Nos últimos anos, viu-se uma (talvez inédita) explosão da popularidade da música eletrônica no Brasil. Grande parte desse cenário se formou após a explosão da EDM nos Estados Unidos, que passaram a investir mais fortemente na música eletrônica atraindo players de diferentes mercados para esta indústria bilionária e consequentemente toda uma nova geração afoita por grandes festivais, mas foi o crescimento do “low bpm” brasileiro, que engloba estilos musicais de andamento mais lento como o deep house, o tech house e o nu disco, o que fez com que a cena da dance music no país crescesse em basicamente todos os seus aspectos.
Gerando uma legião de novos fãs – muitos dos quais saíram do EDM para curtir agora uma onda mais groveada, melódica, housy, mas ainda explosiva – e, também, de novos DJs e produtores, o “low” se consolidou como um dos movimentos mais populares no Brasil, elevando a carreira de alguns DJs a níveis (talvez) inimagináveis no passado, considerando a realidade de nosso país.
Vintage Culture e Alok (este, mesmo que um pouquinho depois) foram os primeiros nomes a alcançar tal patamar. Vale notar que suas equipes (empresários, agências, etc) foram inteligentes em observar a (até então) recente aceitação do low bpm pelo mercado mainstream. A esses profissionais se deve muito do desenvolvimento do estilo no país, visto que investiram nisso desde o comecinho, em se falando do processo de sua popularização entre o público causal.
Então, não se pode negar: o brasileiro definitivamente pegou gosto pela música eletrônica. E uma situação que nos comprova isso, por exemplo, foi a presença (em peso!) de produções de low bpm pelos paredões de som nos carnavais de rua do país, misturando (quase que de modo caricato) as novas tendências da dance music brasileira com os diversos outros estilos tradicionais do amado feriadão tupiniquim.
Tudo isso ocorria a todo vapor, até que surgiram contratempos. E dá até pra ter uma ideia do que houve: com tantos produtores e DJs no mercado (os quais surgiam dia após dia), começou-se a lançar um volume cada vez maior de tracks, muitas destas de sonoridade parecida (ou até mesmo genérica!). Além disso, houve o fim do “efeito novidade” do low brasileiro. Onde quero chegar com esse papo? Explico: a real é que sonoridade em questão (o low BR) estava em risco de cair na mesmisse, o que gerou, em muitos fãs, o desejo por algo qu trouxesse uma aparência de novo – ou que fosse novo para essa nova geração.
Dessa forma, os artistas brasileiros do low bpm mainstream tiveram que se virar nos trinta. Uma tendência clara (adotada por vários dos maiores DJs na cena) foi o investimento em tracks com vocais mais característicos e uma pegada mais “pop”. Esses novos hits cediam maior importância à letra, à voz e à melodia, no intuito de gerar uma sonoridade leve e acessível ao público casual. Alok adentrou de vez no mundo da música pop com “Hear Me Now”, co-produzida com Bruno Martini e Zeeba, tendo seguido essa linha de estilo até então. O mesmo é visto na track “Wild Kidz”, do Vintage Culture. Esses produtores deixaram os drops explosivos um pouco de lado para ganhar mais espaço nas paradas de rádio. E foi o que, de fato, aconteceu.
Porém, o foco deste artigo é a outra estratégia (também efetiva) nessa busca por inovação (ou uma aparente inovação). É isso o que estão chamando de “Low bass”. E aí surge naturalmente a pergunta: “o que significa o termo low bass”? A verdade é que “low bass” foi um termo inventado e cunhado por alguns artistas para nomear essa tendência que cresce no país, que tem como track exemplo ou protótipo a “Kyle Watson ft. Pop Art – Don`t Talk”, lançada em fevereiro de 2016. Vale a pena escutar para acompanhar o raciocínio:
Ouvir a track do Kyle nos dá uma boa noção de como funciona a sonoridade apelidada de Low bass – que diga-se de passagem, não traz nada de novo em termos sonoros, apenas amplifica e coloca novas roupagens no que já vinha sendo feito por alguns artistas antes, até mais fora do Brasil do que aqui. Com um bass grave e arrastado, ele conta também com outros elementos característicos, como wobbles ou vocais mais graves. O Low bass não deixa de ser uma mistura de diversos estilos como g-house, garage-UK, house, dentre muitos outros. A própria “Don´t Talk”, por exemplo, está categorizada como future house no Beatport.
