Por Lucas Arnaud
Tijs Michiel Verwest (nome real de Tiesto) já era uma figura atuante no mercado holandês da música eletrônica em 1997, quando fundou a Black Hole Recordings. Apenas um ano depois, já colaborava com Ferry Corsten no pioneiro projeto de trance Gouryella (o qual foi reativado como um projeto solo de Ferry em 2015, tendo se apresentado em terras tupiniquins ano passado, no Ultra Rio 2017. Foi um prato cheio para os fãs da sonoridade e da história do trance!). Tendo se tornado um dos grandes nomes do trance enquanto o estilo estava em seu auge (era, talvez, o estilo de música eletrônica mais popular na Holanda na época!), Tiesto fez jus a seu talento ao obter primeiro lugar no ranking dos top 100 artistas da DJ Mag por três anos consecuticos (2002, 2003 e 2004).
De lá para cá, Tiesto manteve uma carreira marcada por qualidade e versatilidade. Optou por uma estratégia que pode não ter agradado os fãs mais puristas do trance, mas que com certeza contribuiu para o desenvolvimento e maturação da cena do dance music mainstream internacional. Quanto as nuances dos marcos e das mudanças de rumo na carreira do grande artista holandês (do trance para o “EDM”; do “undeground” para o mainstream), convido-os a ler um artigo no qual detalhamos todo esse processo, relacionando com os elogios e críticas referentes a toda essa trajetória. Vale a leitura AQUI.
Engana-se quem pensa que as maiores contribuições de Tiesto para a cena mainstream nos últimos anos se limitaram a sua atuação como DJ. É claro que o holandês continua em alta e é considerado figura certa nas maiores festas e festivais de música eletrônica em todo o mundo, mas, quando falamos na cena como um todo, um fator nos salta aos olhos: Tiesto descobriu, ou, ao menos, deu destaque a muitos dos maiores talentos da dance-music contemporânea. E é fácil dar um exemplo claro disso.
Antes mesmo do lançamento de “Animals” (em 2013), Martin Garrix já chamava atenção por seu talento com alguns releases, com faixas (que talvez muitos não conheçam) como “BFAM” (com Julian Jordan) e “Error 404”, que foi seu primeiro lançamento pela Spinnin Records (gravadora que atualmente é judicialmente intrigada com o artista). Mas o negócio pegou fogo quando Tiesto seguiu Garrix no Twitter. Á época, o pequeno produtor postou “Obrigado Tiesto por me seguir! Tenho algumas músicas para te enviar” – esse twit, de outubro de 2012, continua online.
Foi a partir do início dessa relação que Garrix lançou “Torrent”, em parceria com Sidney Samson, pela Musical Freedom (label de Tiesto, subdivisão da própria Spinnin) a qual, coincidentemente, comemorou cinco anos ontem. E daí pra frente todo mundo sabe no que deu: Garrix obteve maior destaque na gravadora, lançando posteriormente “Animals”, que estourou sua carreira internacionalmente. Nesse meio tempo, Tiesto e Garrix chegaram até a colaborar – em “The Only Way Is Up” – título condizente e até mesmo profético para o jovem Martin, que seria, futuramente, o DJ número um do mundo.
O exemplo de Garrix nos mostra que a influência de Tiesto vai muito além de suas próprias produções e sets. Por meio de seus empreendimentos – tanto pela label Music Freedom, como pela Red Light Management, empresa da qual Tiesto é sócio e que agência grandes artistas como Marshmello e Jauz – o lendário DJ holandês foi uma das mentes que ajudou a definir os rumos da música eletrônica mainstream, e não há exagero nessa colocação! Indo (até mais) fundo no passado do que passamos a chamar de EDM, a Musical Freedom foi a label que assinou “Epic”, de Sandro Silva e Quintino. Fãs mais atentos sabem que “Epic” foi talvez a primeira faixa de grande relevância e principal protótipo do estilo que denominaríamos “Bigroom house”, o estilo que certamente foi um dos pilares da explosão de popularidade do EDM, principalmente a partir de 2012.
