Por: Chico Cornejo
Se notarmos o quanto ele tem aparecido em algumas das mais fantásticas ocasiões festivas da comunidade dançante global, dá para ver que a vida tem sido bastante auspiciosa para este carioca da Gávea. Mas longe de ser apenas fruto de bons augúrios, essa atribulada agenda espelha o esforço que fora despendido no ano passado, em que verteu faixas de imenso poder dançante e desferiu seleções recheadas com enorme potencial de combustão espontânea que garantiram o fervor de cada um dos eventos que o escalaram, seja no Dekmantel São Paulo e suas edições menores em sua cidade natal ou mesmo no Selectors da Croácia, nos inúmeros episódios da Selvagem que ocorreram nesse interim e tantos outros espaços de hedonismo pelo mundo afora.
Aqui ele fala com a House Mag sobre temas variados de sua vida e carreira, como os diversos contextos pelos quais trafega, suas perspectivas sobre a música e a cena e inúmeros outros tópicos de relevância para todos aqueles que, como ele, vivem na, para e da música que amam. E, para além de qualquer estereótipo, como os melhores cariocas que já se dedicaram a renovar nosso rico mas tão abandonado cenário cultural brasileiro, ele é tão eloquente falando sobre sua arte quanti deixando ela falar por ele.
Ele se apresenta na edição carioca da turnê de comemoração de 10 anos do Dekmantel que vai passear pela América do Sul a partir deste sábado, começando por São Paulo. Mais informações aqui.
HOUSE MAG – A participação na RBMA é invariavelmente uma experiência que consegue catalisar, ou ao menos reafirmar, as energias que fazem a carreira de um músico ou produtor, especialmente em seus momentos formativos. Para você, pessoalmente e olhando para trás com uma certa vivência, qual foi a importância desse momento na sua?
CARROT GREEN – À época foi importante justamente por essa coisa de ser um tapinha nas costas que diz que estamos no caminho certo. Apesar disso, ir pro RBMA não te garante muita coisa além da experiência maravilhosa que é ir pra lá, conhecer um pessoal massa e aproveitar aquele momento.
HM – E quanto a sua cidade natal? Eu não sou muito fã de determinismo geográfico, mas você vê algum modo essencial como ela inspira ou informa o que você faz?
CG – Acho que já vi mais. Não sei direito responder essa pergunta. Tá um momento bem escroto pro Brasil e Rio especificamente, mas ainda assim amo a cidade, os amigos e minha família daqui.
HM – Vamos enveredar pelo atual cenário artístico do Rio. Apesar ou por causa das agruras que a cidade enfrenta, como você o vê?
CG – Acho que um momento bem legal apesar dos pesares. Não temos a quantidade de opções de São Paulo; mas acho que conquistamos algo importantíssimo nos últimos anos, que é um público frequentador fiel que gosta de música e de dançar. Sem isso fica impossível andar pra frente com o que a gente gosta, então acho que foi uma grande vitória. Apesar da cidade ainda não comportar duas festas voltadas pro mesmo público no mesmo dia, têm melhorado.
HM – Falando um pouco do Brasil de forma mais ampla, é impressionante o que os últimos anos nos trouxeram em termos musicais, há uma grande quantidade de novos talentos reenergizando uma cena bem vívida. Aqui dá para contar todos que saíram do cenário de festas independentes (Teto Preto, Zopelar, Cashu, Laercio, Muep Etmo, Selvagem, Belisa, Beatwise crew e muitos outros) e, de certa forma, você também se inclui nesse contingente. Você acha justo falar de uma geração ou turma que, mesmo que tenham musicalidades bem distintas e uma personalidade forte, ainda guardam muito em comum entre si?
CG – Acho que sim, a maioria dos citados eu conheço, alguns são amigos, e o que todos têm em comum é fazer algo que não toma muitos atalhos. Fazer o que se acredita e só. Depois de algum tempo no limbo, acho que estamos construindo algo em que no futuro vai ter feito alguma diferença, eu espero.

HM – Isto você também vê num âmbito mais amplo que recobre até o continente se inserirmos aqui o pessoal de Buenos Aires, Bogotá, Medellín, Lima e Santiago?
CG – Realmente não sei, pois não conheço muita gente de outros lugares da América do Sul. Os que conheço mais fazem parte de uma cena mais específica, de sons folclórico-eletrônicos, e mesmo assim tenho alguns amigos de Buenos Aires e só. Certamente estão rolando coisas legais por lá, eu que não tô ligado. Claro que temos um ou outro mais próximos, como a Valesuchi, mas não me sinto na posição de classificar isso como uma única `geração` latino americana. Aqui no Brasil parece só que já tem uma fauna bem desenvolvida de festas e produtores de estilos diferentes.
HM – E quanto à sua trajetória? Neste momento você está tocando pela Europa e tem tocado consideravelmente pelo Brasil afora, então pode-se dizer que suas expectativas foram cumpridas, superadas ou ainda não totalmente preenchidas até aqui?
CG – Desejos e expectativas são muito mutantes. À medida em que vamos nos aproximando de objetivos, naturalmente outros vão crescendo no horizonte. Então apesar de ter cumprido, felizmente, algumas expectativas de anos atrás – como conseguir sobreviver da música – espero até o fim não me dar por satisfeito e estar procurando fazer coisas novas.
HM – 2016 foi um ano repleto de lançamentos seus, de todos os tipos. Neste ano houve um certo refreamento na quantidade, isso foi planejado ou foi decorrente de outros fatores, como uma agenda de apresentações mais recheada?
CG – Este ano acabei lançando mais remixes. Saíram algumas coisas, sim, agora por exemplo acabam de sair um remix que fiz para o selo The Magic Movement e mês que vem sai o remix que fiz em parceria com os Selvagens pra música da Maria Rita (Cantico Brasileiro n. 3 – Kamaiura), que foi um trabalho especialíssimo pra mim.
Nesse meio tempo tento me reinventar no estúdio, e sempre tenho produzido minhas próprias faixas, tentando me distanciar dos samples. Daqui a pouco vem um EP novo com faixas originais. Acho que já lancei muita coisa, então não estou com muita pressa agora. Quero focar e lançar algo quando achar que estiver legal e maduro. O fato de estar tocando e viajando muito não ajuda em termos de tempo e cansaço, mas por outro lado ajuda na valorização do tempo no estúdio e em casa.
HM – E quanto ao futuro próximo? Quais os próximos movimentos esboçados que você pode dividir conosco?
CG – Já falei um pouco ali em cima. Terminar músicas novas, esse eterno devir. Tenho minha festa com o Guigo também, a Climão, que é um projeto pelo qual tenho muito carinho. Enfim, acho que é isso. Fazer música pra conseguir sobreviver a essa realidade retrógrada do Brasil que tá complicada de engolir. Apenas um pequeno desabafo aqui de final… =)
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