Por: Lucas Arnaud
Já é de conhecimento geral que a franquia Pokemon atingiu níveis de popularidades nunca antes vistos com o aplicativo Pokemon Go. Vê-se fenômenos engraçados e até bizarros, decorrentes do fato do aplicativo misturar aspectos virtuais com dados reais (como a localização do jogador) – isso, aliado à febre que o jogo se tornou gerou notícias como “a multidão correndo no Central Park em busca de um pokemon raro” ou “garota encontra cadáver ao procurar pokemons”. Nesse cenário, eis que nos deparamos com a seguinte notícia (essa sim pertinente à electronic dance music): “Hardwell finaliza seu set com música tema do pokemon”.
A primeira consideração sobre o fato: ele é inédito? A resposta é não.
O vídeo acima mostra o DJ (de carreira meteórica) Jauz utilizar a música tema do Pokemon em um de seus sets, logo no inicio de 2016 – fato que se repetiu em vários de seus sets. No caso, ele utiliza o tema do pokemon em mashup com a conhecida track “Red Lips”, do GTA (mas no remix de Skrillex). Note que no início do ano não se falava tanto (em relação às últimas semanas) em Pokemon nos veiculos de informação, visto que Pokemon Go ainda não havia sido lançado.
Ao analisar a “manobra” de Hardwell, temos que entender alguns fatos. É importante termos em mente que maior parte do público (ou, utilizando um termo mais adequado: “fanbase”) de Hardwell tem gosto pelo mainstream, visto que o DJ ja foi duas vezes o melhor do mundo e realiza suas produções realmente voltadas ao mainstream da música eletrônica (grandes palcos, grandes multidões, foco em estilos populares no EDM). O que quero dizer: é obvio que surgirão vários comentários negativos sobre o ocorrido, principalmente vindo de públicos específicos ou alternativos, como os fãs de gêneros undergrounds. Todavia, deve-se ter em mente que Hardwell tocou o tema de Pokemon justamente pensando na repercussão no seu público-alvo.
Tendo essa consideração como ponto de partida no nosso raciocínio, podemos entender facilmente porque Hardwell fez uma decisão acertada, e enumerarei alguns aspectos que falam a favor disso:
Hardwell conseguiu se aproveitar de um momento (essas últimas semanas) no qual Pokemon virou notícia diária e com isso, tornou-se ele próprio uma nova notícia! Foi um jeito fácil de dar uma “chacoalhada” nos portais de música eletrônica. O ocorrido no Ultra Croacia foi noticiado (em alguns casos quase que em tempo real) em basicamente todos os grandes portais de música eletrônica na internet, principalmente pelo uso das redes sociais. Dessa forma, o DJ conseguiu chamar a atenção (e obter publicidade) de um modo até fácil, visto que o timing foi mais que oportuno. Além disso, outro aspecto do ocorrido favoreceu tudo isso: o fator surpresa. Ora, quem esperaria, que em pleno mainstage, um top DJ tocaria a música tema do Pokemon? A “quebra de expectativa” é um artifício muito usado pelos estudiosos do marketing, e se aplica muito bem à situação. Para não dizer que foi uma manobra perfeita, o DJ poderia ter feito como Jauz e utilizado o tema de Pokemon em mashup com alguma track de música eletrônica, o que traria as mesmas boas repercussões, mas seria ainda mais elegante.
Podemos “extrapolar” nosso raciocínio para o que vários DJs, inclusive o proprio Hardwell, fizeram quando estiveram em tour no Brasil, a citar: Skrillex tocando o funk “BOLOLO HAHA” no mainstage do EDC Brasil, Hardwell tocando Baile de Favela, Axwell e Ingrosso tocando “tá tranquilo, tá favorável” no mainstage da Tomorrowland Brasil 2016. Todos esses fatos foram noticiados, pois também eram inesperados (fator supresa!) pelos fãs. Muitos fãs “puristas” criticaram o uso do funk nos sets, mas os resultados apontaram o contrário: essas manobras foram, afinal, ótimas manobras de marketing, considerando todos os aspectos já discutidos nesse artigo.
A verdade é que está cada vez mais difícil ser um fã “purista” (termo que está cada vez mais difícil de definir em se falando de EDM), visto que tanto a música eletrônica mainstream como Pokemon representam grandes componentes do que chamamos de “popculture” – vertente que está em constante renovação e revolução. Ja a utilização da metalinguagem (popculture fazendo referencia à popculture) por Hardwell claramente trouxe benefícios, principalmente em se falando de marketing. Ser um bom artista do mainstream é isso: saber dialogar com a popculture no timing certo e do modo certo. Ora, esse artigo que você está lendo nesse momento acaba sendo, ironicamente, uma publicidade indireta para Hardwell, concorda? É.
