fonte: Global Drugs Survey

Leitura complementar (que reflete a opinião do autor de cada artigo em questão, e não a do veículo HOUSE MAG):

“A Coca-Cola, os privilégios governamentais e a guerra às drogas – uma relação que poucos conhecem”

“A moralidade da descriminalização das drogas”

 

 

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