Marcas e festivais comemoram duas décadas em 2017: a música eletrônica chegou na maturidade?

 

Por: Lucas Portilho de Faria Cunha

O que é necessário para que um selo, um festival, ou uma iniciativa relacionada à música eletrônica “sobreviva” por duas décadas? Awakenings, Melt! Festival, Fusion Festival e Creamfields são exemplos de festivais que, com o passar dos anos, amadureceram, inovaram e se transformaram. Oferecer uma experiência memorável para o público pode ser um dos pontos a serem citados, mas não é o único. A maturidade da música eletrônica como cultura deve ser considerada neste estudo: da música eletroacústica à EDM (Electronic Dance Music) existe uma verdadeira galáxia de acontecimentos, revoluções e aperfeiçoamentos acumulados e promovidos através do esforço de profissionais, curiosos e entusiastas imersos nesta cultura.

É importante refletirmos sobre o conceito de cultura para que possamos vislumbrar os motivos pelos quais a música eletrônica ainda é tão presente na humanidade. Cultura (colere, cultivar ou instruir, cultus, cultivo, instrução) é, para os antropólogos, os “modos comuns”, vividos e transmitidos para determinados indivíduos ou grupos inseridos em uma sociedade. Se aplicarmos este conceito à “cultura da música eletrônica”, podemos imaginar que neste “sistema” a palavra de ordem é a “experiência” vivida e a “transmissão” de conhecimentos ligados a área. A forma com que vestimos, a maneira como agimos e os artefatos que produzimos moldam a maneira como vivemos, pensamos e consumimos música eletrônica. E as marcas também criam culturas. A forma como elas transmitem (de dentro pra fora) e cultivam essa cultira, também determina sua prmanência no mercado.

Tendo em vista que somos seres associativos, pode-se dizer que é quase impossível “darmos passos” evolutivos sem “olharmos para trás”. Por que hoje tal evento ou label é um sucesso? E por que tantos outros não deram certo? Se mentalizarmos a “timeline” da cultura da música eletrônica, transparece-se que determinados grupos foram formados afim de dar “a sua cara” ou, a sua interpretação, para o que é a música eletrônica. O house, o techno, o dubstep, o jungle, o trance e outros gêneros foram desenvolvidos com base em experiências vividas por determinados grupos sociais inseridos em um contexto histórico. E assim acontece com cada marca que dura no tempo.

 

O Sónar é um bom exemplo de iniciativa desenvolvida afim de promover a cultura da música eletrônica. Tanto que ele já passou os 20 anos… Desde a sua fundação, em 1994, a intenção dos organizadores/fundadores (que eram aficionados pelo gênero musical) foi de promover o conhecimento, a discussão e a audição da música sintética. Em uma entrevista para a Resident Advisor, Georgia Taglietti (Head of Communications do Sónar) explica que a composição da programação do Sónar é baseada em uma grande rede de contatos que foi construída ao longo dos anos. Este network não era composto apenas por artistas, mas amigos, donos de selos e jornalistas que juntos promoviam a cultura da música eletrônica – e a cultura desenvolvida pelo próprio evento.

Outro exemplo de movimento em prol da cultura da música (não necessariamente eletrônica) é a Red Bull Music Academy: um projeto promovido pela marca de bebidas energéticas que tem como objetivo conectar e “ativar” artistas do mundo inteiro. “Ativar” no sentido de aproveitar as melhores habilidades e capacidades de cada profissional para que estas ou estes possam desenvolver trabalhos em conjunto e trocar experiências. Transparecendo, assim, um dos pontos chave na formação de uma cultura: a transmissão de conhecimento. Neste ano, 2017, a RBMA será promovida em Berlim e irá comemorar duas décadas de atividade. Vale lembrar que o foco central do projeto não é somente nos artistas que se dedicam à eletrônica, mas profissionais que trabalham com o desenvolvimento de músicas em geral.
 

Para além das atividades culturais, a indústria e o comércio fonográfico se apropriou da música eletrônica afim de atingir novos consumidores que variam entre: DJs, produtores musicais, fãs de determinados artistas, gravadoras e até marcas. Surgem, portanto, selos especializados em produção, divulgação e comercialização de músicas e artigos relacionados ao gênero musical. Dentre os selos, podemos citar o trabalho realizado pela icônica Perlon, um dos principais e mais influentes labels do mundo, que ajudou a moldar o som minimalista da forma que o conhecemos hoje. Esse ano, a Perlon comemora os seus vinte anos de atividade através de uma festa com duração de 46h no Funkhaus Berlim.