Porém, muito antes de sequer existir esse significado para a palavra “low bass”, muitos brasileiros já produziam nessa linha. Misturava-se muito com o tech house, e agora parece estar retornando após a saturação novamente do Brazilian Bass. E tem um em específico que influenciou, direta ou indiretamente, grande parte dos novos talentos que têm enveredado por esses caminhos. E é por isso que você não pode deixar de conhecê-lo. Marquem esse nome: RROTIK!
Natural de Belo Horizonte, Eduardo Nascimento teve um de seus primeiros contatos profissionais com a música eletrônica quando era do projeto DIRTYLOUD (que era uma dupla, à época). Em 2015, Eduardo partiu para uma carreira solo com o nome Rrotik, tendo o DIRTYLOUD (que continua firme e forte) se tornado um projeto solo. E que melhor modo de apresentar, senão com próprio som do cara? Sem mais delongas, dá uma ouvida:
Nesse remix, fica clara a pegada que (recentemente) convencionamos em chamar de Lowbass. Mais que isso: na produção, nos chama a atenção a quantidade de detalhes e o sounddesign de primeira. “O Du é um gênio criativo, a cabeça dele funciona de um jeito muito a frente da galera”, nos relata Leandro Souza, também conhecido como LOTHIEF, um dos principais novos talentos por trás desse “lowbass”. Apostando no estilo (e, também, com qualidade de produção diferenciada), Leandro foi um dos ganhadores de um recente remix contest organizado pelos Cat Dealers. E ele nos revela: “O Du (rrotik) fez esse som antes de todo mundo aqui sequer pensar em fazer algo diferente. Por enquanto, eu e o JORD estamos levantando a bandeira e assumindo esse som, mas espero que apareça mais gente, visto que o Brasil tem muitos produtores talentosos”.
E, para um som tão agradável, não faltam suportes. Estão entre os nomes dos que têm tocado as produções de rrotik por aí: Chris Lake, Marc Kinchen, Oliver Heldens, EDX, Justin Martin, Don Diablo, Tchami, AC Slater, David Guetta e Martin Garrix. Com esse reconhecimento, o artista já lançou pelos renomados selos Armada, Fool’s Gold, MTA, This Ain’t Bristol, Ultra/Sony e Ministry Of Sound.
Um support marcante, para mim, foi quando FTAMPA dropou (em pleno mainstage do Tomorrowland Bélgica 2016) o “rrotik remix” de “FTAMPA – Strike it Up”. Dá uma olhada nessa track, que inclusive foi lançada na Musical Freedom (label do Tiesto):
Voltando ao nosso tom de análise: por que então, o público casual brasileiro estaria começando a curtir um som que, originalmente, estaria voltado para um cenário não tão de massa? Dessa vez, deixo a fala com o próprio rrotik: “O `LowBass`, vindo como renovação da sonoridade “Low” nacional, é excelente e mostra maturidade da cena brasileira, pois é geralmente um som de pegada underground, meio “darkzão”, cavernāo” e bem complicado de produzir”.
Para o produtor, portanto, a cena mainstream brasileira tem adquirido (mesmo que lentamente) a maturidade para lidar com sonoridades menos casuais, processo que se viu também no plano do mainstream internacional (no qual sons mais intensos, como o trap e bass house, tem ganhado espaço). Dessa forma, vê-se que o ouvinte brasileiro não só se acostumou a ouvir música eletrônica em seu cotidiano, mas também tem (ainda que gradualmente) aberto a cabeça para novas sonoridades. E o lowbass é só uma dessas “vertentes”. Assim, o futuro da cena é um prato cheio para produtores criativos, ousados e inovativos. E o primeiro grande exemplo já está aqui, na sua frente: “com vocês”, RROTIK!
HOUSEMAG – Como você apresentaria o projeto “rrotik”?
RROTIK – Boa noite, meu nome é Eduardo e sou o produtor por trás do projeto rrotik!
HM – Qual foi o seu primeiro contato com a música?
