Co-fundador da Subdivisions, Oliver Gattermayr é a nova cara da efervescente cena paulistana

 

Por: Gabriela Loschi


Nos últimos anos, São Paulo tem atravessado uma profunda transformação cultural, sendo o paulistano Oliver Gattermayr um dos protagonistas da efervescência exalada em cada canto da Gotham City brasileira. DJ, produtor e agitador cultural, Oliver é sócio-fundador da Subdivisions, festa que tem acontecido a cada três meses na capital paulista, em locações “abandonadas”, prédios desativados, trazendo sonoridades e conceitos pouco explorados pela maioria dos eventos no Brasil, onde a música, a qualidade sonora e as experiências interpessoais baseadas na liberdade de agir e dançar são os protagonistas.

Foi em uma Subdivisions que o estudante da ESPM Marco Sarli ouviu o som do Oliver pela primeira vez. E foi então que um novo mundo de experimentações rítmicas abriu-se à sua frente. Quando ele viu o nosso review do Sunwaves 17, na Romênia, publicado na página da House Mag, logo comentou sobre a falta de eventos que investem em sonoridades minimalistas no Brasil, com exceção de poucas festas, como a Subdivisions. Daí o convidamos para participar da coluna HEROES, onde o fã entrevista os artistas que admira, no caso o Oliver, e ele aceitou na hora! 

Com perguntas pertinentes, Marco mostrou que conhece o seu “ídolo” e extraiu respostas interessantíssimas e maduras, nos convidando a conhecer o mundo em que Oliver transita e que está ajudando a criar em São Paulo. 

Com a palavra: Marco Sarli

13082767_1120002134686793_5370434252537262751_n_500
Marco Sarli

Fala Oliver!

Queria poder dizer que sou seu fã há anos, mas infelizmente só conheci seu som faz alguns meses, quando vi o evento da primeira Subdivions e comecei a procurar mais sobre a galera que ia tocar.

A partir daquele momento, fui apresentado pra um mundo totalmente novo em termos de som. Já conhecia os nomes colossais da cena, como Ricardo Vilalobos e Zip, mas foi depois de conhecer a sua festa que comecei a ir realmente atrás e conhecer artistas incríveis, como Rhadoo, Bihn, Raresh e Vera. Não demorou muito para eu fuçar mais o estilo e me apaixonar pelo genêro.

Fico muito feliz que o seu projeto esteja ganhando visibilidade, e que o estilo minimalista esteja ganhando espaço dentro da cena.

Queria agradecer à House Mag pela oportunidade de fazer as seguintes perguntas ao Oliver:

13308508_1118495951535015_4887910334971331285_o_500
Oliver Gattermayr tocando na festa da Toi Toi em Londres
 

HOUSE MAG – Qual foi o motivo chave que te levou a criar a Subdivisions? Poderia explicar um pouco o conceito da festa? E qual a sua maior meta para o coletivo?

OLIVER GATTERMAYR – A festa nasceu com o intuito de criar um ambiente que eu me identificasse com a proposta, principalmente musical. Para vivenciar música devidamente e possibilitar que momentos mágicos aconteçam, alguns pré-requisitos são fundamentais.

Um ambiente extremamente descontraído, propício para que a música possa se expressar da forma mais livre possível, aliado a uma curadoria consistente e coerente. Poucas restrições e regras, um Soundsystem equilibrado, muitas horas disponíveis para que os artistas desenvolvam e sem camarote – quando a música é o foco, as outras partes automaticamente se conectam. Música de qualidade, principalmente a não conhecida, costuma atrair um público interessante e isso cria conexões e ligações únicas.

Só tivemos 4 festas até agora, sendo a primeira no final de novembro do ano passado. Eu diria que meu objetivo para 2016 é que a festa realmente se consolide e as pessoas tenham a chance de viver um pouco desses momentos especiais das primeiras 4. Desenvolver uma alternativa viável de entretenimento de qualidade, não somente para quem quer ir à festa, mas também para os artistas que se apresentam na Subdivisions. Nossa proposta é sermos provedores de cultura e disseminadores de música que consideramos de qualidade, não mais um vendedor de bebida – destes o Brasil está saturado.

sub_500
Subdivisions

Se você tivesse que escolher apenas uma música para resumir o som minimalista romeno, qual seria?

Dificil escolher apenas uma música sempre, mas uma das minhas favoritas é o remix do Cristi Cons que saiu pela Amphia para o alias do Rhadoo.


Em sua opinião, por que alguns estilos mais “underground”, como techno e deep house, cresceram tanto no Brasil nos últimos anos, enquanto outros, como o som minimalista no estilo da Romênia, estão começando a ter algum espaço na cena só agora?

Primeiramente, todos estes termos são muito relativos. O que isso tudo quer dizer? A concepção do que é underground, techno e qualquer outro rótulo muda radicalmente de pessoa a pessoa, um dos motivos que evito utilizá-los.

