Por Jonas Fachi
Fotos: Ebraim Martini e Gustavo Remor
Com o início dos meses mais gélidos do ano no sul do Brasil, podemos sempre esperar noites diferentes no Warung Beach Club. Alguns dos amanheceres mais belos que a praia brava pode proporcionar acontecem neste período. O dia 19 de maio já se apresentou como parte desta época, sendo a data que escolhi para fazer-me presente no club e mais uma vez buscar o interminável desejo de conhecer e descobrir novos estilos artísticos e musicais. Havia como marco atrativo três distintos headiliners que, na minha opinião, estão quase nivelados em cima de um mesmo plano de reconhecimento e importância no cenário global. O duo alemão Andhim recebeu das mãos da curadoria o horário e o lugar mais cobiçado através de uma espécie de justa meritocracia por já terem se apresentado no club em outras duas oportunidades – ainda em horários menos nobres, porém com ótimos elogios. O duo londrino Dusky estava no satélite do club e nos pedidos dos frequentadores há algum tempo. Para eles, seria uma noite para não errar, visto que ainda precisam ganhar mais reconhecimento junto a maioria dos clubbers do sul do país. Foram-lhes cedidos a sempre difícil transição do warm up para o artista final no ‘’pistão’’. O terceiro nome de relevância da noite foi destinado para o encerramento do Garden, era quem estava me fazendo definitivamente comparecer ao club e uma das estreias mais merecidas dos últimos anos, Sébastien Léger. O francês possui uma carreira extensa, consolidada e de alta qualidade dentro do estúdio, o credenciando a lançar por labels que vão desde Bedrock, até All Day I Dream.

Dadas as devidas ponderações, é preciso regredir ao início da noite. Meu primeiro passo ao adentrar o club foi em direção ao Inside. Albuquerque estava no comando já com a pista em ótima quantidade. Faz algum tempo que o DJ da casa tem direcionado seu estilo musical para um perfil um pouco mais sincronizado com as bases do estilo mais popular do Warung, mais conhecido como House Progressivo. Esse perfil sonoro ajudou a formar a mente de gerações de clubbes através de DJs reconhecidos mundialmente trazendo sonoridades com aspectos tribais e com maior profundidade de camadas nos elementos. A prova disso foi ele tocar um dos últimos lançamentos do lendário Danny Howells, em ‘’Earthligs’’. Outro destaque de seu set foi ‘’A.R.G.O’’, produção de uma das ótimas novidades para os próximos meses no club, Ruede Hageltein, em parceria com Emerson Toldd.

Albuquerque em ação comandando a pista
Todo seu set percorreu músicas nesta direção, porém, sem perder seu estilo característico de muita movimentação e ritmo dançante. Em seguida, o duo Dusky assumiu o comando. Eles pareciam tranquilos em apresentar um estilo sonoro mais complexo. Algumas pitadas de acidez e techno se faziam presentes, aos poucos, soltaram as mixagens do back to back e arriscaram algumas músicas mais introspectivas. A pista pareceu reconhecer com normalidade o estilo proposto e esboçou alguns momentos de interação em euforia. Acertadamente, esse era o horário para eles tocarem, ainda não são artistas prontos para maiores responsabilidades em clubes do tamanho do templo.

Duo londrino Dusky
Às três da manhã decidi descer para o Garden e aproveitar um pouco do set do Leo Janeiro. Mais uma vez fui surpreendido pela habilidade do DJ carioca em se adaptar a proposta da noite. Todos sabem que seu estilo tradicional é uma linha de house mais clássica, entretanto, isso não impede de ajustar suas escolhas músicas conforme a composição do line up. De forma inteligente, mesmo em um horário de meio de noite, preparou a pista para o artista principal. Essa é a verdadeira função de um DJ residente, e ele sabe disso.

Leo Janeiro – residente do Warung Beach Club
A temperatura baixa somada a momentos da leve garoa ditavam o tom quase sombrio dos corpos pulsantes do Garden. Conforme programado, Léger assumiu o comando na mesma sintonia rítmica que já se havia praticado anteriormente. Antes de dar continuidade a elaboração de seu set, é preciso fazer um parêntese.
Assim que soube de sua vinda ao Warung, imediatamente me veio à mente a lembrança de uma entrevista sua concedida em 2013, lida por acaso. Quando perguntado se havia algum lugar que ainda sonhava conhecer e tocar, sua resposta foi categórica: ‘’I’d love to play Warung in Brazil!’’. Sua conexão mental e o sonho de se apresentar em nosso templo não é por acaso, Léger tem entre seus lugares favoritos e mais inspiradores da ilha de Bali, na Indonésia, mesma fonte dos ideais estéticos e de valores no club. Sua relação inspiradora está demonstrada também no nome de sua label – Temple of Lions. Para coroar sua estreia, o Warung Recordings também estava promovendo o lançamento de um remix de Sebastien para Midgard, EP do Americano Darin Epsilion.
Desde o primeiro segundo, o artista parecia estar transbordando energia ao assumir a pista. Foi perceptível por todos que ele estava dando o seu melhor, 100% concentrado e escolhendo cada mixagem como se fosse a última. Seu estilo de produtor estava mais voltado ao tribalismo e linhas de baixo com muito groove. Além de seu remix para a label do templo, Léger desfilou sua invejável discografia com faixas conhecidas como a clássica ‘’Jaguar’’, que completava dez anos de lançamento, ‘’Love Star’’ que saiu pela Sudbeat, ‘’Lost Mircale’’ e ‘’La Danse Du Scorpion’’ em produções mais recentemente. De outros artistas, vale o destaque para ‘’Something Said’’ com remix do Super Flu e ‘’Carolina’’ de Khen.

Sébastien Léger
Conforme a manhã se aproximou, a pista começou a perder densidade. O frio que se agravava próximo a 10 graus não era suficiente para desestimular Léger, ele estava em outra frequência. Para compensar a perca de público para o aconchegante lado de cima, acelerou o ritmo e flertou com faixas mais sérias e menos emotivas. Minha dor nos pés aumentava, porém algo dizia que não deveria deixar um dos melhores sets do ano acabar sem meus ouvidos. Olhando ao redor, percebi que só restava quem realmente estava ali para vê-lo tocar, quem sabia com mais clareza quem ele era, e acima de tudo, quem tem afinidade com o estilo musical proposto. Já perdi a conta de quantos artistas já tocaram essa música no amanhecer do Warung. Nomes que vão desde Sven Vath, John Digweed e Hernan Cattaneo, até o próprio criador, Guy Gerber. ‘’Timing’’, a sempre emocionante faixa que é capaz de sintetizar em ondas sonoras o que é a verdadeira ‘’mágica’’ do templo foi a escolhida para o encerramento. Em minha opinião – o maior hino do Club. Quando percebi seu inconfundível baixo entrando na mixagem, soube o motivo que me fez encarar a solidão clubber álgida até o final. Gostaria que tudo tivesse ocorrido no eterno main room, onde para ela foi desenhado e onde o sol estava dando vida de forma sublime ao ‘’Temple of Dragon’’. Nem tudo sempre é como esperamos, por isso, é um artista para voltar no ‘’andar de cima’’.