E não para por aí: muitos artistas foram beneficiados pelo “olho que tudo vê” de Tiesto – e é até fácil citar alguns nomes. KSHMR, que hoje é um dos mais populares produtores do mainstream, ganhou destaque (neste projeto) em sua colaboração com Tiesto, na aclamada “Secrets”. E vale lembrar: KSHMR revelou seu rosto pela primeira vez durante o set do próprio Tiesto, no palco principal do Ultra Miami 2015 (para quem quiser relembrar o momento).
Depois desses nostálgicos flashbacks, voltamos a fevereiro de 2018. E é sobre toda essa temática que você leu, que Tiesto falou em uma entrevista exclusiva ao site “We Rave You” (a qual você pode ler, na íntegra e em inglês, nesse link. Destaco alguns pontos – quando perguntado sobre os novos talentos que descobriu nos últimos anos, Tiesto responde: “Eu sempre os descubro antes que eles realmente “estourem”, e essa é a parte divertida. Entramos em contato e concordamos em fazer algo juntos, e esses caras sempre têm novas ideias. Estou nesse ramo a um longo tempo, e por isso é bom renovar suas próprias ideias e trabalhar com artistas mais novos e promissores, que certamente contribuirão com algo diferente no som. Trabalhar com novos talentos foi o que mais influenciou minha carreira nos últimos 5 a 6 anos.”
Quanto à procura por talentos na atualidade, ele confessa: “Definitivamente foi mais difícil no último ano, por aí. Antes era mais fácil. Agora, há uma quantidade enorme de produções no Soundcloud, então muitos ótimos trabalhos acabam se perdendo em meio ao grande volume de faixas medianas. Ainda há produções incríveis, mas é cada vez mais difícil para esses artistas se destacarem.” – esta última resposta de Tiesto se refere ao processo de saturação que acomete (quase todo) mercado em explosão, como o do dance music mainstream. Em outra entrevista (ainda desse ano:), o artista afirmou: “Eu acho que algumas pessoas na cena da dance music se voltaram demais ao mundo pop. Para mim, é hora de voltar ao básico e lançar aquelas tracks mais explosivas. Porque não importa se é em um festival ou em um club: quando você toca um som mais “pancada”, as pessoas curtem – e é isso o que eu gosto de tocar!”
De certa forma, as duas opiniões de Tiesto se relacionam, visto que muitos artistas têm “apelado” ao estilo pop para fugir da saturação do mercado da dance music e, é claro, para abarcar mais fãs e, consequentemente, um maior número de consumidores – visto que as produções do pop são radio friendly e de maior aceitação pelo público casual. Essa crítica, vale notar, serve tanto para artistas do mainstream internacional – como The Chainsmokers e Galantis, que cada vez mais se distanciam do dance music propriamente dito – como para nossos produtores brasileiros. Alguns dos grandes nomes da música eletrônica mainstream têm deixado de lado as produções mais “pancadas” (as quais, diga-se de passagem, os tornaram famosos) e procurado atuar no âmbito do pop.
Então, qual seria a solução? Talvez não haja uma resposta simples para essa pergunta, em se falando de uma cena cada vez mais saturada e competitiva (lembre-se: isso se aplica à internacional e à brasileira). Porém, talvez ajude considerar o que disse o próprio Tiesto sobre a migração de artistas para estilos mais massificados. Então, caros produtores, vale a pena enveredar por vertentes autênticas, procurando uma sonoridade que realmente agrade a quem esteja produzindo. Quando voltarmos a criar sons pela emoção que eles sinceramente nos geram (aquele arrepio que dá naquele tal drop; ou aquele vocal tocante) e não apenas pela rentabilidade do estilo que se produz ou pela busca de mercado consumidor, talvez voltemos a ter uma cena tão dinâmica, com inovação e cooperativa como tínhamos no passado. E é esse “feeling”, ou “instinto”, que levou muitos artistas a executarem ideias brilhantes que chamaram a atenção de Tiesto. Os novos talentos estão por aí, mas talvez falte uma atitude: “voltar ao básico”.