RROTIK – Meu primeiro contato com a música, pelo que sei, é que desde neném meu pai colocava música clássica para eu dormir. Música é indispensável e sempre fez parte dos encontros de família, e meu pai tinha uma coleção imensa de CDs e vinis que eu passei a infância e adolescência inteiras revirando.
HM – E com a música eletrônica? Como você se interessou pela produção músical e pelo aspecto profissional do ramo?
RROTIK – Meu primeiro contato com a música eletrônica foi no boom da ítalo disco, euro e house que teve nas rádios brasileiras embalado pelas coletâneas da Fieldzz, Toco International, Paradoxx entre várias, tendo artistas como Haddaway, Corona, Double You, 2 Unlimited, Snap!, Black Box e vários outros. Nessa época eu tinha 7 anos. Contato com produção musical eu só fui ter lá pros 18, 19 anos, quando peguei o Fruity Loops 5 de um CD com vários plugins de produção musical de um amigo meu de escola. Mas até aí não tinha nada de profissional. Eu ouvia muito Paul Van Dyk já nessa época e Armin, depois que ouvi falar da célebre apresentação dele no Skol Beats em 2008.
HM – Quando e como começou seu projeto? Você ja teve outros projetos (não só de música eletrônica!)?
RROTIK – Eu tinha uma bandinha chamada Apex. A gente tocava surf rock estilo Califórnia (RHCP, Pepper, 311, Sublime etc) e nos apresentávamos em varias casas noturnas de BH e região. Nessa época o guitarrista Gabriel Mafra, que estudava engenharia elétrica na UFMG, já tinha conhecimento de produção de musica eletrônica e me mostrou o Cubase SX3; foi a primeira vez também que vi uma placa de som e uma cdj-100 na vida. Assim nasceu meu primeiro projeto, Mahadef. Não era muito bom e nem cheguei a lançar em nenhuma gravadora, só soltava no Myspace mesmo (risos). Depois de 1 ou 2 anos, conheci, no estúdio UniAudio daqui de BH, o Marcus (Jim) que já era conhecido em BH como um dos primeiros DJs de electro house e que tinha acabado de voltar do Universo Paralello 07/08. Ele me mostrou o som do Felguk (All night Long, Wash’em and give’em food) e eu fiquei completamente alucinado. Então, comecei a frequentar a casa do Marcus e juntos iniciamos o projeto Dirtyloud, que alguns já conhecem! Saí em 2015 pra começar outro projeto – o rrotik.
HM – E o que significa a palavra “rrotik”?
RROTIK – Foi uma tentativa de definir o som como uma coisa sexy, erótica e foi uma forma diferente de escrever “erotic”.
HM – Como você definiria seu estilo de produção?
RROTIK – Quando pensei na proposta de som, queria que fosse agradável, que pudesse tocar em várias ocasiões mas que também tivesse uma identidade forte, e não muito pesado, mas sabemos onde acabou dando. Sempre tive muito carinho com detalhes porque são eles que fazem toda a diferença pros ouvidos atentos.
HM – Quem é o público alvo da sua produção?
RROTIK – Não tem um publico alvo especifico, talvez aquelas pessoas que [figurativamente] queiram visitar lugares diferentes, que queiram ouvir uma música um pouco mais instigante.
HM – Quais são suas maiores influências?
RROTIK – Música das décadas de 70 e 90, rock, pop, disco. Muita gente pode achar nada a ver mas eu escondo muito bem essas referências nas minhas tracks (risos).
HM – Qual sua visão sobre a cena Low BPM brasileira, que está tão em alta nos últimos anos?
RROTIK – É ótimo que a cena tenha alcançado um tamanho tão monstruoso como está atualmente, e que não vê sinais de que vai parar! Mas na medida em que se torna cultura de massa, a qualidade indiscutivelmente cai, pois o produto (música) tem que ser comercializado para um público com vivência musical cada dia mais limitada. No entanto, muita gente talentosa vê o crescimento da cultura eletrônica no país como uma oportunidade de seguir carreira na música, coisa que era extremamente rara há alguns anos. Há muito ainda o que amadurecer, mas vejo muita coisa boa pela frente.
HM – Estão falando por aí num tal de “Low Bass”, qual sua opinião sobre essa “nova” variante de estilo, cada vez mais presentes nos sets de DJs como Vintage Culture e Cat Dealers?
