Por: Gabriela Loschi
Fotos: UM2 Estúdios
Diego Garcia é nascido em Guarulhos, São Paulo, mas mora e movimenta a cena de Berlim há quatro anos. O DJ e produtor rapidamente se tornou figura célebre de clubes como Berghain, e coletivos como o Pornceptual. Apesar de ser facilmente reconhecido por looks e maquiagens irreverentes, sua marca registrada é mesmo um inseparável leque chinês, que adorna pra dar um VRAA bem dado no rolê.
Autor dos projetos Princess of Death e Gestalten — que, como ele mesmo diz, representam respectivamente uma identidade feminina (mais pesada e industrial) e uma masculina (mais melódica e suave), para “questionar valores de identidade de gênero” —, Diego se propõe a desafiar o status quo do DJ de techno mais masculinizado, sério, de roupa preta. Para tanto, além da montação extravagante, ele fundou o selo VRAA Records (sendo “VRAA” a onomatopeia utilizada para o som do leque se abrindo), voltado para “artistas queer, femininas e simpatizantes”. Para não deixar a irreverência cair, ele criou também o VRAA DJ Diva Ranking, pra definir “quem são as maiores divas da cena techno”, feito de maneira bem humorada como resposta a rankings como o Top 100 da DJ Mag ou do Resident Advisor.

O DJ está de volta ao Brasil há alguns meses, onde pretende ficar até julho, e se surpreendeu com a guinada para o techno da cena nacional. Abaixo, você pode ler uma entrevista em que o artista aborda estes e outros assuntos, em meio a um ensaio fotográfico novinho em folha, tudo acompanhado de um Podcast inédito para o House Mag Series – Podcast este que já abre com uma belíssima releitura feita exclusivamente para nós, de “Deus Lhe Pague” – e ficou maravilhosa! Confira:
HOUSE MAG: Oi Diego! Um prazer ter você estampando nosso Podcast da semana e dividindo com a gente tanta coisa boa… Pra começar, gostaria que você falasse sobre a track que abre o mix, Projekt Gestalten feat. Maxmiliano Moraes – Deus Lhe Pague 2017 (Chico Buarque Cover). Como foi o processo criativo e as dificuldades de juntar um clássico da MPB com um techno de subsolo
DIEGO GARCIA: Esse projeto foi o meu trabalho de conclusão de curso em Artes Visuais, em 2007. Fiz um videoclipe sobre a alienação da sociedade e usei duas faixas do Chico Buarque como tema (Roda-Viva e Deus Lhe Pague). Porém, o remix é mais trip-hop/downtempo, com vocal de outra cantora gospel que não aparece na nova versão; eu ainda estava me encontrando artisticamente. Eu queria que essa versão repaginada fosse mais crua e intense, então regravei com outros cantores, para assegurar o tom das notas e tudo mais. Através da minha mãe, consegui um cantor gospel que foi super aberto a cantar uma música secular, e regravamos o vocal no estúdio de som da universidade.
Essa versão específica que está no mix eu fiz especialmente para o Podcast da House Mag e também toquei na Sangra Muta, mês passado. Foi um bapho a reação da pista!
Alienus (Roda-Viva and Deus Lhe Pague Remix) from Projekt Gestalten on Vimeo.
HM – Conta pra gente um pouco sobre sua história em Berlim e os projetos que toca na cidade atualmente.
DG: Eu me mudei pra Berlim há quatro anos, juntei dinheiro e fui na cara de pau, sem conhecer ninguém. Vim para aprender alemão e fazer um mestrado em artes visuais. Sempre tive o objetivo de viver de música também, mas sabia que as chances eram mínimas devido à grande quantidade de artistas e DJs que se mudam pra lá em busca disso.
O que aconteceu é que eu mergulhei na noite de Berlim em um nível tão intenso que foi bem simples fazer a transição da pista para a cabine. Conheci vários coletivos, promoters e outros DJs que me ajudaram bastante. Depois veio o convite para ser o residente da festa Pornceptual. Quando eu comecei, era bem pequena. Foi crescendo e já estamos indo para o quarto ano. É uma festa queer com uma proposta bem inteligente; também me agrada o fato de que vai um público bem diversificado, de diversas orientações sexuais.
Então a música acabou virando a minha primeira ocupação e eu desisti de fazer o mestrado porque achei muito mais teórico do que prático, não gostei tanto — e o principal motivo do meu interesse nisso era ter um diploma universitário alemão para facilitar um pedido de visto de trabalho no futuro, e não porque eu realmente queria aquilo. Alguns anos mais tarde, com a ajuda dos meus contatos com clubs e promoters, eu consegui um visto de artista freelance para trabalhar como DJ, então tudo deu certo.