A verdade é que o Brasil é sempre atrasado nos ciclos musicais. Esse hype Romeno começou há uns 3 anos e só agora está chegando ao Brasil. A questão é que onde há um crowd conhecedor de música, os hypes e ciclos não são tão relevantes quanto um lugar que o público não conhece música. O techno sempre esteve bastante presente aqui, mas não em suas formas mais sutis e elaboradas e o pseudo “deep house” ganhou bastante força entre 2010 e 2011. É um som mais facilmente digerível e ganhou muita força no Brasil nos últimos anos. Agora, com coletivos e festas como a nossa se formando, as pessoas começam a ter acesso a sons um pouco mais “avançados”.

Os promoters e donos de clubs são em sua maioria acomodados, mas nós não podemos esperar que os mesmos players, que muitas vezes não tem competição real, mudem seus modelos de negócio que até então funcionaram. Para que algo realmente mude, é preciso que mais coletivos independentes se formem, mais entusiastas que não estão contentes com as opções de festas em sua cidade se organizem e comecem a fazer eventos. Não comece grande a não ser que já tenha alguma experiência em organizar eventos, escreva o conceito, defina as premissas e execute. Na maioria das vezes, basta que amantes de música e bem-intencionados se organizem e executem suas ideias para criar um movimento. Com isso, o público começa a se interessar por música e a pesquisar outras referências sem ser as que ele é exposto aos eventos convencionais, ter mais conhecimento e alguns ficam mais seletivos ao que escutam. Não gosta de uma atração numa festa? Não vá. Em contrapartida, não hesite em apoiar e ajudar uma festa independente tentando fazer algo diferente, pague com gosto e contribua para que essa nova proposta floresça.

oli_sub453_500

Como você conheceu o som que você toca hoje? E qual foi a sua reação quando aconteceu?

Nossa percepção de música muda diariamente, a cada minuto. Muitas vezes escuto uma música hoje e ela não faz sentido imediatamente, só após algum tempo. É um constante aprendizado e conhecimento, existem milhares de discos lançados e outros milhões que ainda não viram a luz. Cada vez mais você é exposto a novas sonoridades (novas pra você) e é um constante processo de pesquisa. No momento ainda estou comprando algumas coisas atuais, mas o foco da minha pesquisa tem se voltado a discos antigos esquecidos – muitas vezes sem preview no youtube ou maneira de escutar online. Não porque é Hype e quero ter discos que ninguém conhece, mas muitas dessas músicas feitas nos anos 90 e 2000 são especiais.

Há cinco anos, você estava montando sua festa “Immerse Party”, que contou com Timid Boy e Wehbba no line. Como fazer festas desse tipo mudou desde aquela época? (R$ 150,00 primeiro lote devia doer).

Poucas pessoas sabem sobre essa festa, mas foi definitivamente minha primeira experiência montando um evento. Na época, estava terminando a faculdade e me interessando cada vez mais por música, já tinha tido alguns gigs no D-Edge e me juntei com outros 2 amigos não envolvidos em música.

Conseguimos um terreno animal no meio da Vila Olímpia de graça e quis fazer uma festa com break even pra 600 pessoas, open bar e usando uma estrutura impecável. O resultado você já deve imaginar: tivemos um prejuízo enorme e demorei mais 3 anos para me envolver em outra festa, mas o aprendizado foi imenso. Desde então adquiri muita experiência frequentando e sendo influenciado por festas aqui e fora e minha concepção de um evento ideal mudou drasticamente.

oliver_gattermayr_3_1_500

Você acha que algum dia, um festival ao estilo Sunwaves poderia acontecer no Brasil?

A Subdivisions é bastante inspirada na experiência que tive no festival nessas 3 edições que participei. Esse setting atrai pessoas de diversas partes da Europa e do mundo que se deslocam até lá para ouvir essa música, nessas condições.

Com certeza existe um mercado consumidor desse tipo de evento, as festas rolando em São Paulo como a Sub são uma prova disso. Se conseguirmos criar essas condições para que isso se desenvolva, pode ser que algo parecido tome forma – mas é um longo caminho até chegar lá.

O curioso é que o Sunwaves é como 2 festivais paralelos, que dividem a mesma estrutura. De um lado você tem todos os musicheads do mundo: promoters, DJs, labelowners, collectors e fans de música que realmente conhecem muito – é onde a mágica realmente acontece (essa pista tem talvez 5-10% de romenos). Do outro no main stage escutando Marco Carola são os consumidores de festa locais que não necessariamente estão lá pela música mas pela festa, os “fanfas” (90% romenos). Cada tipo de música atrai um público, cada um com as suas características. Na pista “mágica” do Sunwaves, olhe para um desconhecido do seu lado e a pessoa olha e sorri e começa a dançar com você, aquela sensação coletiva de união muito forte. Na outra existe em menor teor e a atitude das pessoas é bem diferente, principalmente por que a motivação da maioria ir para uma festa ali não é a música.

Você já morou um tempo em Berlin e dois anos na Suíça, como isso influenciou sua música?

Eu tinha 15 anos quando fiquei 2 anos na Suíça, mas musicalmente não me influenciou muito, não era muito afetado por externalidades – morava na escola e nem tinha um club na cidade onde eu vivia.

