DJ Murphy em uma entrevista especial realizada no Encontro Yellow de Música Eletrônica. Confira!

Por Nazen Carneiro, da coluna TUDOBEATS 

Foto de abertura: Amarelo Photography e Rodrigo Faraz

Como falar do DJ Murphy? Se o chamasse de lenda, seria uma inverdade, afinal sua carreira prova que ele é de carne e osso (e discos), além de um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da cena techno no Brasil.

Murphy, para falar um pouco só e deixar o resto para ele, é DJ de verdade. Mixagem, scratch, conhecimento musical e técnico. Desde 1992, acumula experiência, tanto no comando dos toca discos, como na cena eletrônica de uma forma geral. Com certeza conhece muito sobre a cena eletrônica do Brasil e de muitos outros lugares espalhados pelo mundo. Seja por aqui ou pela Europa, DJ Murphy desfruta de amplo reconhecimento tanto por DJs das mais variadas vertentes, quanto pelos produtores dos melhores clubs e festivais do mundo, o que garante a ele agenda cheia o ano todo.

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Foto: Amarelo Photography e Rodrigo Faraz

Eleito o melhor DJ do Brasil em diversos rankings, ocupou a 6ª posição no na publicação alemã “Raveline”, maior revista especializada em música eletrônica do país.

Em uma matéria especial, a House Mag  apresenta esta entrevista com o DJ, realizada no Encontro Yellow de Música Eletrônica que rolou em Curitiba, na semana passada.

HM – Sempre entre Brasil e Europa. Você tem tempo para alguma coisa além de tocar? O quê?

Sim, apesar de há muitos anos dedicar boa parte do meu tempo à minha carreira. Especialmente quando estou fora do Brasil, sempre tento explorar cidades que ainda não estive. Passeio como um turista mesmo. Tento dividir meu tempo cuidando da saúde entre antes e depois da academia (rs), hábito diário há 10 anos, e por fim dormir, aproveito para dormir ao máximo entre uma gig e outra.

HM – Você toca que nem louco pra tudo quanto é lado, levando techno, vinil, enfim, toda a cultura. Quantas vezes por mês?

Eu toco entre seis a 10 vezes por mês, especialmente no verão. Hoje é até mais tranquilo, mas com a quantidades de clubs que existiam no Brasil no início dos anos 2000, passei alguns anos tocando entre 15 e 20 vezes por mês. Hoje em dia. em meses que estou no Brasil e Europa. toco mais ou menos 10 vezes por mês. e no verão Europeu um pouco mais!

HM – Isso dá muitas cidades. Qual do mundo foi a mais louca?

O lugar mais louco, ou pelo menos diferente, foi a cidade de Pristina, no Kossovo, cidade na qual ainda era visível toda a destruição pela guerra entre albaneses e sérvios. Tudo muito precário, a energia elétrica sempre acabava e voltava. Foi uma experiência única ter ido a um lugar que passou por uma guerra.

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Amarelo Photography e Rodrigo Faraz

HM – Você se sente mais confortável com o vinil, muito em virtude dos scratches. Você consegue comentar o impacto dessa ferramenta no seu set e no de quem toca outro device não consegue?

Utilizo vinil fisíco e também time-code, e é a plataforma que eu me sinto mais à vontade tocando, absolutamente.

Há alguns anos surgiram os CDJs que simulam o que se pode fazer com o vinil, mas nem os CDJs atuais conseguem simular com tanta precisão tudo o que se pode fazer com ele. Eu, na minha maior característica virtuosa, uso de técnicas que provém do hip-hop, porém tocando techno. Então, quando houve a migração em massa para os CDJs, eu até tentei, mas não era igual, então decidi manter o vinil nos meus sets.

Porém, em algumas ocasiões, eu toco com CDJs por problemas técnicos ou algum imprevisto.

HM – Como o vinil conheceu o DJ Murphy?

