Por Alan Medeiros
A trajetória do carioca Art in Motion, nome experiente dentro do cenário nacional, inegavelmente deu uma importante ascendida desde o começo do ano passado, quando o artista voltou a lançar em alto nível com maior frequência e capitaneou ao lado de seu time uma guinada nos trabalhos da Plano B, hoje um dos melhores selos do Brasil.
A coroação desse momento bem especial acontece agora com o lançamento do EP Mágica, pela própria Plano B. Nele, Vicente Amadeo – produtor por trás do projeto –, explora com inteligência alguma das principais referências que formam não somente o seu som, mas também a identidade da gravadora como um todo. O trabalho também reflete a preocupação constante do DJ e produtor carioca em entregar algo que seja duradouro para a cena, indo totalmente na contramão das características descartáveis que muitos produtores estão inserindo em suas faixas atualmente.
Atendendo ao convite, Art in Motion respondeu algumas perguntas para a House Mag e gravou um mix exclusivo para o nosso radioshow. Escute e faça o download AQUI. Vem com a gente que ficou bem especial:
Olá, Vicente! Sua carreira é bastante conectada com a cena do Rio de Janeiro, certo? Na sua opinião, o que o Rio oferece de melhor e pior para um artista da música eletrônica?
Sim. Durante uns seis anos eu fiz muitas festas no Rio, vivendo momentos bons e ruins. Acredito que toda cidade passa por ciclos e transformações, e para um artista a vida no Rio, culturalmente falando, é bem rica comparada com outras cidades do Brasil. Acho que a falta de clubs e as locações caras dificultam o nascimento de novas festas.
Para um produtor musical, encontrar seu perfil sonoro ideal é uma luta constante no estúdio. Você já encontrou o seu? Existe algum lançamento que representa com precisão sua personalidade enquanto músico?
Acho que isso demora um tempo, exigindo um longo processo de descobrimento e refinamento. De fato, desde o final do ano passado, tenho conseguido chegar mais perto de onde eu quero. O meu álbum Llankay, lançado em 2014, mostra bem minha personalidade e como caminho entre estilos, sempre mantendo uma coerência entre as faixas.
Você acredita que a música eletrônica está caminhando para o rumo certo no Brasil? O que poderíamos fazer de diferente para termos uma cena mais saudável?
Acho que a cena está caminhando, mas acredito que as labels ainda fazem um trabalho um pouco amador em comparação às gringas. Talvez por falta de grana pra investir, retorno abaixo do esperado e pouco reconhecimento também. Enxergo muitas diferenças dos promoters lá de fora com os daqui referente ao que buscam, e tal. Vejo clubs fechando ou não se sustentando só com eletrônico e ao mesmo tempo a cena se reciclando no Rio, o que é muito bom por aqui. Enfim, são muitos pontos, mas a profissionalização somada ao aumento de pessoas realmente qualificadas trabalhando por trás, além do tempo e da experiência vão nos levar para algo mais saudável.
Seu trabalho com a Plano B Records me parece cada vez mais sólido e bem estruturado. Poderia compartilhar conosco um pouco de suas experiências ao longo desses mais de seis anos de label?No início criei a label para ser uma plataforma de lançamento das minhas músicas e dos meus amigos mais próximos. Com o passar dos anos fui aprendendo como outras gravadoras trabalhavam, fui fazendo testes e afinando o estilo que queria. Ano passado chamei meu grande amigo Thiago Freitas, DJ Iagon, para entrar na sociedade e desde então terceirizamos algumas funções, além de modificar alguns planejamentos e ter boas pessoas à nossa volta!
Seu próximo EP, Magica, transmite uma maturidade musical bastante interessante. Como foi o processo criativo dessas faixas?
“Cores“ é uma das músicas mais lentas que já fiz, tem texturas e melodias bastante inspiradas no último álbum do Four Tet. “Magica” comecei no início desse ano, logo após comprar meu primeiro modular. Passei horas fazendo a melodia e o timbre, refiz a base algumas vezes até ficar satisfeito. “Karma“ foi produzida durante longos meses e várias sessões com Vkira. Começamos pelo break fazendo o hook e depois desenvolvemos a faixa toda. Por último, a “Salar” é um projeto antigo de 2016 que refiz algumas coisas e resolvi lançar junto, pois gosto dela e achei que tinha haver com o EP.
Na sua visão, em quais pontos a Plano B se destaca e quais ainda precisam ser trabalhados para uma evolução futura?
Desde o ano passado, nós começamos a investir em remixes, serviços de P&R, abrimos nossa editora, terceirizamos algumas funções mas tem sido um investimento grande. As vendas caíram bastante com o streaming. Talvez o marketing seja um ponto em que podemos e devemos melhorar. Estamos ajustando a nova identidade visual, tentando vender uns showcases pelo Brasil e tenho bastante vontade de começar a lançar em vinil em breve! Vamos ver.
Para encerrar, conta pra gente quem são suas principais referências na produção musical atualmente. Obrigado!
Atualmente tenho escutado bastante John Tejada, Tim Engelhardt, Denis Horvat, Stereocalpyse, DAVI, Pablo Bolivar, Roman Lindau, Four Tet, Bonobo e DJ Koze. São muitos que me inspiram, bastante coisa fora da música eletrônica também.
