Por Lucas Arnaud
Foto Rukes
Há cerca de quatro dias, a conceituada publicação The New York Times liberou um artigo que, em tom de denúncia, dissertava sobre a realidade das compras de seguidores nas diversas redes sociais. É citado, por exemplo, que o Twitter tem cerca de 48 milhões de contas falsas, o que perfaz (pasmem!) até 15% da atividade que ocorre na rede social.
No que tange a música eletrônica mainstream, o NYTS cita que DJ Snake e 3LAU se utilizam dos “robôs” de rede social, e seria ingenuidade acreditar que tal estratégia se restringe a esses artistas. A questão da compra de seguidores falsos é complexa, e envolve fatores de mercados como o de marketing (e mídia social) e o de música (eletrônica ou não).
Vamos estabelecer um raciocínio: com o advento das redes sociais, a quantidade de seguidores e de curtidas tornou-se, mesmo que grosseiramente, um parâmetro de sucesso. Grandes artistas têm milhares de curtidas em postagens de poucos segundos, e convenhamos: isso funciona! Somos induzidos a perceber maior segurança e credibilidade na carreira de artistas com amplo alcance nas redes sociais.
“Se aquele cara tem 100 mil curtidas no vídeo de sua faixa, ruim ele não pode ser, né?”. E o mais interessante: muitas vezes, temos boa noção de que aquela quantidade de curtidas não condiz com a realidade orgânica do artista, mas arrisco dizer que, ainda assim, a “tática” afeta (ou melhor, distorce) nossa capacidade de perceber a dimensão da carreira do DJ/produtor, mesmo que de modo inconsciente.
Além do claro benefício no âmbito do marketing, há outro motivo que ajuda a explicar a prática da compra dos media-bots. As recentes notícias nas quais Mark Zuckeberg afirma que o Facebook priorizará (no feed) páginas locais e de amigos do usuário nos sugerem uma tendência. Por um lado, parece sensato e benéfico ao usuário da rede a restrição às páginas de marcas e mídias, mas tal medida pode esconder uma estratégia maquiavélica.
Há quem diga que o real motivo dessas medidas seria reduzir o alcance orgânico das páginas (de artistas, veículos de informação, lojas e marcas) de forma que o patrocínio nas postagens seja cada vez mais necessário e, portanto, mais frequente. Em uma declaração recente, o diretor financeiro da rede, David Wehner, estabelece, quase que em um ato falho, a certeza de que o aumento nos patrocínios de postagens foi peça chave para o aumento da lucratividade do Facebook.
Voltando a nossa tese, pode-se dizer que um dos “efeitos colaterais” da redução progressiva do alcance orgânico das páginas de Facebook é a compra de likes e de seguidores fakes. Com cada vez menos curtidas e impressões de usuários reais, diversas equipes responsáveis pelos perfis de artistas se veem obrigados a inflar suas redes sociais de modo artificial.
Ainda que seja difícil delimitar culpados em específico pela problemática dos media-bots, é natural inferir que tal prática, no fim das contas, acaba por lesar o consumidor (no nosso caso, os fãs da música eletrônica). Nesse cenário, perde-se a autenticidade da dimensão da carreira de cada artista, vendendo-se uma imagem incompatível (em maior ou em menor grau) com a realidade. Quem é que gosta de ser enganado, né?
Portanto, e, infelizmente, a quantidade de dinheiro que o DJ/produtor (ou melhor, seu empresário) está disposto a investir em suas redes – seja em patrocínio, seja em seguidores/ curtidas falsas – torna-se um dos principais fatores reguladores de sua carreira, ofuscando o papel de virtudes como o talento e o amor pela profissão, que outrora foram, sem exagero, elementos protagonistas na maturação da música eletrônica em sua história.
Confira a leitura do artigo (em inglês).
