A validade global de um conhecimento local: entrevistamos o londrino East End Dubs

Por: Chico Cornejo

Londres, 2017. Mesmo tendo sua vida cultural afetada por diversos fenômenos sociopolíticos, a capital inglesa possui uma fauna noturna rica como poucas outras cidades do mundo. Berço de tantas subculturas, origem de tantos gêneros, nascedouro de tantas modas e sede de tantas estabelecimentos que mudaram nossa visão da música popular contemporânea, ela continua sendo o território fértil para mais vanguardas artísticas ainda do que as que fizeram a grandeza da cultura britânica que o solo rico em conservadorismo que reforçaram sua reputação como fortaleza dos costumes do país e hoje parecem vicejar.

É em meio a este ambiente prenhe de conflito e repleto de possibilidades que vemos um talento como o deste típico londrino vingar e se impor como uma promessa. Nesta entrevista East End Dubs fala um pouco sobre sua trajetória e revela alguns detalhes sobre o que o faz ser um artesão tão qualificado dos ritmos delicados que cria e como Londres o formou e continua a informar sua arte. Ele toca na Nova Era, nesta sexta-feira, dia 15 de setembro, ao lado de outros já bem conhecidos e reputados misturadores de grooves: Mihai Popoviciu e Cesare vs. Disorder, além dos residentes Sabino, Rafael Onid e InfiniTy. Mais informações sobre o evento aqui.



 

HOUSE MAG – Sabemos que Londres é sua base, mas onde, mais precisamente? Você cresceu no mesmo local em que vive e trabalha hoje em dia?

East End Dubs – Eu costumava viver na cidade, mas não mais. Atualmente vivo entre dois aeroportos que se localizam a vinte minutos de Londres, o que faz minha vida muito mais fácil durante os finais de semana. Às vezes tenho de pegar cinco ou seis vôos toda semana e chegar ao local de decolagem pode ser um desafio na metrópole. Também agora tenho uma casa maior e pude construir um estúdio novo em folha aqui. Cresci em Londres, mas é este lugar que chamo de lar atualmente.


HOUSE MAG – Como a cidade acabou por afetar seu som? Se considerarmos que os nomes de seus selos evocam localidades e pessoas específicas neles, fico imaginando se influenciam mais aspectos de sua sonoridade.

East End Dubs – Sempre tive Londres como referência e o som específico que criei se baseia na Região Leste. Esse lugar me inspirou tanto! Não me refiro apenas à cena musical. Tudo, desde as pessoas à atmosfera, passando por aqueles pequenos galpões abandonados…


HOUSE MAG – Ainda nos referindo a lugares e espaços: você mencionou em outra parte a importância que o fabric teve em sua formação musical e o quão profundamente o seu fechamento  não apenas interferiu em seus planos (havia um showcase agendado na casa), mas em suas perspectivas sobre o futuro da cidade propriamente dita, tendo em mente o destino comum enfrentado por tantas outras casas. Algo mudou após a reabertura? Você se sente mais esperançoso hoje em dia?

East End Dubs – Londres está passando por sérias transformações neste momento. Os frequentadores estão procurando evitar grandes casas e se dirigindo a locais inusitados para dançar. Fizemos uma festa durante o dia todo sob o viaduto de uma estrada semana passada e havia algo em torno de 800 pessoas em um momento ou outro do evento. Com as regras de admissão aos clubs se tornando vez mais rígidas e os preços mais altos a cada dia, as pessoas preferem procurar por alternativas. Algumas das marcas de festivais mais conhecidas realizando suas festas sob pontes ou em fazendas ao invés de sítios próximos à cidade… a cena parece estar retornando aos locais em que se originou. O que é empolgante e interessante para todo mundo que não vivenciou a cena de raves originária.

 

dub2_500


HOUSE MAG – Agora falemos de sus aventuras pelo mundo. Você consegue ou mesmo tenta manter um equilíbrio entre o estúdio e a estrada? Caso o faça, quais seus métodos ou rituais para não deixar pendência alguma em qualquer uma das frentes?

East End Dubs – Boa pergunta, já que isto é algo para o que venho procurando uma solução há algum tempo. Tive um verão bem atribulado, tocando em média três a quatro gigs semanais. Quando retorno, tento me recuperar e me preparar para o final de semana seguinte. Percebi que não fui tão produtivo quanto no ano passado e isto tem me incomodado, já que voltei cheio de ideias em minha cabeça… Eu levo um laptop comigo atualmente e tento colocar as ideias ali enquanto estou em trânsito. Isso ajuda quando tenho de retornar ao estúdio. Acho que é essa parte da jornada, mas não posso reclamar, já que sou um DJ antes de tudo.


HOUSE MAG – E quanto ao selo? Se notarmos o cuidado que parece ser devotado a como cada lançamento se vê e soa, assim como o catálogo com um todo, vemos que isso exige uma boa dose de dedicação de sua parte. Você está satisfeito com seu desenvolvimento até este ponto?

East End Dubs – Estou muito feliz com a direção que ambos os selos estão tomando. Realmente exige bastante tempo, mas é totalmente válido. Ademais, tenho um excelente time por trás de meus esforços que toma conta de toda a papelada que normalmente vem atrelada a isso tudo.


HOUSE MAG – Também como uma empresa que tem sido sua plataforma desde o começo e para um grupo de artistas tão novos quanto você nos últimos anos, é impressionante o quão sólido seu estabelecimento tem se mostrado. Em algum momento foi assustador ou você sempre manteve uma clara ideia do que desejava e se manteve leal a ela inequebrantavelmente?

East End Dubs – Acho que foi uma questão de experiência. Eu estou imerso na cena musical pelo decorrer dos últimos quinze anos e tive alguns outros pseudônimos e comandei alguns outros selos nesse ínterim até chegar no estágio em que me encontro. Assim que me vi pronto a criar os selos, sabia de cada passo que teria de tomar. Tudo já estava planejado há tempos. E sei bem onde estarei daqui a cinco anos!

 

dub4_500


HOUSE MAG – E as colaborações? Seu processo criativo é incompatível com esse tipo de dinâmica ou a falta de lançamentos com créditos compartilhados se deve a outros motivos, como agendas conflitantes, por exemplo?

East End Dubs – Não é uma questão de incompatibilidade. É mais a respeito de encontrar o tempo para trabalhar com os nomes que você gostaria de colaborar. Tanto eu quanto esses artistas não encontramos a janela para isso. Contudo, agora vou dar um tempo das turnês no ano que vem para passar mais tempo no estúdio e, com sorte, conseguirei me encontrar com todos.


HOUSE MAG – E quais suas expectativas para esta turnê? Com relação ao Brasil e seu conhecimento de nossas música e reputação festiva, o que você aguarda?

East End Dubs – Estou chegando com expectativas enormes!  Sempre ouvi apenas coisas boas sobre a cena brasileira e mal posso esperar para experimentá-la.

 

Fique por dentro