Por Gabriela Loschi
Foto de abertura: divulgação
Onze anos se passaram desde o lançamento do Chromophobia, seu primeiro álbum, em 2007, considerado uma obra prima. Tanto é que, até hoje, ouvimos e nos emocionamos com músicas como “Mr. Decay”, “Beautiful Life” ou “Scene 1”, que possui belíssimas melodias entrecortadas por batuques e uma leveza clássica em dados momentos da faixa. Não seria coincidência que agora, no Pentagram, seu novo álbum que será lançado em 15 de junho pela Kompakt, a “Scene 2” seja uma track orquestral, em meio a outras 11 músicas que carregam características, instrumentos e ritmos distintos entre si – ainda que consigamos identificar em cada uma delas aquele prisma musical característico de Gui Boratto.
Identidade. Algo muito difícil de se conseguir hoje em qualquer cena, mas sobretudo na música eletrônica. Algo almejado por todos os artistas verdadeiros, aqueles que buscam imprimir a sua essência em cada trabalho, e não apenas copiar fórmulas, aqueles que criam com o coração. Mas não é fácil alcançar autenticidade, principalmente em um mundo globalizado cuja velocidade de construção e consumo muitas vezes fere alguns princípios artísticos.
Mas Gui conseguiu imprimir a sua personalidade através de instrumentos musicais, machines, batidas de techno, progressão e melodia em todos os seus trabalhos, seja nos remixes maravilhosos que já fez para artistas como Massive Attack, Pet Shop Boys ou Stimming, seja nos seus cinco álbuns de estúdio, que ultrapassam a barreira musical, tendo toda a sua identidade visual também pensada por ele próprio – do colorido de Chromophobia à releitura moderna da obra de Tarsilia do Amaral em Abaporu, são todos trabalhos fortes cujas imagens estão vivas em nossa cabeça.
Entender por que o trabalho de Gui Boratto ultrapassa os tempos vai além de visitar o seu estúdio e saber seu background, com formações em produção e diversos instrumentos musicais, além da arquitetura. Pentagram está chegando às lojas (você já pode fazer uma degustação e reservar pelo site da Kompakt) na metade de junho, e nós batemos um papo com Gui no dia da sua estreia no Caos, em Campinas, em 30 de maio (informações sobre o evento aqui), para saber mais sobre o processo de criação e algumas de suas faixas preferidas deste que promete ser a sua quinta obra prima.
HM – Gui, obrigada por esta entrevista e pelo seu tempo. Gostaria de começar falando de como está a sua rotina logo após terminar a produção do seu quinto álbum: o que você anda fazendo, está procurando relaxar um pouco, antes da tour?
Eu que agradeço! Bom, logo após entregar o álbum, comecei a montar os pedaços de cada música e pensar em como tocaria elas ao vivo. Isso leva tempo. Além disso, estou trabalhando no álbum novo do Marcão, ex Click Box, do seu projeto solo M.A.S. Tem muita coisa boa ali. E tenho outros projetos que ainda não posso revelar, mas já adianto que é um projeto de fabricar uma bateria eletrônica. Sério!
HM – Uau! Vamos querer saber melhor sobre esse projeto quando for a hora. Relembrando, do Abaporu ao Pentagram foram quase quatro anos. De quando você começou a materializar este álbum, e sabendo que você não é só responsável pela complexa produção musical, mas também por cada elemento artístico e arquitetônico como a super bem pensada capa, quais foram as emoções predominantes em cada etapa desse processo? O que você sentiu ao decidir que o álbum estava finalmente pronto para sair a público?
Costumo dizer que a gente nunca começa nem termina um álbum. Pelo menos para mim, é um processo inconsciente que vai fluindo naturalmente. Sem pressão. No meio do processo de feitura do álbum, você até se pergunta se ele está muito “assim” ou muito “assado” e pode até se dirigir para outro lado, mas, quando digo que não tem exatamente um início nem um fim, é porque ele também se mistura entre o álbum anterior, com coisas feitas naquela época e que ficaram para o próximo. E coisas do final desse que ficaram de fora e que talvez possam ser incluídas no próximo álbum. A real é que não tem muita regra.
O tempo entre o “Abaporu” e “Pentagram” foi de quatro anos, pois me envolvi em outros projetos do meu selo DOC, como o excelente álbum “Poema”, do L_cio, que está inclusive próximo de seu lançamento. Teve o Elekfantz também, que já está lançando o seu segundo álbum.
Já a capa do “Pentagram” foi um processo de uma noite. Uma longa noite! Já sabia bem das relações do pentagrama com a proporção áurea e o número pHi. Mas só depois que o desenhei, recortei e comecei a brincar com os “pedaços” do pentagrama desmontado é que me bateu um estalo e veio à minha cabeça a série “O Bicho”, da Lygia Clark. Aquele lance da dobradiça de suas esculturas me inspiraram pra fazer as minhas. Volto a reforçar que meu pentagrama não possui absolutamente nenhuma relação esotérica, religiosa ou ritual. Aqui eu pensei em matemática e natureza, que é a mesma coisa.
HM – Bom, já que você tocou nesse assunto e o pentagrama é um dos símbolos mais poderosos da natureza, quando foi que este nome surgiu para você como sendo “o nome” e, a despeito dos seus sentidos esotéricos, qual é o verdadeiro sentido do pentagrama neste álbum e na sua vida?
