Por: Georgia Kirilov
Fotos Red Bull Content Pool/Divulgação
Faz uma semana que o Red Bull Music Academy Festival terminou e ainda estamos nos recuperando dessa força da natureza que passou por São Paulo. É realmente impressionante observar o que acontece quando um evento é feito para explorar todos os territórios distantes – mas intrinsicamente conectados – do mundo da música ao invés de fazer uso da música somente para lucrar. O festival durou 10 dias (do dia 2 ao dia 11 de Junho) e além de dar a oportunidade para o público se encontrar com gêneros musicais que normalmente não se comunicam nem na mesma rádio, quem dirá no mesmo festival, a Red Bull também levou a galera para lugares como a Casa das Caldeiras, o Cine Paissandu e o Teatro Oficina, que representam a multiplicidade e singularidade de SP perfeitamente.

Na sexta, dia 2, o festival começou com o Baile, festa que passou pelas origens do funk no Brasil e trouxe o DJ Ferrujo, Grandmaster Raphael, Egyptian Lover e Carlos do Complexo. Uma das características mais interessantes do festival é a curadoria que traz talentos nacionais combinados com nomes internacionais, como Egyptian Lover, que beberam de fontes parecidas, ao mesmo tempo enaltecendo o local e mostrando o impacto global do que é feito no Brasil. O evento rolou no tradicional Audio Club e deu início aos próximos 10 dias de festa e sonoridade.
No dia seguinte (3 de junho) rolou a melhor festa de todas no melhor espaço, em minha opinião: Zonas Limiares, na Casa das Caldeiras. Como o nome já indicava, a festa permeava o limiar de vertentes e nuances do eletrônico que juntos criaram um perfeito caleidoscópio de tudo que existe de mais incrível sobre corpos unidos dançando a um mesmo som. Do experimental de Valesuchi até o industrial de Pan Daijing, das alegrias distintas do Chicago house de Honey Dijon até o afro-house de Nidia Minaj, e da singularidade de Érica Alves até a lenda de Theo Parrish (que finalmente se apresentou no Brail): as três pistas exploraram com maestria o verdadeiro prazer que é navegar pela noite.

Érica Alves
Domingo (dia 4) foi mais tranquilo, com show do maestro Arthur Verocai e seu time de instrumentistas, cantores e até o rapper Mano Brown – que subiu ao palco para cantar a faixa Cigana – na Praça da Sé.
A semana começou com um evento único, oportunidade raríssima na vida de todos os brasileiros, quem dirá os gringos que marcaram presença no belíssimo Teatro Oficina naquela segunda feira (5). Outro Tempo: Brasil Eletrônico Experimental reuniu uma vertente da sonoridade brasileira dos anos 1978-1992 que fugiu dos padrões criados durante a ditadura e decidiu explorar jazz-fusion, ritmos indígenas e uma pegada quase que ritualística. Por lá se apresentaram nomes como Maria Rita Stumpf, Os Mulheres Negras, John Gómez e Alexandre Kassin.

John Gómez
Na terça feira (6) rolou show dos Racionais no Audio Club e na quarta (7) foi quando a Red Bull decidiu de fato convidar o público para uma experiência única no mundo inteiro: uma apresentação audiovisual do Oneohtrix Point Never e de Nate Boyce no Cinema Marabá. Na medida em que o povo ia chegando – e pegando seus drinks no open bar – a ansiedade era palpável na sala: o que estávamos prestes a ver? O resultado foi não só a criação de um mundo paralelo em 3D, mas também uma maneira de ver, tocar e interagir com imagens e sons totalmente singulares e cativantes. A surpresa estampada na cara do público ao sair da sala era perceptível de longe.

O Centro Cultural de São Paulo foi o local escolhido para a festa do dia 8, a Ruído em Progresso. Dividida em dois ambientes, a festa convidava dois públicos singulares, do metal e pós-punk e o da música eletrônica experimental, para conversarem e trocarem informações. Musicalmente falando foi sem dúvidas o momento mais ousado e de choque nos 10 dias de festivais.
Sexta feira (9) Mykki Blanco, rapper norte-americano, finalmente chegou à São Paulo – após dois shows cancelados, o line up parecia quase um sonho. Para acompanhar a realização desse momento tão esperado pela comunidade queer de São Paulo o local escolhido foi o Cine Paissandu, um cinema desativado que inaugurou em 1957. Além do rapper, o duo Tormenta DJ’s, a paulista Linn da Quebrada e o produtor americano Total Freedom fizeram parte da curtição que foi até as 6h da manhã com direito a completa e total destruição na pista. Os dez dias fecharam com a festa A Céu Aberto Sob o Sol no dia 11, na Red Bull Station mesmo, em uma comemoração elegante repleta de sonoridades do house e da música brasileira guiada por Tata Ogan, John Gómez e Selvagem.

São poucas as organizações que tem o poder – tanto financeiro quanto de influência e network – para criar um line up tão impactante quanto a Red Bull consegue, mas é, honestamente, nos pequenos detalhes que esse festival vai ficar para a história dos festivais em solo brasileiro – e no mundo inteiro. Seja na água de graça, na importância dada a curadoria visual (dos locais e da cenografia) tanto quanto para a musical, ou na venda de ingressos a preço justo e sem superlotação de lugares para lucrar: são nesses aspectos que a Red Bull verdadeiramente lacrou. Na semana de orgulho LGBTQ e no meio de tantas confusões políticas no âmbito nacional, a marca conseguiu celebrar a diversidade e a individualidade no mundo da música e em São Paulo, cidade única que serve como ponto de encontro para o brasileiro, e ser brasileiro: que dádiva.
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