Por Jonas Fachi
Foto por Gustavo Remor e Ebraim Martini
Ainda soa como se mal tivéssemos saído da Praia Brava, pensamentos confusos e o corpo eletrificado por ondas sonoras, entretanto, no momento em que este texto foi escrito, o tempo dizia que já haviam se passado dias, semanas. Esse sentimento ainda é potencializado pelo desejo que restou de ter ficado mais algumas horas ouvindo música sendo tocada com a alma. Talvez um dos motivos da felicidade se estender adentro de janeiro do novo ano, é que a espera havia sido enorme, então, a vontade de vê-lo na soturna cabine do Templo jogando do jeito que só ele sabe, estava bastante acumulada. Hernan Cattaneo passou alguns anos recebendo duas datas por temporada no Warung e, novamente, o dia 28 de dezembro chegou como a única data para o maestro na casa de madeira. O que isso significa? Que se tratando de um dos seus três lugares favoritos no planeta para se apresentar, ele viria para o último extended set de 2018 com aspirações no mais alto nível.
Hernan Cattaneo declarou em entrevistas recentes que seus lugares preferidos para se apresentar no planeta são: Club Stero (Montreal – Canadá), Woodstock 69 (Bloemendaal – Holanda), e Warung Beach Club (Itajaí – Brasil).

Após 15 anos de atividade e altos e baixos de vários medalhões como Sasha, Dubfire, Marco Carola e John Digweed, talvez Hernan se sustente no Warung como o último “legend’’ anual capaz de formalizar um verdadeiro encontro de gerações de clubbers. Indo desde aqueles que já se aposentaram das pistas e saem apenas uma vez ao ano para descalibrar da vida tradicional, rever velhos amigos e claro, se divertir com alma jovem, até aqueles novos e vibrantes que estão tendo as primeiras experiências com toda energia possível; trazendo um carinho especial através de faixas, camisetas e presentes para autógrafo. Catta os reúne através daquela que considero sua maior virtude enquanto artista dentro da cena eletrônica, sua consistência. Tanto na qualidade da escolha das músicas sem perder a identidade, como na capacidade de fazer mixagens perfeitas e desconcertantes que nunca deixam de surpreender. Se pudesse resumir o tradicional 28 de dezembro, diria que é uma reunião de fãs sul-americanos de várias épocas compartilhando um sentimento comum que os une a cada pedaço de tempo, admiração pura pelo talento, carisma e profissionalismo de um artista que parece não sentir o cansaço das horas de dança nas pernas; sempre quer um pouco além!
Se não é possível se estender pela manhã, então as primeiras horas foram adquiridas como suas também. A dispensa do warm up externo parece algo já consolidado e que conta com respaldo de um público que não mede esforços para prestigiar uma boa noite de música com o argentino. Introduções feitas, vamos a festa, ou melhor, relembrar capítulos de destaque.
Para este colunista que voz escreve, a última sexta feira de 2018 começou bem cedo. Antes mesmo das 21h eu já estava no Warung em meio ao staff da casa, que ainda preparava os últimos detalhes. Junto de minha melhor companhia, encontro-me com Lucas França, um dos câmeras da rádio Dance Paradise que iria filmar o evento para o aftermovie. Conforme programado, as 21h30 Hernan chega. Com a indispensável dica do Gustavo Zagonel, nos dirigimos para uma sala até então desconhecida por mim, que fica em cima do bar Temple Drinks. Lá, a frente de um belo mural repleto de folders das festas de todas as épocas, Hernan me pede para termos no máximo dez minutos de conversa. Ele já estava preocupado com o horário previsto de iniciar seu set. Sua pontualidade britânica é algo que ele tem como filosofia profissional incorporada desde o início da carreira. Depois da entrevista, voltamos para o camarim, Catta gentilmente atendeu alguns fãs com fotos e autógrafos, porém, era nítido que sua mente já estava lá em cima na cabine. Eram 21h56 quando ele deu o play na primeira faixa de uma longa noite de fortes emoções.

Cerca de 100 pessoas já o aguardavam, rapidamente a pista de dança foi ganhando volume e cada nova pessoa que entrava era recebida com o toque tribal característico das primeiras horas de set em ritmo cadenciado. Hernan gosta de criar um clima de alta energia de fundo e ir deixando que ela se manifeste apenas na hora apropriada. Foram diversas lindas músicas com alguns breaks bem colocados mais espaçados. Dois destaques consegui capturar em minha pesquisa, Darlyn Vlys, em “Horse feat Haptic’’ , faixa que conta com um dos vocais mais bonitos que ouvi nos últimos tempos através do update do talentosíssimo Tim Engelhartd, além da excelente “Universe”, de Analog Jungs.
O sound system na primeira metade da pista estava beirando a perfeição. Não demorou muito para todos estarem sintonizados por completo com o maestro. Hernan é muito concentrado em seu trabalho, gosta de pensar o set três, quatro músicas a frente, e isso exige movimentos constantes entre mixer e os quatro CDJ. Ainda assim, ele sempre consegue arrumar alguns segundos para criar pontos de conexão com seus fãs mais reluzentes, que ficam no aguardo de um leve sorriso, um toque de mão, ou a tão clássica apontada com a mão para os seres que ele reconhece de longa data.