Quando fiquei 3 meses em Berlin e tinha começado a tocar há pouco tempo, com certeza isso me impactou de forma muito mais profunda, principalmente nas próximas vezes que voltei e aos poucos fui conhecendo os diferentes clubs de Berlin. Desde 2009 voltei todo ano pra Berlin e o aprendizado é exponencial a cada ida.

13502651_1133063886747727_86347419265808244_o_500
Oliver tocando na Subdivisions

Para você, quando você está tocando, o que mostra se uma festa está indo bem ou não?

Atualmente, se as pessoas estão dançando de olhos fechados e se divertindo com seus amigos, já estou contente. Quanto mais experiência você adquire, aprende a confiar mais no seu instinto e construir seu set sem tanto feedback visível da pista, como os gritos que eu usava antigamente como termômetro de set. Também está relacionado com o que você está tocando e para que público obviamente, mas em geral música mais sutil também tem feedback mais sutil.

Você utiliza bastante discos de vinil do seus sets. Qual foi o seu primeiro disco? E qual você mais gosta dentre a sua coleção?

Fora toda a arte de Discotecar com discos e o quão prazeroso isso é, a música que eu gosto só existe em Vinil e não está disponível digitalmente. Novamente, seu gosto por música muda diariamente e é impossível listar 1 só (até porque até a entrevista ser publicada isso provavelmente já vai ter mudado). Meu primeiro disco foi um dos maiores clássicos já lançados, uma das tracks mais importantes de House: Lil Louis – French Kiss (1988).

Qual é o club ou festival que você mais sonha em tocar? (Se a resposta for Sunwaves, pode falar o segundo lugar).

Ao meu ver é muito mais prazeroso tocar em ambientes intimistas onde é possível conseguir uma conexão com o público. Grande parte dos eventos querem crescer e crescer e isso dificulta cada vez mais essa conexão. Que tipo de feedback um DJ tem num festival onde está num palco de 5m de altura a 10 metros da pessoa mais próxima? Claro que existem alguns festivais como Sunwaves que são exceção e proporcionam long sets e uma atmosfera relaxed e este certamente é um sonho. Clubs como Fabric e Panorama Bar também, além de outros muitos eventos de alto nível músical que acontecem na Europa principalmente.

Qual foi o momento mais marcante para você na sua carreira de DJ? E qual foi o mais marcante apenas como fã de música eletrônica?

Acho que as 2 gigs mais importantes até hoje foram recentemente, a primeira na 1a edição da Subdivisions de novembro, que também era o dia do meu aniversário e o início deste lindo projeto que está rendendo muita satisfação para nós organizadores e aos frequentadores.

A segunda foi no Club Der Visionaire em Berlin. Com certeza o Club mais relevante que eu já toquei hoje em dia, conhecido pela consistência nos bookings: 10 dias antes na mesma cabine teve Margaret Dygas, Ricardo Villalobos, Sonja Moonear e Zip.

Você voltou recentemente da Europa e tocou em Berlim e alguns outros países. Quais são os maiores desafios para você ao se apresentar em clubs importantes como CDV e Goden Gate e como você sente o público europeu comparado com o brasileiro, nas pistas em que se apresenta?

Musicalmente eu diria que há uma maior liberdade, principalmente no CDV e na Toi Toi onde o público é exposto ao que existe de mais avançado em música eletrônica constantemente. Muitas vezes no Brasil dependendo da festa e do horário que você toca, as pessoas esperam que você toque um pouco mais pra frente – aquela coisa que o Headliner tem que bombar a pista e nestas não existe isso.

Nas quatro edições da Subdivions até agora, vocês trouxeram como headliners: Ion Ludwig, XBD, Lamache e o romeno Herodot. Qual é o artista que você mais sonha em trazer para tocar?

Independente do convidado das próximas edições, tenha certeza que o mesmo será um excelente DJ, por muitas vezes desconhecido pela maioria. Acho que meu dever é mostrar às pessoas esse mundo de música boa e DJs de alto nível que até então não tinham espaço para se aprentar por aqui. Não vou me contentar enquanto não fizermos uma Subdivisions com o melhor vivo da atualidade na minha opinião, ZIP.

Na próxima edição, que acontece dia 23/09, você traz o francês Lowris, que também possui uma linha de som e técnicas bem marcados. Faça um convite ao público: Por que as pessoas devem ir à próxima Subdivisions e prestigiar o som do artista do club Concrete de Paris?

Para quem não conhece a festa, com certeza vale a experiência de ver um evento focado na música e a atmosfera criada por diversos fatores. Nós sempre focamos em DJs de verdade que sabem construir um set e contar uma história e isso só vem com uma percepção de pista bem aguçada e experiência. Sendo o segundo residente do club logo depois do Cabanne, Lowris tem a experiência, técnica e pesquisa necessárias para criar aqueles momentos mágicos que só acontecem quando vários fatores entram em sincronia. Nos vemos lá! 

Para ingressos e mais informações sobre a próxima Subdivisions, que acontece no dia 23/09 e traz o francês Lowris, acesse aqui. 
 

 

 

 

Fique por dentro