HM: Muita gente sonha morar em Berlim, mas não se da conta de que existem muitas barreiras, não é uma cidade fácil de se “assentar”. Quais foram os principais desafios que você encontrou por lá
DG: Musicalmente falando, o meu maior desafio quando cheguei em Berlim foi definir o som que eu faço e toco. No começo, eu tocava um pouco de tudo e não tinha uma identidade sonora bem definida. Resolvi focar no techno, mas toco house em ocasiões muito especiais. Porém, mesmo me dedicando ao techno, eu tinha um problema com promoters e festas, porque eles escutavam meus sets anteriores e achavam muito leve ou muito pesado, dependendo da festa.
Então houve a necessidade de eu criar duas identidades diferentes: uma identidade masculina (Projekt Gestalten) e uma identidade feminina (The Princess of Death). Com a primeira, eu toco um techno mais melódico e suave, e com a segunda um techno mais pesado e industrial. Também uso esse recurso para questionar valores de identidade de gênero, pois, tradicionalmente, espera-se que a identidade masculina seja mais pesada e a feminina mais suave, mas eu inverto esses valores.

Já no ponto de vista social, na Alemanha (e na maior parte do mundo ocidental também) está tendo uma onda grande de grupos de extrema direita surgindo e isso me entristece muito. Em países do leste europeu, já tive o desgosto de interagir com nazistas e outras pessoas do tipo, dentro de clubs de techno onde toquei. Esses clubs, supostamente, deveriam ter gente com uma mentalidade mais aberta, levando em conta que a cena eletrônica underground foi construída por negros, gays e latinos nas décadas de 70 e 80.
Então eu passei a ter mais cuidado para onde viajo, porque, assim como na minha música, o meu estilo visual também mescla o feminino com o masculino, e isso pode ser perigoso quando vou pra países de mentalidade mais conservadora. Mas isso depende muito das pessoas que te cercam. Já toquei múltiplas vezes em Moscou, por exemplo, sempre cercado de amigos russos que nunca me colocariam em uma situação de perigo. E um dos meus objetivos como artista é justamente me infiltrar em ambientes heteronormativos e quebrar o status quo, seja pela minha música ou pela minha própria presença física.

HM: Nessa sua vinda ao Brasil, depois de certo tempo, o que você encontrou de diferente da cena por aqui, e como isso está acrescentando na sua carreira pra quando você voltar a Berlim?
DG: A última vez em que eu estive no Brasil foi há três anos. Quando alguém me perguntava como era a cena de techno brasileira, eu já respondia seco: “não tem mais techno no Brasil”. Eu cheguei aqui no finalzinho do ano passado e quebrei a cara no chão! A cena está muito diferente do que era antes. Três anos atrás, o Brasil ainda não havia superado muito a onda do minimal techno, que dominou o mundo do meio pro fim da última década. Não que não tenham coisas legais dessa vertente, mas praticamente todas as festas de música eletrônica só tocavam isso ou um deep house bem lento. Agora o techno voltou com força total. Muitas festas tocando acid, techno e dub-techno. Eu estou amando! Já era tempo!
Tudo isso que está acontecendo em São Paulo está acrescentado bastante na minha carreira, com certeza. Eu precisava dar um tempo de Berlim e não poderia ter vindo pra cá em uma hora melhor. Estou conhecendo muitas pessoas, festas e projetos maravilhosos. Também fico muito feliz dos meus sets estarem sendo bem recebidos pelo público brasileiro em todas as festas que toquei até o momento.


HM: Você acha que hoje em dia a cena brasileira, mais madura, está mais preparada para o techno mais pesado, “sujo”?
DG: Com certeza. Esse techno mais pesado ainda não é uma coisa tão normal aqui na cena brasileira, mas eu acho que há um público sim. Aqui em São Paulo acontece a festa Vampire Haus, por exemplo, que atrai um pessoal mais a fim de um techno sujo e pesado. Foi o máximo tocar nessa festa também, e me agrada muito a ideia da intervenção social. Levar o techno para um público e para lugares onde ele não é tocado normalmente e introduzir essa cena na cidade.

HM: Quais são seus planos e projetos futuros?
Eu fico no Brasil até o final de julho. Depois volto para Berlim, onde pretendo continuar as atividades da VRAAA Records, que é meu selo de techno, voltado para artistas queer, femininas e simpatizantes com a missão de dar uma “gayzificada” no techno — porque eu estava ficando com preguiça desses DJs héteros hipermasculinizados tocando techno de cara fechada, com um boné virado pra trás e vestidos todo de preto. Já estou com o primeiro EP pronto e pretendo lançá-lo em vinil no próximo semestre (provavelmente, despachado pelo correio dentro de um envelope rosa-choque com glitter).
E também estou muito contente com o meu primeiro lançamento em vinil por outro selo, o Ritual Records em Berlim, em que eu contribuí com uma faixa. A coletânea foi lançada mês passado e eu ainda nem tenho uma cópia. O selo reservou algumas e estou muito ansioso para tê-las em mãos quando voltar. O EP também já está começando a ter um destaque na imprensa alemã e espero me solidificar ainda mais como produtor.

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