Se por um lado labels como a Perlon – e representantes máximos de diversos gêneros como Kraftwerk, Richie Hawtin, Derrick May, Aphex Twin, Jeff Mills – se dedicam em produzir estéticas, formatos e sonoridades que conquistaram e conquistam uma legião de fãs pelo mundo, transpondo sua cultura interna a uma cultura maior (e por isso chegam aos 20 anos de idade…), por outro, ao longo do progresso da popularização da música eletrônica em nível global – que se deu por inúmeros fatores -, marcas de bebidas, roupas e outros setores comerciais começaram a se movimentar na intenção de “surfar na onda da eletrônica”. 

A Skol, por exemplo, criou o seu próprio festival e gravadora, o Skol Beats e Skol Records (respectivamente). A Adidas, investe regularmente em artistas da música eletrônica (conhece Alison Wonderland). A Miller possui um concurso para descobrir novos talentos da música eletrônica. Consequentemente, ao mesmo tempo que essas marcas “abraçaram” a música eletrônica, diretamente ou indiretamente, os consumidores destas organizações começaram a “estreitar relações” com o gênero musical. Lembrem-se, somos seres associativos! Tudo isso favorece, de certa forma, para que a cultura de música eletrônica englobe mais pessoas – e que outras marcas sejam descobertas. Mas é importante pontuar que todas estas marcas já possuíam sua própria cultura em torno da empresa, já possuiam presença o suficiente para fortalecer ainda mais a fusão da cultura eletrônica com suas culturas internas.

Não é fácil nem simpels construir uma marca sólida e duradoura. Vamos analisar alguns festivais que em 2017 também comemoram 20 anos (apenas lembrando que festivais e festas especializadas em música eletrônica surgiram para atender uma demanda por novidade e concentração de atividades diversas em torno desta cultura. Alguns destes festivais, inclusive, fazem parte do calendário cultural de alguns países).

 

AWAKENINGS

Um dos maiores festivais europeus e referência quando o assunto é techno, o Awakenings coseguiu criar uma cultura tão forte que passou a ser obrigatório para os amantes do estilo. Já apresentou inúmeros artistas internacionais através dos seus stages faraônicos. Com origem na Holanda, o festival teve a sua estréia em 1997 no clube Gashouder: um complexo industrial localizado no noroeste de Amsterdã que possui, como característica principal, um pilar metálico que sustenta a estrutura capaz de receber mais de 3500 pessoas.

O festival comemora os seus 20 anos de atividade com um dos line ups mais imponentes do techno. Sua importância extrapola a diversão dos fãs: DJs também quererm se apresentar nele, pois se tornou sinônimo de prestígio. Esse ano, a edição principal traz mais de 100 artistas em dois dias de festival com oito arenas e diversas atividades recreativas. Dentre os nomes confirmados, pode-se destacar: ANNA, Adam Beyer, Monika Kruse, Ben Klock, B.Traits, DJ Rush, Maceo Plex, Nastia, Nina Kraviz, Ricardo Villalobos, Seven Väth, Black Coffee, Dr. Rubinstein, Dense & Pika, Format B, KInK, Kölsch, Loco Dice, Matador, Black Madonna, Tale of Us e muitos outros.

Além das atrações musicais, a organização do Awakenings lançou um livro comemorativo com mais de 500 páginas recheadas de memórias, fotografias, entrevistas com artistas e detalhes do sucesso que é o festival holandês – recomendamos para entender melhor a ocnstrução e a evolução da marca.

 

 

MELT! FESTIVAL

De origem germânica, o Melt! Festival é considerado um dos maiores eventos a céu aberto da Alemanha. Reconhecido como um dos melhores festivais pela Resident Advisor por 3 anos consecutivos (2013, 2014 e 2015), o evento teve a sua data de estréia em 1997. Apesar de não ser dedicado única e exclusivamente à música eletrônica, a “queda” pela música sintética é nítida: o Melt! já recebeu artistas como: Pet Shop Boys, Justice, Disclosure, Flume, Boys Noize, Sven Väth e Richie Hawtin, e este ano receberá nomes como Bonobo (live), M.I.A, Fatboy Slim, Richie Hawtin, Modeselektor (DJ set), Dixon, Tale of Us, Soulwax, Adam Beyer, Bicep (live), Ellen Allien, Red Axes dentre outros.