Até às 2h, mais dois destaques importantes para mencionar, pois são trabalhos com participação de brasileiros. Sarah Chilanti cantando na música “Until The End” de Antrim. Seu vocal marcante hipnotizou boa parte da pista, enquanto outros entraram em euforia. Ainda, o paulista Luciano Scheffer remixando “Lost in the Moment’’, de Robin Thurston, fez a pista inteira levantar as mãos. O intenso jogo de baterias dessa música deu o tom do ritmo mais elevado que Hernan estava impondo. A sequência da noite ficou marcada por uma mistura de momentos obscuros e faixas com baixos pressionando a pista para um movimento sincronizado.
Para mim, era o momento do verdadeiro house progressivo mostrar sua cara, sendo tocado de forma única por alguém que conhece como ninguém os caminhos na hora de mixar todos os elementos, fazendo parecerem um só. Em meio a introspecção, Hernan trouxe vocais de sua banda favorita para contrapor. Depeche Mode através de “But Not Tonight” com remix de Marcelo Vasami, e “Policy Of Truth” com remix de Leonel Cura. Depois de conseguir a mente e o coração dos presentes, ele entra em sua fase mais “matadora”, jogando faixas com alta carga de energia explosiva. Vale destaque para três excelentes trabalhos de ARTBAT, “Atlas”, “Upperground” e o remix de “Guede”, do DJ Hell. No meio do set, vieram duas daquelas músicas que marcam na memória por muito tempo, “Better Days” de Themba e o incrível remix de D-Nox & Beckers para a clássica “Flashes”, de Stereo Underground. Que momento!

Eu sempre cumpri o mesmo ritual no Warung, ficar na parte da frente da pista de dança e perto o suficiente do DJ para observar como ele se comporta, além de procurar a melhor posição em relação aos graves do sound system. O Warung tem uma aura muito particular, envolvendo uma mistura de alta temperatura e energia com vozes de fundo se misturando com a música que reverbera pelo triângulo de madeira. É uma sensação difícil de explicar. Nesse vídeo, em uma das faixas da noite, fica evidente qual é a verdadeira “magica” do Templo.
Porém, como nas duas últimas vezes que Hernan veio, por volta das 5h subi para acompanhar o resto do set ali, junto dele na cabine. Por mais que verdadeiramente você só consiga aproveitar 100% estando na pista, a oportunidade de assisti-lo trabalhando, ainda mais para um amante da mixagem longa, era irresistível! A primeira coisa que observei foi a velocidade setada das músicas no equipamento. Estava a 122 batidas por minuto. Conseguir manter-lá por toda a noite é um desafio que poucos se prestam a tentar, mesmo para o padrão club. Outro ponto que preciso mencionar é o da diferença de atmosfera que o DJ absorve do club em relação a pista. Estando em meio a dois pares de Funktion One como retornos, fica quase imperceptível o que a pista passa de volta para o DJ, que muitas vezes faz a leitura apenas no olhar. A cabine precisa ser uma fortaleza para o artista, um ambiente tranquilo onde só o som dos retornos é que deve prevalecer. Por mais que para o público seja um pouco estranho saber que a “vibe” que o DJ está sentido lá em cima não é a mesma da pista, devemos entender que para ele criar momentos de emoção e conexões musicais com o público, é preciso ter um nível de concentração muito elevado. Agora imagine fazer isso por 10 horas! Voltamos a noite, ou melhor, manhã.

Hernan adentrou o novo dia introduzindo algumas faixas mais emotivas. Às 6h, ouço uma melodia que parecia familiar, entretanto minha memória não era capaz de acessar em qual pasta do subconsciente estava guardada a informação precisa, porém, meu feeling para músicas clássicas não falhou, sabia que era algo especial. Em minha pesquisa, descobri finalmente que a música que mais tinha me emocionado em todo o set era do lendário James Holden, através de “A break in the Clouds”. Essa obra prima de 2003 recebeu um remix excelente de Cid Inc, trazendo vida a melodia e batidas contemporâneas. Baixe agora aqui!
Uma das grandes virtudes do maestro é saber a hora exata para tocar cada música e quando chega o amanhecer, ele nunca falha! Outro destaque foi ‘”Bullets”, de Drewxhill com remix de Antrim e do próprio Hernan, trazendo um lindo vocal para o momento de entrada de luzes na pista. Em seguida mais uma clássica do Depeche Mode, em “World in My Eyes”, com remix de Baunder, deu pra cantar junto!
Já passavam das 7h quando uma das faixas mais esperadas da noite entrou em cena. Até poucos dias se tratava de uma música ainda de nome desconhecido do Sébastien Léger, no entanto, em meio a esse review, circulou nas redes sociais que a música que o maestro mais tem tocado nos últimos meses se chama “Lanarka”, com lançamento esperado em fevereiro pela Lost&Found. Sua atmosfera levemente viajante com um vocal recortado em loop é daquelas que algumas pessoas iriam chegar em casa contando que o sentimento final foi de paz e reflexão.