Posso dizer que eu conheci o vinil! Quando criança, as únicas mídias populares de fácil acesso disponíveis no mercado eram os discos de vinil e as fitas K7. Eu mesmo, desde criança já colecionava vinil e trocava por qualquer brinquedo!

HM – Eles se deram bem?

Os primeiros não, pois risquei vários (rs). Mas depois, com o passar do tempo, sim, se deram bem e são minha principal ferramenta de trabalho.

HM – Hoje a gente vê microfone, mão pra cima, DJ em cima da mesa. No seu set você está sempre com as mãos ocupadas mixando, trocando disco. Comente essa realidade do DJ de hoje.

Então, isso é complexo, mas a realidade é que quem toca de verdade está ocupado mixando, usa fone e a arte anima mais que subir na mesa.

Em algum momento ou outro até dá para erguer as mãos no meu set, mas não sempre. Além de estar controlando os toca-discos, eu tenho devices agregados ao meu setup, sempre fazendo uma música nova a todo momento, utilizando stems, samplers, loops e outras nuances.

HM – Você s[o toca techno. Sempre tocou ou estou errado? Essa fidelidade toda ao estilo é amor, paixão ou teimosia?

Quando comecei a tocar em 1992, tinha um estilo freestyle como todos os DJs da época Toquei hip-hop, house, hardcore, jungle, techno e afins, mas em pouco tempo já tocava somente techno.

Sim, eu tenho pelo techno um amor incondicional, até quando houve uma “crise” do techno nos clubs brasileiros, quando outros DJs migraram para o house, deep house, minimal e até apagaram de suas biografias que tocaram techno algum dia. Mesmo assim eu segui firme e forte, convicto que no Brasil o estilo retornaria com força total e teria a importância e grandiosidade no país como tem na Europa até hoje.

Fui teimoso, valeu a pena e farei novamente se acontecer.

HM – Com a popularização da função de DJ, muito devido a facilidade dos meios tecnológicos, o que é o básico de ser DJ, segundo o DJ Murphy?

O básico é ser DJ! Sinceramente 80% dos DJs que surgiram há poucos anos não fazem ideia de como mixar sem previamente determinar o bpm de todas suas tracks no Ableton, auxílio do RekordBox, porque sem o wave no visor de cada track não conseguem tocar ou ainda visualizar os bpms e sincronizar de forma automática através dos devices. É como ser cirurgião e não saber operar, por exemplo!

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Amarelo Photography e Rodrigo Faraz

HM – Seu som é aceito em toda Europa. No Brasil, você sempre manteve seu espaço e conquistou ainda amis. Você já teve que mudar seu som ou algo que queira contar pra gente nesse sentido?

Sim, apesar do techno ter nascido em Detroit, hoje o que manda é o que se produz na Europa, 80% sim!

Eu me tornei um especialista em dominar os mais diversos tipos de pistas, clubs e festivais, de forma que o meu case tem uma amplitude muito grande no que se refere à techno, de maneira que eu consiga conduzir pistas menos comerciais, e também, as extremamente comerciais. Porém, sempre com o princípio do que é o techno. Posso fazer sets obscuros e lineares, mas também sets com muito groove. Depende da ocasião, e eu tenho o lema de não perder a pista nunca.

HM – Como você deu o primeiro passo para a sua carreira extrapolar os limites continentais e cruzar o oceano?

Em 2002 conheci o DJ e produtor alemão Christian Fischer, em um club de São Paulo, em uma noite que tocamos juntos. Ele curtiu o meu set e me perguntou se eu queria lançar um EP na gravadora dele.

Ainda em 2002, lancei pela Definition Records, selo do Christian Fischer, e depois de algum tempo “Tem Lenha” já era hit em uma centena de clubs alemães. No ano seguinte, em 2003 toquei com o Chris Liebing na Rave Circuito, em São Paulo. Ele me fez um convite para tocar em sua noite em Frankfurt,  no Clube U60311.