Com quatro dias de duração, o aniversário de 20 anos do festival será celebrado em Ferropolis: conhecido como a “cidade do aço”, o museu open air tem capacidade para 25 mil pessoas e recebe, todo ano, diversos eventos relacionados à música. A possibilidade de dividir o espaço com máquinas gigantes de escavação, trens e outros equipamentos de exploração de minério, faz do Melt! Festival uma experiência única. Gravem bem este termo para entender melhor a construção de uma marca: experiiencia única, inédita. Algo realmente criado de forma peculiar – e isso é para poucos. Hoje em dia muitas marcas preferem fazer o copy and paste de fórmulas já criadas – e nesse caso a chance de terem prazo de validade é quase certa.

 

 

FUSION 

Fugindo da estética e do conceito uniforme dos festivais de música eletrônica comerciais, o Fusion Festival é um evento que prioriza características da contracultura. Organizado em um antigo aeroporto militar chamado Müritz Airpark, na cidade de Lärz (noroeste da Alemanha), o festival atrai, anualmente, mais de 70 000 entusiastas da música eletrônica underground.

Promovido ininterruptamente desde 1997, o Fusion Festival faz o seu primeiro break agora, em 2017, bem no ano em que ele comemoraria 20 anos! Os organizadores decidiram não realizar o evento, alegando a necessidade de “colocar a casa em ordem”. O intervalo serve para repensarem suas estratérgias, já que o festival, que nasceu com uma cultura forte e (de novo) única, cresceu e extrapolou suas próprias barreiras – e tudo isso sem divulgação. O Fusion não permite a entrada de jornalistas pois não querem que escrevam e falem sobre o festival. E eles realmete não precisam, porque mesmo sem isso o evento não para de crescer. São sete dias de atrações que variam entre: música, teatro, performance, cinema e instalações artísticas. Os membros que compõem a organização do evento, deixam claro que no ano que vem, 2018, o “foguete Fusion” voltará a ser “lançado” novamente.

Em 2016 DJs como: Benga, Calibre, DJ Tennis, Dubfire, Loadstar,  Mat.Joe, Mdslktr, Sarah Farina, Solomun, Thomas Schumacher e Victor Ruiz se apresentaram para o público.

 

 

CREAMFIELDS

Um dos festivais mais populares do Reino Unido também está comemorando 20 anos de existência. Com um line up “massivo”, o festival ocorrerá entre os dias 24 e 27 de agosto. Above & Beyond, Andy C, Armin Van Buuren, The Black Madonna, Chase and Status (DJ set), deadmau5, DJ EZ, Fatboy Slim, Nastia, Sasha, Seth Troxler, Tiesto, Sub Focus e Steve Angello são alguns nomes confirmados para a edição deste ano.

Com a possibilidade de estadiar os quatro dias de evento no próprio espaço do festival, os organizadores investiram em diversidade de preços e tipos de acomodações para o camping. Variando de £137 (R$576,77)  à £1582 (R$6660,22), as opções vão de barracas simples, a verdadeiras casinhas luxuosas de madeira para casais. O interesse por este tipo de experiência foi tão grande, que, em pouco tempo, todas as opções de acomodações se esgotaram.

Como prova da popularidade do festival dentro e fora do Reino Unido, o Creamfields possui 9 prêmios como: “Melhor Festival de Grande Porte”, “Melhor Festival de Dance” e “Melhor Evento de Dance”, todos recebidos pela UK Festival Awards. Se não bastasse os prêmios, o festival, inclusive, já rodou o mundo: Brasil, Argentina, Paraguai, Chile, México, Portugal e Austrália são exemplos de países nos quais o evento já teve passagem.

 

Mas, afinal: “o que é necessário para que um selo, um festival, ou uma iniciativa relacionada à música eletrônica “sobrevia” por duas décadas?”. A resposta pode ser obtida se observarmos a força que as iniciativas, artistas, indústrias e organizações possuem no dia a dia dos membros, grupos e, porque não, das tribos de uma cultura cada vez mais madura que é a música eletrônica. Todas essas marcas têm algo em comum: criaram suas próprias culturas. Então, se um dia disseram que a eletrônica é a música do futuro, o que nos reserva para os próximos 20 anos? E mais: quem, hoje, está construindo selos, músicas, marcas que durarão mais duas décadas?

 

 

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