É meu quinto álbum. Nome óbvio, não? (risos) Brincadeiras a parte, é como eu disse. Estudei e me envolvi nas relações do pentagrama presentes na natureza, na arquitetura, em instrumentos musicais, etc.
HM – Seja nas apresentações ou na composição dos álbuns, você faz essas transições entre, vamos dizer, a “luz” e o “escuro”; faixas mais alegres intercaladas com músicas de melodias mais obscuras. Para o Pentagram, você diria que buscou experimentar algum lado do Gui Boratto com mais profundidade?
No “Pentagram” eu experimento tudo o que me vem na cabeça. O gostoso de se fazer um álbum é justamente o descompromisso e a oportunidade de seguir caminhos não tão óbvios. Experimentar é ter liberdade. Claro que tudo isso dentro de uma “paleta” de cores. Mas mesmo assim, costumo ter uma ou outra cor fora da paleta.
HM – Na faixa “Scene 2” você surpreende com a atmosfera de uma música embebida por lindos elementos orquestrais, como uma pausa estratégica bem na metade do álbum. Além do Astor Piazzolla, que sabemos ser pra você uma grande inspiração, assim como o tango argentino, que outros artistas e orquestras te inspiram?
Eu gosto muito dessa pausa. Inclusive essa é uma das minhas músicas favoritas, mas devo dizer que apesar da minha predileção ao tango, principalmente a obra de Piazzolla, Scene 2 é um bolero. Eu amo música brasileira em geral, como Tom Jobim, Ernesto Nazareth, e Villa-Lobos, claro.

Foto divulgação Facebook – Gui Boratto
HM – Lembro de você dizendo, não recordo se para “Beautiful Life” ou “No Turning Back”, que você colocava a sua mulher, Luciana Villanova, deitada de lado, por exemplo, para extrair os vocais. Ela aparece novamente em “Overload”. Como foi dessa vez o processo? E a música já foi pensada para se encaixar no tom dela, ou a escolha do encaixe do vocal veio depois?
Na verdade isso foi na “Beautiful Life”, quando a gravava. A voz da Lú estava com muita emissão. Eu queria o oposto. Queria aquela “falta” de ar. Aquela coisa ingênua, fazendo assim um lindo contraste com o resto da produção, que é bem explosiva. Só deitada conseguimos o resultado desejado. Na “Overload” ela se soltou bem mais. Até criou algumas das frases. Mas ela gravou de pé mesmo.
HM – O D.O.C. me parece um selo “premium”, que escolhe muito bem os seus releases e imprime características bem peculiares. Ainda assim, neste ano, se eu não me engano, o D.O.C. fez apenas um lançamento em janeiro. Este hiato foi em decorrência da finalização do álbum? Quais são os planos futuros para a gravadora?
Claro que como o D.O.C. é um selo familiar e também não temos pressa nem obrigação de lançar isso ou aquilo com frequência determinada, também posso dizer que como eu gosto de “cuidar” de cada lançamento pessoalmente, meu álbum tomou um certo tempo meu. Esse hiato também é porque as fábricas de vinil na Europa demoram hoje 12 semanas para entregar. E estamos muito felizes e animados com o tão aguardado álbum de estreia do L_cio, “Poema”.
HM – Para além da produção sólida, você possui uma sensibilidade peculiar para compor faixas cujas melodias e harmonias conduzem verdadeiras viagens mentais. Não à toa, suas músicas e identidade criativa são atemporais. Numa cena meio “fast-food”, onde as pessoas querem produzir e consumir rápido, que outros artistas contemporâneos você considera produzirem música/arte anacrônica?
Muito obrigado por suas palavras. Eu acho que fazer música com o coração é a tal “arte” que você se refere. Gosto muito das coisas novas do Laurent Garnier, que vem fazendo a “mesma coisa” há trinta anos. Isso é “carregado” com sua assinatura. Gosto muito do novo álbum do Koze, por exemplo. Acho que foge à linguagem coloquial dos DJs normalmente. Criatividade é sempre bem vinda.
HM – Seu live já passou por experimentações ao longo dos anos. Em 2013 você lançou o analógico com shows no Brasil e fora do Brasil. Testou com bandas, fez projeto com Elekfantz, e agora, o que vem pela frente? Algo especial para a tour do Pentagram? Fale um pouco sobre a formação do seu live atual.
A grande novidade do live novo é o controle de moving heads ao vivo, com essa linguagem MIDI-DMX. O legal disso é que eu literalmente programo esses cinco moving heads, presos a um cilindro curvo de alumínio formando um grande pentagrama com as luzes. Estreei no D-EDGE FEST e foi demais. Ainda estou ajustando, mas está lindo. Consigo programar várias luzes ao vivo, como se fosse uma bateria eletrônica de luzes.
HM – Se o Pentagram é um produto da ciência e dos sonhos do seu criador, ao olhar para dez anos atrás, do lançamento do seu primeiro álbum, Chromophobia, que sonhos permanecem e que sonhos se transformaram no meio do caminho?
Nossa, que pergunta difícil! Olha, venho tentando executar meus sonhos e por para fora meus medos através da minha música. Com certeza fico feliz de ter novos sonhos, assim, novas músicas surgirão.
HM – Para finalizar, Campinas será o seu último show no Brasil antes da tour europeia? Você pode adiantar um pouco para a gente o que está preparando para esta apresentação tão aguardada na cidade?
Podem esperar algumas clássicas minhas, mas muita coisa do “Pentagram”. Também estou muito ansioso. Nos vemos lá então!