Assim, juntamente com o Christian Fischer, foi criada a minha primeira tour na Europa. Desde então fiquei cada vez mais conhecido na Alemanha, toquei em uma centena de clubs e nos principais festivais do país, e a cada tour começavam as contratações para atuar em mais e mais países. Sigo até hoje entre Brasil e Europa com cinco ou seis tours por ano!

HM – Sua técnica é referência para os melhores DJs. Você poderia falar sobre técnica? De onde veio, como desenvolveu e como está hoje?

Há muitos anos eu tenho o título de DJ de techno mais habilidoso do mundo, e isso vem da minha base de quando comecei a tocar hip-hop/rap logo no início. Era muito legal tocar hip-hop e fazer scratches, transform, beat jungling e outras loucuras com os toca-discos. Eu desenvolvi com muito treino. Praticava em casa por oito horas, todos os dias, e até ganhei campeonatos de DJs por conta disso!

Hoje a minha técnica é ainda mais aprimorada, porém eu faço sets mais limpos, se assim posso dizer, porque eu agreguei mais formas de mixagem em si. Porém, alguns momentos do set eu dedico à minha técnica de scratches.

HM – Poucos artistas no mercado internacional tem a longevidade que você tem. Posso contar? São 26 anos de cabine. Qual a diferença daquele Murphy virando o primeiro disco, do Murphy de hoje?

Tenho o privilégio de estar no mercado há muito tempo. Eu acho que dedicação, trabalho sério e se reinventar à partir dos meus princípios me proporcionam essa longevidade.

A diferença daquele Murphy virando o primeiro disco para hoje em dia é o fato da paixão ter realmente se tornado a minha profissão. Olhando de uma perspectiva externa, vejo o DJ Murphy como uma empresa que tem que produzir um produto de ótima qualidade e satisfazer seus clientes como contratantes e público, e é claro, entregar um produto de alta durabilidade para não perder o trocadilho (rs).

HM – Cada um tem suas referências musicais, históricas, enfim. E também, tem a playlist de hoje. Quais as cinco músicas que você mais têm ouvido recentemente? Aquelas que você coloca no repeat?

1. Kathy Kosins Paul Randolph – “Could U B Me” (Theo Parrish SS Translation)

2. DJ Murphy & Dolby D – “Scream Art” (Abyssvm Remix)

3. Alan Junior – “First” (Original Mix)

4. Lars Leonhard & Roman Ridder – “Cellular Spaces”

5. Steve Bug – “Different Techno”

HM – Uma pergunta muito importante que não poderia faltar. São tantas gigs. Qual foi o melhor drink dessa carreira toda e onde?

Curiosamente eu passei 10 anos sem beber e voltei a tomar somente cerveja há um ano atrás! (rs). Porém, como adoro café e até tomo cafés durante os meus sets, um restaurante em Barcelona, na Espanha, chamado Atabalats, criou um drink com whiskey e café, e batizaram esse drink com o nome de Murphy! Então pra quem for em Barcelona fica a dica.

HM – Vamos falar dos seus lançamentos. Por favor, comente sobre “Scream Art” e o EP “Be Yourself”.

DJ MURPHY & DOLBY D – “SCREAM ART”

A track “Scream Art” foi feita com o meu amigo e dono do selo francês Dolma Records. Este EP aparece em número quatro na categoria de melhores selos no Beatport. Foi produzida na França, em uma das minhas tours no início deste ano. Fizemos basicamente com Ableton Live e diversos plugins agregados a uma Roland TR-8, nada complexo. A master também foi feita nos studios da Dolma.

“BE YOURSELF” EP

Já o EP “Be Yourself” foi uma parceria que fiz com o brasileiro residente em Londres, Vinicius Honorio, atualmente artista da Drumcode e de grande ascensão na Europa.

Fizemos o EP em uma de suas rápidas passagens pelo Brasil, em São Paulo, no meu studio, e lançamos pelo lendário selo alemão “Fine Audio Recordings”. Ableton Live, Cubase, Tr-8, TB-3, Sintetizadores Novation e mais alguns periféricos foram usados.

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