RROTIK – O nome Low Bass é talvez uma tentativa de definir um som que ainda não tem como definir, justamente por fazer um apanhado de diversos outros estilos (House, Techno, UK Bass e umas 20 subvertentes), com cada produtor/label temperando o som ao seu próprio gosto! O “LowBass” vindo como renovação da sonoridade “Low” nacional é excelente e mostra maturidade da cena brasileira, pois é geralmente um som underground, “darkzão”, “cavernāo” e bem complicado de produzir e transmitir vibe. Talvez seja uma resposta a extrema popularização e mistura de funk e vocal em português (nada mais natural, afinal a língua portuguesa é a língua oficial do nosso país) [Isso é só uma hipótese].
HM – Muitos comparam seu estilo com o do grande produtor Kyle Watson (que, inclusive, tem sido um dos produtores que muito influenciou nessa história de “Low Bass”). E realmente há algumas semelhanças. Como você define a relação do seu som com a do Kyle?
RROTIK – Não considero meu som influenciado diretamente pelo estilo do Kyle, porém percebo que em alguns momentos bebemos água da mesma fonte. Acho o som dele um pouco mais melódico e timbres mais fechadões, pura psicodelia. O meu é um pouco mais “rasgado”.
HM – Quais DJs/produtores brasileiros você considera mais promissores na cena, e por que?
RROTIK – Lothief, Malive, MKJay, Jord, que são os produtores que surgem já exclusivamente nessa nova linha de som, porém gosto bastante do Overthinking (que ta mais no garage/house), Holt88, Breaking Beatzz, Saturn Keys e Gasmic que logo logo serão realidade.
HM – Que colaborações você mais gostou de produzir?
RROTIK – A última que saiu, com o Lliam Taylor. É um moleque muito talentoso e as ideias fluíram bem rapidamente. Curti também produzir o remix da Fono – Real Joy junto com Chris Lake, fiquei impressionado com a velocidade dele no Ableton – nunca tinha visto nada igual.
HM – Que supports de DJs famosos (e em grandes eventos) você recebeu? Qual seu favorito?
RROTIK – Chris Lake, Chris Lorenzo, Destructo, Justin Martin, Martin Garrix, Oliver Heldens, Fedde Le Grand, Don Diablo, Afrojack, AC Slater, Kyle Watson, Billy Kenny, Bart B More, Treasure Fingers, Blonde, Alok, Vintage Culture, Illusionize, Annie Nightingale, Low Steppa, Dom Dolla. Em festivais como Tomorrowland, Hard Summer, Holy Ship, Ultra, EDC Las Vegas. Ta mais que o suficiente né? (risos). O meu preferido foi no Shambhala Music Festival agora em Agosto em que me apresentei e minha track “In Between VIP” rolou nos b2b do Lake & Lorenzo, Destructo e foi a mais tocada da segunda noite.
HM – Você já produziu para algum DJ famoso no Brasil (seja como ghostproducer, ou como produtor creditado)?
RROTIK – Não, nunca nem me pediram na real.
HM – Quais seus últimos lançamentos? Tem algum “na cartola” que gostaria de anunciar com exclusividade pra gente?
RROTIK – Recentemente lancei uma track em colaboração com Airwolf, do qual eu remixei a track “talking bass”, pela Ministry of Sound Australia, e estou organizando o release da Bounce back (LOthief Remix) também.
HM – Quais os planos futuros para o projeto “rrotik”?
RROTIK – Tocar mais! To entrando pra uma agência forte de bookings aqui no Brasil. E nunca parar de fazer som, que é o que eu amo.
HM – Que dica (ou conselho) você daria para quem quer se iniciar no mundo profissional da música eletrônica (como DJ e/ou produtor)?
RROTIK – Vão ter vários momentos em que voce pensara em desistir, porém seu amor e compromisso com a música irão prevalecer
HM – Alguma mensagem final para seus fãs?
RROTIK – Meu infinito obrigado para aqueles que tiram um tempinho dos seus dias para ouvir o som e tentar entendê-lo.
E fica a dica! Confira mais das inteligentes produções de rrotik em sua página do Soundcloud. Que novidades veremos na cena do low mainstream brasileiro nos próximos anos? É evidente: vem muita coisa boa por aí – e o mercado está sedento por novidades.
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