Após os aplausos de reverência, o staff da casa suplicou para Hernan não abrir o canal da clássica última música que ele sempre manda para deleite de seus fãs. Uma quebra de tradição, mas compreensível, existem limites que fogem do alcance do club e Hernan compreende tudo isso, afinal, é de casa. Em quase 10 horas de demonstração pura de como conduzir uma pista de dança sem perder a mão um segundo, seu set pode ser analisado da seguinte forma:
“Imagine que você vai iniciar uma viagem de carro e seu destino está a dez horas de distancia do ponto de partida. Agora, imagine que durante o percurso você comece a se sentir mais confiante e então passe a dirigir mais rápido aos poucos. Em dado momento, você se dá conta que passou de 80 para mais de 150 km/h!! Entretanto, sua viagem está tão boa que você mantem essa velocidade até algum ponto de referência no caminho que te lembre que está próximo do destino. Então, lentamente vai diminuindo até parar.
Essa analogia pode parece familiar a centenas de leitores deste review, afinal, muitos realmente vêm de longe para prestigiar os eventos de fim de ano no templo da música eletrônica. Os mais experientes já perceberam que na verdade essa analogia é uma referência de como Hernan conduz e conduziu outra vez a pista de dança dentro de um extendend set. Esse relato simplificado pode remeter a ideia de que foi uma viagem rítmica perfeita, onde a construção do set ou o ganho de velocidade na estrada, subiram progressivamente sem desvios. Na verdade, não é bem assim que acontece lá em cima na cabine quando analisamos detalhadamente a história percorrida. O que acontece é que assim como em uma viagem por uma rodovia movimentada, o set também não sobe o ritmo em uma curva perfeita. Ele tem pontos de alta e baixa carga de energia. Em certos momentos, você precisa baixar a velocidade um pouco, voltar de 150, para 110, e depois ir a 140, e em áreas urbanas correr no máximo a 100. Pergunta, então o set não é progressivo? Sim, afinal você partiu andando a 40 e chegou a mais 150!! Dentro dessa viagem, assim como na pista, há momentos de maior tráfego, momentos de diminuir e cadenciar e, principalmente, momentos de ultrapassagem!! É exatamente isso que você está pensando; as ultrapassagens são os momentos em que Hernan levou o público ao delírio coletivo. Palmas, gritos e choros com músicas até então nunca ouvidas.
Não devemos confundir essa alegoria de representação da noite com DJs que tocam em blocos ou andam a 40, e em seguida a 200! Esse tipo de set é cansativo e não serve para viagens longas. O mais importante de tudo é que o comandante faça tudo com sutileza, não deixando que você pare de olhar a paisagem do lado de fora um minuto se quer! Impossível? Para um DJ que é apresentado como mestre em todas as pistas que se apresenta, não! Manter todos olhando para a beleza da paisagem musical, sem perder o interesse de estar no mesmo lugar é uma tafera de extrema dificuldade, onde somente quem conhece todas as curvas, atalhos e pontos de ultrapassagem como a palma da mão pode realizar.

Vamos adicionar outras variáveis nesta nossa viagem. Imagine que você iniciou com tempo nublado, atravessou por momentos de vendaval e, no meio de percurso, passou por uma tempestade de raios e trovões, onde a escuridão parecia que iria lhe engolir. No fim, nuvens brancas e luzes solares te presentearam com uma sensação de renovação espiritual, junto de sorrisos e abraços por parte de quem lhe fez companhia por tanto tempo. Eu particularmente tenho o meu momento favorito, a parte tempestiva e obscura que Hernan impôs entre às 3 e 5 horas da manhã. Ali, dentro daquele momento do set, é como se a chuva gelada no rosto e o clima de tensão fizessem parte de um ciclo infinito que gostaria de estar para sempre. Porém, uma vida e uma noite de música com Hernan não se fazem apenas de partes tempestivas, elas passam por diversos climas que precisam agradar o maior número de expectadores possíveis.
Parece clichê de fã falar que a noite foi espetacular, citando velhos adjetivos que todos os anos se repetem na tentativa de transmitir adiante um pouco da sensação musical pós festa, porém, não existe prova maior do que ouvir as vozes de novos corações completamente entregues após a primeira experiência do mais clássico long set do planeta. Pergunta. O que é mais difícil, ganhar novas mentes após tantos anos de carreira a cada show, ou manter a chama da emoção acesa naqueles que já tem dezenas de horas de “cattadance” no currículo? O mais incrível é que o resultado para ambos os casos é o mesmo; despertam uma mistura de contemplação e euforia que poucas vezes são sentidas na vida.’’
